A TI aplicada às finanças se tornará realidade?

Bancos investem para evitar que as start-ups ganhem fatia de mercado

Por Universia Knowledge@Wharton*

A tecnologia está mudando o sistema financeiro global tão depressa, revelou recentemente o Fórum Econômico Mundial, que há uma “necessidade urgente” de estabelecer regulações. Embora “o uso da tecnologia nas finanças não seja novo, assim como não são novos muitos dos produtos e serviços oferecidos pelos novos participantes do setor, o que é novo é a aplicação da tecnologia e sua velocidade de evolução, que tornam a onda atual de inovação distinta de todas as demais já vistas e aplicadas aos serviços financeiros”, revelou o relatório, elaborado com informações de líderes dos maiores bancos do mundo.

Basicamente, a tecnologia financeira – ou fintech – aplica as inovações tecnológicas aos processos, produtos e serviços financeiros. Em 2014, os grandes bancos começaram a mudar seriamente o foco em relação a ela distanciando-se dos assuntos relativos à conformidade com as regulações e aos desdobramentos do corte de custos decorrentes da crise econômica. Naquele ano, o investimento global em empreendimentos de fintech triplicou, saltando para US$ 12 bilhões – ante US$ 4 bilhões anteriormente. Em 2015, o investimento em empresas particulares de fintech cresceu praticamente 60%, passando para US$ 19 bilhões. O investimento em startups está só começando. O Bank of America gasta US$ 3 bilhões ao ano no que chama de “iniciativas de tecnologia” em seu relatório anual. 

De igual modo, Jamie Dimon, presidente do JPMorgan Chase, observou em sua carta anual aos acionistas que o banco tinha gasto cerca de US$ 3 bilhões em novos investimentos em tecnologia no ano passado. Dimon anunciou que o banco havia criado capacidades extraordinárias de big data interno com mais de 200 analistas e cientistas de dados. Os dados em massa que esses técnicos estão produzindo vêm sendo usados para atrair novos clientes aos bancos comerciais, para melhorar a concessão de crédito e o marketing, para tornar mais eficientes as operações bancárias e, é claro, para otimizar as transações comerciais.

O interesse na fintech por parte de grandes bancos reflete o fato de que o mercado digital é pouco explorado. Conforme estimativa do Citi, somente 1% da receita dos bancos norte-americanos migrou, até o momento, para modelos digitais. A instituição prevê que esse percentual subirá para 10% até 2020 e para 17% até 2023. O Citi ressalta ainda que a mudança está bem adiantada na China, onde empresas de ponta no segmento de fintech, como  Alipay e Tencent, têm tantos clientes, ou mais, que os grandes bancos. Greg Baxter, diretor global de estratégia digital do Citi, diz que 96% de todas as vendas on-line na China são feitas sem a intermediação de bancos.

A possibilidade de perder participação de mercado para startups é apenas um dos motivos pelos quais os grandes bancos estão despejando dinheiro em tecnologia própria. “A ruptura digital tem o potencial de fazer encolher o papel e a importância dos bancos de hoje e, ao mesmo tempo, pode ajudá-los a criar serviços melhores, mais rápidos e mais baratos que se tornarão parte ainda mais essencial da vida cotidiana de indivíduos e instituições. Para que o impacto seja positivo, os bancos estão se dando conta de que precisam se livrar da complacência institucional e reconhecer que navegar meramente pelas ondas das regulações e esperar que as taxas de juros subam não os protegerá da obsolescência”, observou Julian Skan, diretor-gerente de serviços financeiros da Accenture, em um relatório de 2015. 

Fintech não é só um nicho
Com a migração das grandes instituições financeiras para o espaço da fintech a um ritmo veloz, como ficam as startups? Para alguns, isso significa que a fintech não é mais um compartimento isolado. Essa é a opinião de Matthew Carey, um dos fundadores da Abaris, site de comparação de anuidades que levantou US$ 720 mil em duas rodadas de financiamento, conforme dados da CrunchBase. “Onde antes as empresas de capital de risco zombavam do ônus de se lançar uma startup no segmento de serviços financeiros, são poucos hoje os setores que geram tanta atenção”, alerta Carey. Ele mencionou um comentário feito por Lloyd Blankfein, CEO do Goldman Sachs, segundo o qual o venerável banco de investimentos é hoje, sobretudo, uma “empresa de tecnologia”, como prova de que a fintech caiu no gosto das instituições tradicionais.

Contudo, embora dinheiro e atenção estejam fluindo dos bancos e do capital de risco, por enquanto a atenção dada à tecnologia financeira ainda é restrita se tomada em escala global. Saikat Chaudhuri, diretor do Instituto Mack de Gestão da Inovação da Wharton, argumenta que a falta de visibilidade se deve, em parte, ao fato de que o termo fintech tem sentido amplo, sendo partes dele visíveis imediatamente; outras são mais difíceis de visualizar ou ainda têm como foco mercados fora dos EUA.“Se pensarmos em fintech como pensamos no Paypal, Apple Pay e Google pay e tudo o mais ‘pay’ como alternativa para, digamos, pagamentos de cartão de crédito ou depósitos diretos, isso já está acontecendo em um mundo de aparelhos inovadores”, conta.  O próximo grande passo no setor de pagamentos de serviços é, provavelmente, o crescimento em países menos desenvolvidos que usem os smartphones para pagamentos, não tanto como substitutos, mas como ampliação deles. Nos mercados emergentes em que os bancos têm menos alcance, por exemplo, podem-se explorar novas plataformas que sirvam aos mercados onde não há bancos.

Ajay Banga, presidente e CEO do MasterCard, por sua vez, há anos vem falando das ineficiências do dinheiro e do potencial dos pagamentos digitais em países onde a população, que não tem acesso a bancos, dispõe de aparelhos celulares. “Com isso, pode-se servir um mercado totalmente novo e, efetivamente, um mercado sem bancos”, anteviu Chaudhuri, salientando que a tecnologia poderia também atender os consumidores norte-americanos que não usam bancos. De acordo com algumas estimativas, 50 milhões de americanos não usam bancos ou usam muito pouco e dependem, principalmente, de provedores financeiros alternativos, como os que fazem a troca de cheques. O que faz deles um novo mercado de enorme potencial para as empresas de fintech.

Os dados do Citi mostram que 73% dos investimentos em fintech, no ano passado, foram destinados a fins bancários pessoais e de pequenas empresas, inclusive 23% para pagamentos e 3% para transferências de dinheiro. Outra área de enorme potencial e que tem demorado um pouco para decolar é a de empréstimo de ponto a ponto, especialmente no caso das plataformas integradas às mídias sociais. As plataformas on-line que promovem o encontro de tomadores e credores já existem há cerca de uma década, mas respondem por menos de 1% do total de empréstimos em circulação no varejo norte-americano. De acordo com dados do Citi, as taxas atuais de crescimento desse percentual poderão chegar a 3% até o final do próximo ano.

Chaudhuri recorda que as regulações ainda são um desafio para esse segmento da fintech, especialmente aquelas com um componente de mídia social. Isso poderá contribuir para um crescimento mais moroso, apesar do seu enorme potencial, mas dependerá também das áreas de empréstimos a serem trabalhadas, especialmente depois da quebra do mercado imobiliário. “Não se trata apenas de um canal de pagamentos alternativo. O fato é que estamos permitindo que outras instituições participem do sistema e funcionem como bancos. O que deve acontecer daqui para frente é que algumas dessas grandes propriedades e mídias sociais on-line terão praticamente de requerer uma licença bancária de funcionamento. Não sei se os órgãos reguladores, depois do que aconteceu durante a crise financeira, permitiriam isso”, explica. 

Moedas virtuais em território obscuro
Outro território obscuro para a regulação é o das moedas virtuais. A bitcoin e suas primas já estão em uso, é claro, mas muitos veem as moedas alternativas principalmente como uma forma de facilitar transações nebulosas. E a tecnologia por trás delas, chamada oficialmente de “tecnologia de registro contábil distribuído”, porém mais comumente referida como “livro-razão da bitcoin” [blockchain, em inglês], é do maior interesse para as grandes instituições financeiras.

“O que mais interessa a Wall Street é a tecnologia por trás das moedas criptografadas”, diz Ron Quaranta, presidente da associação comercial Wall Street Blockchain Alliance. Há quem creia piamente que a tecnologia do blockchain possa transformar as transações financeiras internacionais de modo muito parecido como a internet transformou as comunicações. Contudo, com startups e instituições como Goldman Sachs, Citi e Bank of America desenvolvendo versões próprias de blockchain, ninguém sabe como poderão trabalhar juntas. “Ainda estamos começando a compreender de que maneira as empresas interagem no mundo do blockchain“, avalia Quarant. Contudo, ele espera que a tecnologia possa, um dia, ampliar de cima a baixo a cadeia de serviços financeiros e mercados de capitais.

Na verdade, ele prevê que o blockchain, que traz consigo a capacidade de rastrear as transações do indivíduo, deverá se estender um dia a outras indústrias também. O setor de entretenimento, por exemplo, poderia usar a tecnologia do registro contábil distribuído para garantir que todas as vezes que o conteúdo original fosse copiado, os royalties devidos seriam pagos ao criador, restringindo assim o problema de evasão de receita causada pela pirataria intelectual. As moedas digitais receberam cerca de 3% dos gastos de capital por empresas de fintech no ano passado, conforme dados do Citi.

Em geral, o padrão de qualquer setor de tecnologia é bem estabelecido, lembra Chaudhuri, e ele não espera que com a fintech seja muito diferente. As startups subvertem o cenário; em seguida, empresas de maior porte chegam e “canibalizam” a tecnologia, seja através de M&A [fusões e aquisições] ou pelo desenvolvimento de versões próprias. “É isso, por sua vez, que legitima a tecnologia”, afirma ele.

Um ciclo ainda jovem
O ciclo de fintech ainda é jovem e ainda há muitas empresas em vários níveis. É inevitável, portanto, que, em algum momento, haja uma sacudida tanto no que diz respeito às tecnologias quanto às empresas. “Isso ainda não aconteceu, razão pela qual se vê tanto investimento. Estamos hoje no meio desse processo. Algumas coisas funcionarão, ao passo que outras, não” acrescenta Chaudhuri. Ele diz que as aplicações de fintech são, em sua maioria, novos enfoques para se fazer negócios que já estão sendo feitos. “Trata-se apenas de tecnologias alternativas. Não creio que seja um setor em si mesmo”, justifica. 

Isso não significa que as aplicações de fintech não tenham um forte potencial, embora possa levar muitos anos para que isso aconteça, até mesmo décadas para que elas venham plenamente à tona. “Com relação ao número de pessoas que poderão participar do sistema financeiro e das transações, creio que será algo revolucionário”, prevê Chaudhuri. 

*Serviço gratuito disponibilizado pela Wharton, Escola de Administração da Universidade da Pensilvânia, e pela Universia, rede de universidades que tem o apoio do Banco Santander.


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