O verbo

Os parlamentares se mostraram invariavelmente histriônicos no afã de capitalizar o momento solene

Por Fernando Dourado Filho, de Recife

Como milhões de brasileiros de todas as regiões, sotaques e origens, assisti no domingo (17) à sessão da Câmara dos Deputados que ratificou o pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, o encaminhando ao Senado. Se o exame do tema extrapola o escopo deste escriba e espaço, mesmo porque vem sendo tratado com competência pela grande imprensa, um detalhe me chamou a atenção e contempla uma das vertentes mais caras à análise dos padrões de comunicação dos povos. Embora parlamentares de todo o mundo se assemelhem nas características gerais, é bem diferente o valor que os povos atribuem à virulência do verbo; à oratória e, em alguma medida, à verborragia acrítica. Que ninguém pense que o que faz sucesso no Egito, fará no Japão. 

Ora, povos latinos por certo dão importância superlativa às metáforas elaboradas e às hipérboles inspiradas. Quem já viu um comício no interior da Bahia ou um debate de velhotes na entrada da galeria do Duomo, em Milão, constatará que a palavra é apreciada e seu porta-voz é visto como um homem diferenciado. É claro que podemos ter variações de estilo consoante o país. Na França, por exemplo, o velho general De Gaulle se expressava com grande sobriedade. Escandindo cada sílaba, valorizava as palavras com a circunspecção que pede a língua de Descartes. Do México à Terra do Fogo, contudo, o verbo tem o mesmo valor de espada que o trouxe da Península Ibérica. Por temperamento, Salazar e Franco eram mais discretos.  

Na região do Mediterrâneo Oriental, contudo, o falar bem, com eloquência e estridulência, é um atributo dos iluminados. A recente crise grega mostrou atenienses indignados que, diante do microfone, discutiam acaloradamente entre si, sem prestar a mínima atenção ao que o outro dizia. Tudo era uma questão de esperar a pausa de respiração do interlocutor para introduzir seu recado. O mundo árabe do Levante também consagra essa vertente e um pouco de exagero é comum tanto nas ruas quanto nos palácios. Qualquer altercação de trânsito pretexta juras de que um vai matar o outro infrator. Até em nível de Estado, essa conduta era comum. Kadafi, Nasser, Saddam e Arafat foram bons exemplos. Erdogan cabe na vertente otomana dos filhos do Livro. 

Já no mundo oriental, portanto em sociedades de alto contexto cultural, as palavras ganham importância na medida em que todos comungam da compreensão homogênea do recado passado. Deng Xiao Ping não precisou de mais do que duas frases para colocar a imensa locomotiva da China em funcionamento. Bastou dizer que "não importa a cor do gato, importa que ele mate os ratos" para que cessasse a discussão em torno da contradição aparente de o Partido Comunista promover o empreendedorismo. O mesmo valeu para a frase: "enriquecer é glorioso". Estava dada a senha para que se liberassem energias represadas e a China virasse a fábrica do mundo. No Japão, poucos súditos já ouviram a voz Imperador. Na rendição de Hiroito, ao ler seu pronunciamento, todos ouviram-na pela primeira vez.   

Talvez um dos fatores que tenham levado a língua inglesa a ocupar a posição que tem hoje, se deva em parte à necessidade que impõe de objetividade e concisão. Isso não impediu que grandes oradores tenham brotado de suas hostes. Churchil, Clinton e Obama são bons exemplos da primazia da boa oratória aplicada a ambos os lados do Atlântico. Comunicar com clareza e objetividade reflete, contudo, o pragmatismo de povos imperiais que precisaram se tornar inteligíveis em todos os quadrantes da Terra. Daí ser importante se aplicar em apresentações "ganhadoras" quando nos deparamos com plateias desse mundo. Verbosidade e linguagem empolada serão sancionadas com a inevitável perda e interesse, quando não com rótulos de pretensioso e ridículo.  Já a África tem uma longa tradição oral de transmissão de história. Isso não quer dizer que os africanos sejam reféns de discursos caudalosos como foi comum em dada época na Venezuela e em Cuba. 

Voltando ao Brasil, os líderes partidários e parlamentares se mostraram invariavelmente histriônicos no afã de capitalizar o momento solene. Era óbvio que estavam coletando material para usar posteriormente em seus programas eleitorais. Poucas vezes nesses últimos anos, tantos brasileiros estiveram sob exposição tão intensiva às centenas de vozes que nos acompanharam da tarde até a noite. A imensa maioria dos telespectadores permanece chocada menos com a prosódia das regiões, mas muito mais com o conteúdo dos recadinhos. Bem-vindos ao Brasil. E não esqueçam: fomos nós quem os colocamos lá.         



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