Dirigir é pesquisar

Ou viver é fazer pesquisa o tempo todo

Por André D´Angelo

Um professor universitário de Porto Alegre está trabalhando como motorista do Uber para realizar uma pesquisa sobre economia do compartilhamento (leia aqui). Uma inusitada e bem-vinda estratégia de “ir a campo”, como se diz no jargão da pesquisa social, mas não inédita. Ela toma emprestado princípios da investigação social que preveem que, para entender uma determinada realidade, o melhor é vivê-la por um dado período de tempo. Imergir no contexto que se quer conhecer, sem, contudo, furtar-se ao distanciamento necessário para analisá-lo cientificamente. Daí o uso da etnografia e da observação participante como técnicas de pesquisa – duas modalidades, aliás, que foram importadas por empresas na intenção de conhecer a realidade de seus consumidores, especialmente aqueles com os quais a maior parte delas nunca mostrou muita familiaridade, como a classe C e os jovens.  

Alguém poderá dizer que, se dirigir um carro é fazer pesquisa, melhor seria usar os taxistas como fonte de informação científica sobre comportamentos. Verdade, desde que esses taxistas se investissem da posição de pesquisadores, preparando-se para, mais do que guiar um automóvel, captar sinais interessantes sobre o aqueles que estivessem estudando. Prestar a atenção nas conversas dos passageiros, espiar o que fazem durante a viagem, contabilizar quantas vezes puxam papo e como reagem aos comentários que ele próprio faz, por exemplo, caso essa fosse a intenção. Ou, caso estivessem tentando entender a própria categoria profissional, reportar diálogos com colegas taxistas, prestar atenção aos códigos de conduta implícitos entre os profissionais da área, fazer um diário relatando as dores e as delícias da profissão etc. Algo que exige preparo prévio e, principalmente, um não envolvimento direto com a realidade em questão, para evitar vieses típicos daqueles que, de tão inseridos em um determinado meio, consideram tudo o que ocorre “natural”, pecado-mor em ciências sociais.

 De toda forma, o que o exemplo do professor/motorista sugere é que, sim, somos todos pesquisadores potenciais no dia a dia. Basta aguçar os sentidos, prestar um pouco de atenção ao que nos rodeia e questionar o porquê de certos comportamentos. E, claro, nutrir curiosidade sobre as coisas e as pessoas, pois, sem ela, pesquisa nenhuma sai do lugar.


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