A China é economia de mercado, quer queiramos ou não

Não podemos imaginar que ganharemos algo confrontando a maior economia do mundo com argumentos frágeis

Por Milton Pomar

Quem defende o não-reconhecimento da China como economia de mercado, utilizando como argumento eventuais subsídios que o país concede a um ou outro segmento (leia aqui manifestação da CNI que me fez refletir sobre o tema), vale-se de munição velha, que já não causa mossa, porque o Brasil e a totalidade das maiores economias, concederam e continuam concedendo subsídios à agropecuária, a setores da indústria e a exportadores. Os Estados Unidos, por exemplo, são campeões em auxílios aos agricultores e aos exportadores – só para ficar em dois segmentos de maior peso.

Ao invés de se queixar dos benefícios alheios, a indústria brasileira fará melhor se brigar de verdade pela construção de ferrovias no Centro-Sul do país como as que os chineses fazem há 30 anos. Desse modo, teremos malha ferroviária de uns 80 mil quilômetros até 2030, o que nos permitirá então ter mais competitividade até do que a China e os Estados Unidos. 

A logística, e não um ou outro incentivo, é uma das grandes vantagens competitivas dos chineses. Eles são imbatíveis nessa questão – e não apenas porque têm dezenas de grandes portos marítimos ou mais de 110 mil quilômetros de ferrovias. São assim, pois investem em sua melhoria e expansão o tempo todo – e a ligação ferroviária que já está em funcionamento, de várias grandes cidades chinesas com a Espanha e a Alemanha, é uma prova e tanto disso.  O imenso mercado consumidor, que cresce 6% em média, ano após ano, é a outra grande vantagem do gigante asiático em relação ao mundo. É a China que exige do mundo condições competitivas e preços quase imbatíveis com as economias de escala que conseguem e as margens muito pequenas que praticam. Fatores que fazem com que os chineses pressionem sempre por preços muito baixos.

Comecei a estudar a China em 1984 e vou ao país desde 1997. Nesse tempo todo, o comércio Brasil-China cresceu exponencialmente, mais por necessidade deles do que por iniciativas nossas. Quando pararmos de reclamar e fizermos a "lição de casa" (leia-se investimentos em infraestrutura e logística) e o básico em termos comerciais na China – promoção em grande estilo, maior presença diplomática e institucional, participação com estande em dezenas de feiras –, similar ao que sempre fizemos nos Estados Unidos e Europa, a situação mudará qualitativamente.

Precisamos conhecer melhor a China e buscar maior cooperação com o país, ao invés de imaginar que poderemos ganhar algo confrontando a maior economia do mundo (pela paridade do poder de compra) com argumentos frágeis. Realmente, a lógica negociante da China é dureza, mas nós também somos bons comerciantes. Ainda nos faltam estratégia e atuação unificada para lidar com os governos e empresas chinesas – e ainda há muito preconceito do lado de cá, é verdade. No entanto, avançamos bastante nos últimos anos. Por tudo isso, o melhor é admitir a realidade: a China é economia de mercado quer queiramos ou não – ainda que seja tão imperfeita quanto a brasileira ou a alemã e até a norte-americana. 


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