A insensatez dos conflitos pelo poder

Disputas de patrimônio são recheadas de paradoxos incompreensíveis

Por Werner Bornholdt*

Para tratar de conflitos familiares em relação às heranças patrimoniais, episódios muitas vezes indigestos, é necessário estabelecer uma premissa muito importante. Patrimônio e dinheiro são fundamentais para a família, mas principalmente para o desenvolvimento do país. As famílias empresárias que possuem fortunas ajudam a criar empregos e renda para seus funcionários e para a sociedade, além de gerar impostos para o governo. 

Entretanto, para que serve todo este passado de riqueza, todo este legado patrimonial para a sociedade e para a família, se os herdeiros a disputarão em conflitos que, muitas vezes, destroem a riqueza e a família? Cito o caso da família norte-americana Vanderbilt, em que a construção de um patrimônio bilionário durou três gerações e, em apenas uma geração, foi praticamente dilapidada?

A relação família-patrimônio é uma das mais delicadas, e sujeita a inúmeras polêmicas que alimentam a Justiça com pilhas de processos. Temas como regime de casamento, testamentos, pactos antenupciais, valor dos ativos em caso de saída ou morte, heranças, poder de decisão, holdings, “engenharia” e estratégia tributárias, entre outros aspectos, são muito delicados e controversos. Membros de famílias empresárias consideram estes assuntos “conversas difíceis”, mas a verdade é que estas discussões são muito construtivas. E, por isso, tão importantes. Envolvem relações que combinam poder e dinheiro, temas que, embora bastante objetivos, são potencialmente passionais.  E a emocionalidade sempre se sobrepõe quando se trata de dinheiro e poder.

A disputa por dinheiro é sempre muito sensível – principalmente quando o herdeiro não teve nenhuma contribuição, direta ou indireta, na construção do patrimônio familiar. Nesse caso, os conflitos são ainda menos sensatos. Em geral, aliás, as disputas entre familiares sobre patrimônio e dinheiro herdado são irracionais e, pela lógica, inexplicáveis. Tornam-se discussões passionais, alimentadas por dificuldades e conflitos existentes entre familiares e herdeiros. Um processo que mina o relacionamento familiar.

Portanto, uma sucessão patrimonial deve ser muito bem planejada e executada, na medida em que suscita sentimentos de ganhos e perdas que têm origem na infância ou no histórico das relações da família empresária. Muitas vezes é uma busca por compensações de sentimentos sobre acontecimentos do passado, como traições, abandonos, falta de afeto, castigos sofridos por este ou aquele membro da família. As coisas do passado estão guardadas lá no fundo e, por vezes, voltam, complicando esta difícil equação.

A maioria das disputas entre herdeiros acontece quando se percebe que houve divisões não equitativas entre herdeiros – por exemplo, quando irmãos têm participação diferenciada, em que homens recebem cotas e mulheres ficam com terras e fazendas. Este tipo de discussão, na presença – e principalmente na ausência – dos pais. 

Por outro lado, se o conflito é pelo poder na companhia, tem-se uma sensação mais fácil de administrar porque o senso de preservação da empresa é mais forte – e o “mais forte” vence. Entretanto, neste caso o “mais forte” pode pagar o preço de ser visto como um “carrasco” pelos demais.

Felizmente, o Brasil tem um Código Civil muito atualizado (de 2002 e que vigora desde 11 de janeiro de 2003) e que estabelece normas que enfatizam a propriedade em detrimento da família. Paradoxalmente, porém, o primeiro aspecto que deve ser considerado nestes processos é a busca da coesão familiar. Disputas de patrimônio e dinheiro nas empresas são recheadas de paradoxos, de paradigmas afetivos e de objetivos muitas vezes incompreensíveis. 

*Economista, doutor em Psicologia das Organizações e consultor de empresas familiares.



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