Auf Deutsch

Contrariamente ao que reza a sabedoria popular, são muitos os alemães desinibidos, extrovertidos e brincalhões

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo

O sábado passado foi todo dedicado a seminário intensivo sobre como entender os aspectos culturais mais relevantes da cultura alemã. Formado por um público heterogêneo – de diretor de planta aos publicitários que atendem as empresas envolvidas –, achei por bem dividir hoje no blog alguns dos pontos abordados nesse dia profícuo e agradável. Como é de praxe nessas ocasiões, é sempre bom salientar que o trabalho se dá em cima de padrões de previsibilidade que contemplam a média comportamental do país. O que nunca nos impedirá – pelo contrário – de considerar os chamados pontos fora da curva. Ou seja, contrariamente ao que reza a sabedoria popular, são muitos os alemães desinibidos, extrovertidos e brincalhões. Mas, enfim, melhor nos atermos ao eixo metodológico da abordagem. 

a) Da mesma forma que ser conservador não significa ser retrógrado ou medroso, ser formal não equivale a dizer que a pessoal é antipática e seca. Portanto, é sempre bom primar pela seriedade sem sisudez. Prepare-se para dar de cara com gente bem trajada e educada. Se a língua em questão for o alemão, é bom ater-se ao "Sie" como tratamento formal e se contenha para não estreitar demais a distância física nem abusar do toque físico para pontuar suas considerações. Digo isso porque é comum entre nós brasileiros aquelas pessoas muito afáveis que, enquanto falam, ficam tocando o antebraço do interlocutor como forma de garantir a atenção. Use o gestual de forma comedida e dedique o tempo mínimo possível à conversa quebra-gelo de iniciação. Ou seja, ao cabo de dois minutos, se sinta à vontade para abordar o tema central da reunião. 

b) Se você quiser estragar o bom clima, não há receita mais eficaz do que chegar atrasado. Especialmente se for por mais de 15 minutos e se você não fizer sequer menção ao atraso, pedindo desculpas. O estresse que daí decorre pode gerar um indesejável distanciamento emocional entre você e seu interlocutor. Portanto, chegue antes e fique esperando o horário certo. Terá sido um bom começo. A pontualidade é um valor nacionalmente aclamado. Isso é perceptível nas estações. Sempre que um trem vai chegar atrasado, nem que seja 5 minutos, uma voz quase fúnebre anunciará que devido a motivos de força maior – neve, tráfego, conexão –, a composição está infelizmente atrasada. Nesse contexto, se pedem desculpas e elas precisam soar sinceras. Antes das refeições, é de regra desejar bom apetite. E se alguém espirra, diga "Gesunhdheit".

c) Alemães adoram planejar com muita antecedência e detestam improvisos ou soluções de última hora. Assim sendo, num contexto de hierarquias invariavelmente rígidas e verticais, se atenha ao combinado. É emblemático o depoimento do escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro que morou em Berlim. Segundo ele, seu agente lhe fazia perguntas sobre compromissos muitos meses antes do evento. Ele respondia a tudo com um "sim" para evitar polêmicas. Mas, no fundo, só tomaria a decisão quando a data estivesse próxima. "Para alemães, planejar um piquenique de família com um ano de antecedência, é uma temeridade porque todos os envolvidos já estarão muito em cima do prazo", dizia Ribeiro. Atente, ademais, para que eles abominam "jeitinho" – esse traço bem brasileiro. As regras na Alemanha são universais, logo aplicáveis a todos indistintamente e eles não compartilham do viés particularista latino. Não atravesse fora da faixa com sinal vermelho que os motoristas tomarão atitudes histéricas, quase hostis.

d) Evite remexer temas como o genocídio dos judeus na Segunda Guerra Mundial e a participação da própria Alemanha. A menos, evidentemente, que eles tomem a inciativa de fazê-lo. O tema ainda é muito delicado para a maioria deles. É claro que os 70 anos que assinalam o fim do conflito já permitem que as pessoas o vejam em perspectiva e com mais serenidade. Mesmo assim, continua sendo um tabu. Alemães serão sempre os melhores interlocutores para o estabelecimento de pontes com o Leste da Europa, região em que são muito mais iniciados do que a maioria de seus pares da Europa Ocidental. É claro que o bom conceito de que gozam mundialmente não se aplica a países que se ressentiram no passado de suas políticas expansionistas, principalmente Rússia e Polônia. De resto, alemães são grandes viajantes e têm uma visão muito sofisticada do mundo. Ademais desse fator relevante, são bem versados no conhecimento das disciplinas interculturais devido à força tentacular de suas empresas.

e) Contrariamente aos norte-americanos, alemães não são publicitários dos mais inspirados. Por outro lado, prezam a solidez e consistência dos produtos que compram. Muitas vezes se tem a impressão de que eles preferem usar a fórmula "preiswert" – espécie de preço justo – do que "billig" (barato) ou "teuer" (caro). A exemplo talvez do que só aconteça sistematicamente com os japoneses, os alemães pagam um "premium" pelo produto nacional, tido por todos como sinônimo de qualidade. Nunca esqueça: eles leem os manuais que acompanham os produtos. À mesa, é claro que há grande espaço para as variedades regionais de cerveja e salsicha. Mas nem só de porco vive a gastronomia local. Pelo contrário, os últimos anos testemunharam uma inacreditável expansão dos horizontes culinários locais. Sendo um país de grande diversidade étnica e cultural, é normal que isso se reflita nos diversos terrenos da economia criativa. Excetuando-se grupos radicais isolados, a Alemanha é um país amigo da humanidade e de viés inclusivo e agregador.          

Alles gut!


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Nilson Dorival Haas

Sehr Gut (Muito bom)!

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