Para você dar o nome

Golpe ou impeachment, não importa: o que a crise política ensina

Por André D´Angelo

Faltando apenas a primeira votação no Senado, tudo indica que Dilma deixa a presidência temporariamente em meados de maio, dando lugar a Michel Temer. Foi o desfecho de uma longa e penosa crise que, para além das fronteiras da política partidária, deixa também alguns ensinamentos em temas caros à vida das corporações. Acompanhe:

1. O que separa o Collorgate, de 1992, do Dilmagate? No primeiro, houve um impeachment que poderíamos chamar de “orgânico”; as acusações contra Collor foram se acumulando e, catalisadas pela crise econômica, pela minoria parlamentar e pela pressão das ruas, o afastamento do presidente pareceu a saída mais lógica e natural. No caso de Dilma, houve o inverso: insatisfeitos com os rumos da economia e com a falta de interlocução, empresários e políticos iniciaram o segundo mandato dispostos a afastar Dilma – mas, para tanto, precisavam de um pretexto, um “gancho” jurídico-político (a esse respeito, leia aqui). O impeachment da petista começa com o desejo de afastá-la, e não com fatos que a comprometessem – estes foram buscados a posteriori. O que nos traz a primeira lição: as pessoas primeiro decidem, depois buscam explicações racionais que justifiquem suas decisões. Se encontrarem justificativas suficientes, não se constrangerão em seguir adiante com seus intentos, sejam eles quais forem – e, como veremos adiante, no Dilmagate encontraram-nas às pencas.

2. Na tomada de decisão, a emoção tem papel primordial. Não dialogar com deputados, senadores e empresário fez de Dilma uma figura antipática e facilmente atacável por todos esses atores, o que não é pouca coisa. Como Malcon Gladwell mostra em “O ponto de desequilíbrio” (veja aqui), os norte-americanos não processam médicos que cometem erros, e sim médicos dos quais não gostam. Da mesma forma, ninguém pede a derrubada de presidente com quem simpatiza, e isso vale para o cidadão comum e para o político. (A esse respeito, vale ler a coluna “Dilma não ouviu Collor”, de um jornalista da Folha de S. Paulo, disponível aqui).

3. Donde a lição número 2: quem tem a pretensão de liderar, precisa, primeiro, estabelecer uma conexão emocional com seus seguidores, para, assim, assegurar sua fidelidade. Competência vem depois. Afinal – e essa é a terceira lição –, convém relembrar: habilidades sociais e emocionais são tão importantes quanto as técnico-cognitivas. 

4. Na batalha da opinião pública, mais importantes que os argumentos utilizados são os rótulos com os quais  são revestidos. “Petrolão”, “petralha” e “esquerda caviar” são bolas dentro da oposição, enquanto “golpe” é um golaço da situação. “Pedaladas fiscais” foi uma bela cesta de três pontos para a oposição; já “procedimentos contábeis normais”, apenas um pontinho para o governo. Lição 4: se as pessoas são guiadas pela emoção, não admira que, antes de aderir a ideias, atenham-se a rótulos na hora de escolher um lado. Logo, um bom branding e um bom slogan são fundamentais na hora de atrair aliados em qualquer esfera da vida. 

 (continua na próxima semana)


comentarios




Marcos Leonel

Se tiver outro afastamento por "pedaladas fiscais", eu acredito em afastamento, mas pelo andar da carruagem, dificilmente vamos presenciar outro afastamento com a mesma denúncia. Só governadores já seriam mais de 10. E também quero ver movimento de rua para afastar e prender Eduardo Cunha.

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