Como o Brasil pode gerar valor à sua indústria química

Diversificar é possível, sugere Rodrigo Más, sócio da Bain & Company

Por Rodrigo Más*

Apesar do crescimento significativo apresentado pela indústria química nos últimos 15 anos, há uma tendência alarmante para os negócios que dependem dela: o aumento da fatia de crescimento que se deve às importações. Em 2007, o déficit comercial do setor havia passado de US$ 6 bilhões para US$ 9 bilhões. Sete anos depois, o total saltou para US$ 31,4 bilhões. Dois fatores contribuíram para o sinal vermelho. Em primeiro lugar, o consumo interno cresceu mais rapidamente do que a produção, uma vez que o aumento da renda estimulou o consumo de maneira muito mais intensa do que os investimentos em capacidade de produção local. O segundo motivo é que a importação de produtos químicos de alto valor agregado avançou mais rapidamente do que as exportações, em parte porque as empresas nacionais estão melhor posicionadas para produzir commodities químicas de menor valor agregado.

Caso nada seja feito a respeito, essa tendência pode ameaçar o equilíbrio de toda a indústria uma vez que o crescimento das importações de produtos prontos (como pneus, brinquedos e têxteis, por exemplo) normalmente é relacionado à queda na produção doméstica dos insumos químicos usados nesses produtos. Para reverter esse quadro, os produtores precisam diversificar e enfatizar a fabricação de artigos de alto valor agregado, além de investir no desenvolvimento de novas tecnologias e ampliar a integração e a diversificação das cadeias de commodities já existentes.

Muitos segmentos da indústria química oferecem oportunidades para que empresas brasileiras exerçam um papel mais relevante no mercado global, principalmente se as lideranças do poder público e das companhias trabalharem em conjunto para reduzir as diferenças competitivas que dificultam os investimentos no setor. Vale ressaltar também que outros segmentos nos quais a economia brasileira já é competitiva podem contribuir para incentivar futuros aportes em novas tecnologias. 

A Bain & Company analisou algumas oportunidades de negócio proporcionadas pela conjuntura econômica brasileira que podem gerar entre US$ 33 bilhões e US$ 47 bilhões para o segmento até 2030. De acordo com os estudos, o déficit da balança comercial seria reduzido entre US$ 22 bilhões e US$ 38 bilhões por ano durante o mesmo período. Juntos, os setores com maiores potenciais podem gerar até 19 mil postos de trabalho.

Demanda local forte
Aplica-se ao mercado de defensivos agrícolas, químicos para exploração de óleo e gás e cosméticos. Um exemplo: mais de metade dos agrotóxicos vem ao Brasil via importação porque o ambiente de negócios é muito difícil – o registro de novos agrotóxicos pode levar anos, especialmente para insumos que serão produzidos localmente. Caso se invista na simplificação de processos como esse, é possível destravar aportes significativos na produção local, beneficiando tanto o agronegócio quanto a indústria nacional, que seria capaz de abastecer as necessidades do setor de maneira mais barata e rápida.

Disponibilidade de matéria-prima competitiva
Em regiões com matérias-primas que podem adicionar valor às commodities, os produtores podem exportar insumos químicos de alto valor agregado. Derivados da celulose, eles podem ser incorporados a cosméticos, ao tabaco e a aditivos alimentícios para animais. No segmento de aromas e fragrâncias, as companhias têm encontrado dificuldades em acessar a biodiversidade local em função da existência de restrições regulatórias, falta de incentivos para P&D em rotas alternativas de produção, além da imposição de leis sobre a validade de produtos atualmente classificados como alimentos.

Novas tecnologias
Acessar as matérias-primas locais pode aumentar a competitividade do segmento se as novas tecnologias do setor continuarem a ser desenvolvidas. Elas consistem, basicamente, em insumos relacionados à biomassa, tais como cana-de-açúcar e óleo de soja. O mercado para insumos produzidos através de fontes renováveis tem potencial para representar 10% da indústria química brasileira até 2020, caso sejam investidos cerca de US$ 20 bilhões em novas tecnologias e processos.

Mas como fazer progressos em cada uma dessas áreas? Identificamos alguns desafios-chave e suas possíveis soluções. O primeiro seria incentivar a assinatura de contratos de longo prazo de produção compartilhada para dar aos integrantes da cadeia do setor químico acesso a petróleo e gás natural das reservas do governo do pré-sal. O segundo desafio seria simplificar os processos de registro e de aprovação para a fabricação e comercialização de produtos químicos, especialmente no segmento de agroquímicos. Em terceiro lugar, seria necessário fomentar o investimento nos segmentos agrícola e industrial para destravar o potencial para produção de bioquímicos – como, por exemplo, a construção de biorefinarias próximas a plantas de etanol. Outro aporte necessário seria nas infraestruturas que suportem cadeias de commodities químicas locais, tais como ferrovias, estradas e transporte marítimo. Por fim, mas não menos importante, é vital aumentar os esforços em inovação tecnológica com prioridade estratégica dada a segmentos e produtos químicos de biomassa primária. 

Apesar dos numerosos obstáculos, há uma série de exemplos de outros países que mostram a efetividade de incentivar a diversificação da indústria química. A Índia fez nascer um setor bastante sólido nas áreas farmacêutica e de defensivos agrícolas através da promoção do desenvolvimento de alternativas genéricas para patentear moléculas. Além disso, aplicou recursos em centros de P&D para abasteceram uma rede de engenheiros químicos bastante talentosos. O Brasil pode modificar sua indústria química através de investimentos para alavancar as matérias-primas e o mercado local e, assim, os tornarem competitivos. 

*Sócio da Bain & Company.


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