Exportação para almas poéticas

Sendo o Brasil um país de vocação autossuficiente, a ciência de operar por sobre as fronteiras é um desafio imenso

Por Fernando Dourado Filho, de S. José dos Campos (SP)

Quando duas pessoas começam a namorar, o pressuposto de partida é que haja uma vontade de estar juntas. Ambas estão desimpedidas e, de preferência, já vieram de outras experiências similares para saber evitar as armadilhas comuns à situação: o deslumbramento que cega e o transbordamento de palavras que queiram formular sentimentos ocos que ainda não existem, posto que em construção. Importante é manter um bom clima, transparência e, como se trata de ciência subjetiva, um pouquinho de mistério. Assim fazendo, etapa após etapa, a relação incipiente vai ganhando altura e pode até resultar na vontade efetiva de se desenhar um projeto de vida a dois. 

Se pensarmos bem, e relativizamos com cuidado as comparações, isso se aplica a várias situações da vida. Inclusive as das relações ditas mercantis. Os primeiros passos bem sucedidos serão fundamentais para que se consolide uma parceria e que fornecedores e compradores se comportem como músicos entrosados fazem entre si: tocar de ouvido. Ou seja, esquecer a partitura e, à mera troca de olhares, saber onde o outro quer chegar, para profundo deleite da plateia que, encantada, aplaudirá a performance. Galgar essa cumplicidade entre exportadores e importadores, porém, pode ser uma via mais tortuosa. Isso porque se trata de namorar com meninas de fora do bairro.   

Ora, convenhamos, por grandes que sejam as complementaridades, alguns fatores pairam sobre as partes envolvidas: distâncias geográficas; paradigmas históricos; hiatos linguísticos; compreensão diversa das mesmas coisas; simbologia; mitos e tabus; etiqueta comercial e miríade de fatores que não serão ditos porque considerados implícitos e outros tantos que serão enunciados, embora tidos por óbvios. Daí a formação de um embate cultural que assomará mais importante do que uma fornida dúzia de detalhes relativos a preços, produtos, prazos e promoção. Sendo o Brasil um país de vocação autossuficiente, a ciência de operar por sobre as fronteiras é, portanto, um desafio imenso.

Isso dito, tenho registrado que o Brasil desperta com entusiasmo para a compreensão dessas idiossincrasias e se apressa em colocá-las à mesa. Há de se preparar os poucos clusters de competitividade de que dispomos para que seus executivos de frente possam criar pontes e empatias com eventuais compradores, estejam eles onde estiverem. Só assim fazendo, aumentaremos nossas chances de nos inserirmos minimamente em cadeias produtivas globais. O que até ontem era considerado frescura, portanto, assoma nos dias de hoje como preparação para que possamos ir além do trivial. Encantar, em suma, e não só atender.  

Para a legião de céticos que se empenha em subestimar o papel da cultura à mesa de negociação – como degustar uma iguaria cujo preparo você ignora? –, é bom lembrar que só no âmbito dos BRICS, por mais que esse agrupamento venha configurando um anticlímax, temos uma enorme variedade de nuanças culturais que, se ignoradas, nos farão perder o bonde sem sequer sabermos que ele passava por ali. Índia e China são dois universos de amplitude tal que pedi-los em namoro da forma errada equivale a queimar a largada. Será como espantar aquela namorada de primeiro encontro com confissões descabidas e declarações estapafúrdias. 


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