Cinco países

Eis algumas nações interessantes entre o Atlântico e o Cáucaso

Por Fernando Dourado Filho, de Yerevam, Armênia

É frequente que as pessoas me peçam indicações sobre lugares não convencionais para visitar. Se, por um lado, reconheço que estou em boa posição para o desempenho da tarefa, devo admitir, por outro, que não sou especialista em viagens como tal. Para tanto, temos profissionais qualificados e boa literatura a respeito na seção cabível de umas poucas livrarias do Brasil e de muitas delas no mundo. Sendo a Altaïr, de Barcelona, minha preferida. Mas, como disse um leitor diante dessas ponderações, ele queria saber dos sentimentos de quem parte do pequeno para o maior. Do específico para o geral. No caso, a metodologia adotada por este escriba. Então, trato feito.  

Assim sendo, resolvi listar cinco países interessantes localizados entre o Atlântico e o Cáucaso para termos um critério de partida. É claro que passarei ao largo de todas as escalas, entre grandes e pequenas, que já estão consagrados como mecas de destino de boa parte do público leitor. É o caso da Inglaterra, França, Espanha, Itália e Alemanha – responsáveis, com folga, por um número de visitantes que excede em muitas vezes as populações dos locais aqui citados. Nesse contexto, farei brevíssimos comentários explicativos. Nas próximas semanas, poderemos retomar o mesmo exercício escolhendo mais cinco países dentro da mesma área, dada a riqueza cultural dessa faixa do globo.  

Armênia
Se a ordem é alfabética, me alegro em começar pelo país de onde escrevo, um dos mais fascinantes que já conheci. Encravado no sul do Cáucaso, eis um destino de história riquíssima. Sendo os armênios os primeiros cristãos da humanidade, esta semana receberão a visita do Papa. Emparedados por vertentes civilizacionais de forte poder de atração – Pérsia, Turquia, Rússia –, a Armênia sempre achou uma forma de se adaptar à supremacia do vizinho sem perder a singularidade ancestral nas áreas da cultura e ciência. Yerevam é uma cidade aprazível, segura e hospitaleira. A região do lago Sevan nos mostra encostas escarpadas, erodidas pelas forças da natureza, e o segundo lago mais alto do mundo. Caudatário de um genocídio atroz há pouco mais de um século, eis um país que arrebata e apaixona. Menos de mil brasileiros o visitaram no ano passado.     

Bósnia-Herzegovina
Trata-se de outra área de fratura civilizacional, logo não se pode dissociar o lindo país dos conflitos que retalharam os Bálcãs nos anos de 1990. Embora venha se tornando foco de um Islã de feição salafita na parte norte do país, não há dúvida de que a porta de entrada é a belíssima Sarajevo, uma cidade marcada pela exuberância dos picos nevados e pela diversidade cultural histórica que sempre a caracterizou. Ao caminhar pela cidade, de repente saímos do bairro muçulmano – de feição marcadamente oriental com suas pequenas mesquitas –, para adentrar prédios compactos que atestam as digitais do pertencimento passado ao Império austro-húngaro com basílicas, sinagoga e templos ortodoxos. Na pequenina ponte Latina, a lembrança de que foi ali que Gavrilo Princip alvejou o Arquiduque Francisco Fernando, detonando o gatilho da Primeira Guerra Mundial.    

Croácia
É difícil, muito difícil, conceber um país onde a natureza seja tão benevolente e esplendorosa. Embora também se tenha engalfinhado nos conflitos da região, as cicatrizes são menos aparentes. Uma viagem de Dubrovnik a Zagreb ainda é um dos melhores roteiros da Europa. Entre ilhas, angras e belas enseadas, muitas vezes se tem a sensação de passear pela Itália ou pela ilhotas ao sul do litoral fluminense. Split guarda um encanto todo especial em sua parte histórica e é recomendável pernoitar na floresta de Plitvice, a caminho da capital. Os croatas são calorosos e curiosos com respeito aos visitantes. Assumem claramente que há grande empatia com o Brasil. Zagreb tem vida cultural trepidante. Além de boa gastronomia, se percebem digitais moderadas dos tempos soviéticos. Estas se traduzem no amor à música e às grandes salas de concerto com programação rica e diversificada. 

Estônia
Se as chamadas Repúblicas Bálticas são países pequeninos – ela própria, a Lituânia e a Letônia –, certo é que o milhão de estonianos do extremo norte da região faz muita questão de enfatizar a filiação ocidental, por assim dizer. Concretamente, isso a leva a ter uma posição hostil à Rússia, de quem também foi satélite, e muito simpática ao Ocidente. Ao alcance da Finlândia ao cabo de poucas horas de travessia de ferry, Tallinn é uma cidade encantadora, especialmente na parte velha. Povo de leitores e escritores, os estonianos são reconhecidos por sua inventividade no domínio da tecnologia de informação.  Com a "de-sovietização" que vem ocorrendo sistematicamente desde a "perestroika", eles reatam com a vocação de porto hanseático e já foram alvo de ataques de "hackers" comandados por Moscou para desorganizar o país pequenino, mas valente. Pertence à Zona do Euro.        

Islândia
Quando achamos que a grande aventura cultural euro-asiática já chegou ao fim e tomamos um voo para a América do Norte, eis que quase sempre passamos ao largo de outro país pequenino e virtualmente esquecido do mundo, salvo quando nele acontece raro fato relevante. Falo da Islândia, uma ilha cuja população caberia facilmente em três grandes estádios de futebol. País referência na cultura escandinava, tem na aprazível Reykjavik uma capital peculiar. As pessoas amam as piscinas sulfurosas onde tomam prolongados banhos geotérmicos e a imensa maioria da população vive da pesca. Local ideal, portanto, para se comer um sashimi de baleia. Os islandeses quase desencadearam uma crise sistêmica no mercado financeiro por conta de valentia excessiva, própria de uma nação de lobos do mar. Trata-se de um povo reativo e cioso de seu legado. Dizem que muitos adultos acreditam em elfos e duendes. 


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