O Islã na Europa: duas faces de um dilema

O ex-embaixador Jorio Dauster questiona se o continente superará o abismo que cresce dentro de suas próprias fronteiras

Por Jorio Dauster*

Em discurso pronunciado nos idos de abril de 2006, Muammar al-Gaddafi, que governava a Líbia com mão de ferro desde 1969, sentenciou: “Temos 50 milhões de muçulmanos na Europa. Há sinais de que Alá concederá ao Islã a vitória na Europa – sem espadas, sem armas de fogo, sem conquista –, transformando-a num continente muçulmano dentro de poucas décadas.” 

Embora atribuindo essa dominação pacífica a um propósito divino, Gaddafi apenas refletia tendências demográficas bem conhecidas, pois o Islã era e continua a ser a religião que mais cresce no Velho Mundo, devendo seus seguidores representar 10% da população total em 2050 – e isso sem levar em conta o efeito da chegada de mais de 1 milhão de imigrantes, majoritariamente muçulmanos, nos últimos dois anos. Diante da perda observada de fiéis pelos diversos ramos do cristianismo, não é difícil prever que, ainda neste século, venham a existir mais mesquitas que igrejas no continente.

Desde a ruinosa invasão do Iraque pelos Estados Unidos, o líder líbio e outros governantes no Oriente Médio e no norte da África foram eliminados, mas, no caos assim criado, grupos fundamentalistas expandiram o uso de meios violentos para acelerar a vitória final. À face pacífica, em que o espermatozoide era visto como instrumento suficiente para alcançar o domínio sobre os infiéis, veio se somar a face terrorista, com o emprego de metralhadoras e explosivos, tornando mais complexo um dilema que a Europa já antes não sabia como resolver.

No entanto, malgrado a ação dos “lobos solitários” seja praticamente incontrolável, a ameaça jihadista com base em focos no exterior pode ser mitigada ou mesmo eliminada. Basta ver como a al-Qaeda, com sua liderança gradualmente dizimada pelos ataques das forças especiais e dos drones norte-americanos, é hoje uma sombra do que foi no começo do século. Sua última grande investida na Europa – o atentado no metrô de Madri – data de 2004, uma vez que as sangrentas operações em Londres, no ano seguinte, se deveram a um grupo sem conexões externas. 

No caso da União Europeia, isso exigirá uma profunda reestruturação das forças de segurança e dos órgãos de inteligência de seus membros, tarefa sem dúvida ainda mais complexa do que aquela executada nos Estados Unidos após a queda das Torres Gêmeas. Isso seguramente afetará a aplicação do Tratado de Schengen, pelo qual foram abolidos os controles de fronteira entre os Estados membros (excetuados o Reino Unido e a Irlanda), já que muitos deles vêm se recusando a aceitar a admissão descontrolada de novos imigrantes. Restrições à liberdade individual serão também inevitáveis, tal como revistas nos aeroportos, estações de metrô e outros alvos preferidos dos agentes do terror.

Paralelamente, como se viu há pouco com a decisão da Bélgica (foto) de enviar caças para a Síria, os países europeus terão de se engajar de modo direto na luta contra o Estado Islâmico, em que – ao preço de fazer mais uma vez da Rússia peça fundamental no tabuleiro diplomático-militar do Oriente Médio – o califado começa a sofrer grandes baixas humanas e perdas territoriais na Síria e no Iraque. Em outras palavras, na luta contra o terrorismo organizado, não resta à Europa outra opção senão emular as ações dos Estados Unidos ao combinar elementos de força e de inteligência, nesse caso se valendo de sofisticados recursos eletrônicos.

Na Europa Ocidental, os primeiros contingentes de muçulmanos começaram a chegar na década de 1960 vindos do Paquistão, Turquia, Marrocos, Argélia e Tunísia, concentrando-se nos centros urbanos onde serviam como mão de obra barata em empregos não mais desejados pelos trabalhadores locais. Malgrado sua diversidade étnica e cultural, foram identificados basicamente pela religião comum. E, apesar de serem formados em sua imensa maioria por pessoas pacatas, tais grupos jamais foram integrados às sociedades onde se sentem como cidadãos de segunda classe, sentimento reforçado por tentativas oficiais de impor códigos de conduta e de vestuário que vão de encontro a suas tradições milenares. E o que é mais ameaçador: os guetos em que muitos vivem constituem um caldo de cultura ideal para a radicalização religiosa de jovens desempregados e desempregáveis, muitos deles com fichas criminais que atestam sua condição anterior de marginalizados sociais.

O crescimento da xenofobia, refletido na ascensão dos partidos de direita, se choca com os esforços de aproximação que seriam necessários para vencer o apartheid hoje existente e a resultante exacerbação do fundamentalismo “dentro de casa”. O dilema histórico está posto e não pode ser varrido para baixo do tapete como ocorre com outros problemas com que se defronta a Europa. O problema está em saber se, mergulhado na estagnação econômica e assustado com a violência cega do terrorismo em suas capitais, o continente terá forças para superar o abismo que cresce dentro de suas próprias fronteiras.     

*Diplomata, ex-secretário no consulado do Brasil em Montreal e nas embaixadas em Praga e Londres, ex-presidente e da Companhia Vale do Rio Doce e ex-embaixador do Brasil junto à União Europeia.


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