A gigante da energia paranaense

Como a Copel usou a engenharia para vencer os limites estaduais

O trecho a seguir faz parte do livro “The Mind of the Tops – Paraná”, publicado pelo Instituto AMANHÃ, com apoio técnico da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).  

No final das contas, a Copel teve de se contentar com a exploração do potencial dos rios Iguaçu, Piquiri, Ivaí e Tibagi, que nascem e morrem dentro do território paranaense. O Iguaçu, que nasce na Serra do Mar e deságua no rio Paraná, pouco abaixo da cidade de Foz, na fronteira com o Paraguai, é a principal fonte energética copeliana. Foi no município de Pinhão, a 240 quilômetros de Curitiba, onde já operava desde 1967 a pequena hidrelétrica de Salto Grande (15 MW), que a Copel construiu a maior usina do estado: Foz do Areia, com potência de 1 676 MW gerados por quatro turbinas de 419 MW cada. Depois rebatizada com o nome do ex-governador Bento Munhoz da Rocha Neto (1905-1973), Foz do Areia começou a operar em 1979 e chegou a ser a maior do país antes que ficassem prontas outras grandes usinas nacionais. Seu diferencial técnico foi a barragem de concreto de 160 metros de altura, uma ousadia para a época. Quando a represa encheu e as turbinas começaram a girar, muitos copelianos se arrepiaram de orgulho. Tudo a ver.

Quando o assunto é o aproveitamento do potencial hidráulico do rio Iguaçu, os copelianos mais antigos gostam de contar especialmente o caso de Salto Segredo, a usina que hoje leva o nome do ex-governador Ney Braga (1917-2000). Começa que foi a primeira grande usina nacional a ser precedida de estudo de impacto ambiental, atendendo à Resolução nº 001 do Conama, de 1986. Iniciada em 1987 no município de Mangueirinha, a 285 quilômetros da capital, foi inaugurada em 1992. A suprema inovação técnica de Segredo foi um túnel de 4.703 metros que interligou o rio Iguaçu a seu afluente Jordão. Bem de acordo com o espírito legado pelo professor Parigot de Souza, essa escavação extra permitiu ampliar em 10% a potência inicialmente projetada da usina. Com quatro turbinas de 315 MW cada, girando no pé de uma barragem de 145 metros de altura, a Usina Hidrelétrica Ney Braga tem potência instalada de 1 260 MW.

Enquanto a Copel apurava mais de 2 900 MW em apenas dois projetos (Foz do Areia e Salto Segredo), a federal Eletrosul assumia a construção de outras duas grandes usinas rio Iguaçu abaixo. Com os 1 078 MW de Salto Osório, que entrou em operação a partir de 1975 em São Jorge D’Oeste, e os 1 420 MW de Salto Santiago, que começou a produzir em 1980 em Saudade do Iguaçu, a estatal sulina passou a extrair mais 2 500 MWh do inesgotável rio paranaense. A partir de 1997, no bojo do processo de privatização de ativos estatais, as duas hidrelétricas da Eletrosul no Iguaçu passaram ao controle da belga Tractebel, a maior geradora privada da região Sul.

Exatamente nessa época de transição do estatismo para um liberalismo vigiado, a Copel teve a oportunidade de explorar o Salto Caxias, situado no terço final do rio Iguaçu, entre os municípios de Capitão Leônidas Marques e Nova Prata do Iguaçu, a mais de 500 km da capital. Ali foi construída a partir de 1995 e inaugurada em 1999 outra grande usina com capacidade de 1 240 MW, depois batizada com o nome do ex-governador José Richa (1934-2003). Como compensação ao impacto ambiental da obra, que alagou pouco mais de 23 mil hectares, a Copel implantou 26 programas em benefício de 600 famílias reassentadas a um custo total de R$ 45 milhões. Em sua terceira usina iguaçuana, a Copel exerceu plenamente as chamadas boas práticas socioambientais.

Na entrada do século XXI, com cinco represas e suas respectivas usinas somando uma capacidade instalada de mais de 6 600 MW, o rio Iguaçu parecia ter esgotado seu potencial de produção de eletricidade. Não se contava então com a reversão das expectativas no mercado energético, agitado por desinteligências entre autoridades energéticas, operadores elétricos e organizações ambientalistas, que passaram por mudanças de postura à medida que crescia a consciência em torno da necessidade de garantir a sustentabilidade dos recursos naturais do planeta. Como desdobramento dessa conjuntura mutante, em 2013 começaram as obras da usina de Baixo Iguaçu, o provável último aproveitamento do potencial hidráulico do mais paranaense dos rios. Desta vez, a Copel é sócia minoritária (30%), tendo a Neoenergia como majoritária. 

Projetada para produzir – a fio d’água, sem um lago amplo – até 350 MWh entre os municípios de Capitão Leônidas Marques e Capanema. Ao todo, a Copel opera 19 hidrelétricas, cuja potência total de 4 732 MW representa quase 4% da potência instalada no país. Também faz parte da estrutura da Copel a usina térmica construída em Araucária em parceria com a Petrobras para aproveitar a oferta do gás natural boliviano. Inaugurada em 2002, a usina deu prejuízo por 10 anos. Agora, sua respeitável potência de 400 MW contribui para minorar a crise de abastecimento de energia. Todas menos uma são automatizadas e três já são comandadas à distância graças à infraestrutura da Copel Telecom, apta a operar no mercado de banda larga e com sua rede de fibra óptica em todo os 399 municípios do Paraná.

Como na bacia do Iguaçu não cabem mais usinas, resta à Copel cultivar projetos de baixa potência em outros afluentes do rio Paraná. No Piquiri, estima-se que podem ser feitas mais quatro usinas de pequeno porte. No Tibagi, com a possível construção de uma última usina, a companhia praticamente esgotará o potencial hidrelétrico dos grandes rios paranaenses. 


Entretanto, como as águas não param de rolar, há possibilidade de se construir centenas – sim, centenas – de pequenas centrais hidrelétricas  (PCH) que talvez possam agregar de 1 000 MW a 2 000 MW à capacidade de produção da companhia. Embora não figure no topo das prioridades da Copel, pois depende de estudos que levem em conta os interesses dos proprietários de áreas com cursos d’água aproveitáveis para geração de eletricidade, o desenvolvimento de PCHs faz parte do rol de alternativas atuais, entre as quais se destacam a energia eólica, a energia de biomassa, a energia solar e a energia do gás convencional. 

Assim, se na década de 2010 a Copel sacudiu a poeira para buscar uma posição melhor no ranking energético nacional, nos próximos quatro anos os copelianos estão sendo convocados para fazer chover não apenas dentro do estado, mas também fora dele. 

Esse processo de expansão já está em curso com a construção da Usina Colíder, no rio Teles Pires, no Mato Grosso. Com operação prevista para 2016, a usina deve acrescentar 300 MW à potência instalada da Copel. Além disso, a empresa constrói parques eólicos no Rio Grande do Norte e tem obras de transmissão em outros oito Estados. 

Reduzida em 2013 para uma parcela dos consumidores, a conta da luz começou a ficar mais cara em 2014 – agora para todos, e mais ainda em 2015. Algumas empresas entraram em dificuldades e o risco de colapso no abastecimento energético só diminuiu porque a economia, como um todo, passou a andar mais devagar. De qualquer modo, o diagnóstico está feito: é preciso superar a insuficiência da oferta de energia e quem não investir vai ficar para trás. A Copel optou por investir até no segmento de transmissão, cuja remuneração está limitada a 1,6% do valor da energia transmitida. As obras de transmissão em curso na companhia paranaense somarão 2.739 km de linhas aos 2.241 km em operação. Se houver leilões no segmento, a Copel estará dentro, e não apenas no Paraná.


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