Viajar às cegas como Elias Canetti

O escritor búlgaro, radicado na Inglaterra, estará ao meu lado em espírito

Por Fernando Dourado Filho, de Curitiba

Li anos atrás um livrinho maravilhoso do grande escritor Elias Canetti (foto). Chamava-se "Vozes de Marrakech" e nele o autor prêmio Nobel relatava uma viagem no mínimo inusitada ao Marrocos. Digo-o porque ele pouco procurou se informar sobre o país a ser visitado. Embora tivesse conhecimento bastante para saber o básico da formação étnica e linguística desse fascinante recanto da esquina da África, ele resolveu que só registraria o que os sentidos captassem. Nada falaria sobre o que sabia, mas que não vira. E, de lápis em punho, descreveria tudo o que pudesse ser traduzido pela experiência em estado puro. E só.

Nesse diapasão, o escritor búlgaro, radicado na Inglaterra, registrou a cena do mendigo que levava as moedas à boca em sinal de agradecimento. Dos encantadores de serpente que juncavam o enorme pátio da Praça Jemma el-Fnaa, na parte externa da medina colossal da cidade. Dos diálogos crispados que conseguia ter num francês claudicante com vendedores de especiarias e mercadores de camelo. Sem compromisso com a profundidade de qualquer ordem nem muito menos com o rigor factual dos registros, Canetti conseguiu fazer um opúsculo fascinante, cheio de frescor e que não nos cansamos de reler.     

Ora, dito por mim pode parecer uma contradição que eu teça loas a semelhante espírito. Não que eu seja um modelo de planejamento. Mas pelo menos quando se trata de viagens de negócios, quem me acompanha sabe que defendo uma pré-sensibilização intercultural que permita o viajante lograr seus resultados, dirimindo ao máximo o estresse aculturativo. É, portanto, desejável que ele conheça os contornos civilizacionais do povo visitado e que, se possível, os surpreenda com informações não triviais que alarguem a zona de conforto entre as partes. O mesmo sentimento vale para quem nos visita. 

Ora, contrariando, portanto, meu pequeno credo, eis que essa semana parto para uma viagem de duas semanas para dois dos poucos países do mundo que ainda não visitei em determinada zona. Para não estragar a surpresa da próxima semana, não vou dizer de que lugar se trata. Certo é que eles são pequeninos; lares de gente muito inteligente e sofrida; e situados numa dessas encruzilhadas civilizacionais onde os conflitos não são incomuns. Lá não conheço praticamente ninguém nem poderei contar com a ajuda de alguém que me seja sequer recomendada. Mas sei que trarei bons frutos da experiência porque quero empreendê-la com o espírito de Canetti. Vou, portanto, desarmado.  

É claro que o olhar treinado vai tentar registrar aqueles aspectos clássicos que compõem o repertório do viajante experiente. Como será que as pessoas se relacionam? Há grande distância de poder entre ricos e pobres? Entre poderosos e desvalidos? Será que eles são neutros na demonstração dos sentimentos ou, pelo contrário, são expansivos e calorosos? Com que sonham quando olham para o futuro? Ou será que o futuro para eles é destituído de grande significado já que é incerto e grande ênfase é dada ao presente e às inegáveis glórias passadas?  Como será que o legado dos intelectuais se reflete na conversa do homem da rua? 

Mas também é certo que atentarei mais cuidadosamente para dimensões mundanas. O que comem e o que bebem? É verdade que são grandes festeiros? Como se vestem as mulheres? Os casamentos são arranjados ou os jovens têm mais espaço para fazer suas opções? Há muita miscigenação étnica ou prevalece a homogeneidade cultural?  Será que as pessoas são honestas na expressão dos sentimentos e intenções ou são escamoteadas e misteriosas? E a música: o que será que eles ouvem? O que acharão do Brasil? E o que dizem de seus políticos e vizinhos? Há liberdade de opinião? Até a próxima semana como muitas novidades. E, desde já, obrigado a Elias Canetti. Ele estará ao meu lado em espírito. 


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