Roger Agnelli e a internacionalização

Seu nome brilhará no panteão dos heróis discretos desse malbaratado começo de século

Por Fernando Dourado Filho, de Recife

Roger Agnelli, ex-presidente da Vale, falece aos 56 anos

Exportar é guerra renhida. É desafiar o conforto; se deslocar física e mentalmente. Desaprender e embaralhar propositadamente os referenciais. Na busca do mercado externo, caem por terra conceitos estabelecidos de hierarquia; de uso do tempo; de afetividade e até mesmo de interpretação de normas e valores. Nada escapa incólume. Sequer o sacrossanto bom senso de que, como adiantou Descartes, todos os indivíduos da Terra se acham tão bem aquinhoados que mal o reconhecem quando vocalizado pela boca de terceiros. Isso vem no bojo de vender para fora. De interagir com outras culturas e de exercitar a alteridade. Pense-se agora no que implica a internacionalização de pessoas e empresas? Pois bem, é o mesmo desafio potencializado muitas vezes. Porque, ademais de todos os ingredientes acima, assomam os caprichos da legislação, da expatriação, da química da família no novo país e o braço de ferro que se trava diuturnamente contra stakeholders locais e, paradoxalmente, contra quadros internos da empresa ou do próprio país de origem da multinacional – quando ainda é possível identificá-lo.   

Se tudo isso pode parecer um abstração para os não iniciados, a história de vida de Roger Agnelli desnuda cabalmente essa charada. Falecido tragicamente no meio de uma tarde de sábado na zona norte de São Paulo, Roger foi um homem sóbrio e valente. Do Colégio Rio Branco à faculdade de economia, lá se foi ele no começo dos anos 1980 para a Cidade de Deus, em Osasco, rezar pelos cânones conservadores do Bradesco. Quem de nós toparia nos enquadrar nos moldes rígidos dos salões sem secretária e do cabelo aparado semanalmente? Roger topou. Em meados da década seguinte, enquanto alguns apostavam que a Votorantim teria melhores condições de comprar a Vale, o tirocínio de Dr. Lázaro Brandão o posicionou com maestria e, já em 2001, a velha raposa entronizava seu jovem executivo à testa do mamute estatal. No fundo, ganhou o Brasil. Com a privatização da Vale, se tirou em boa hora da chancela do Estado uma empresa que, mais adiante, poderia ter sido predada pelo aparelhamento da chamada Realpolitik. Em mãos comprometidas com resultados – e não com poder –, a Vale se transformou na segunda maior mineradora do mundo.       

Nos bastidores, Agnelli lutou feito leão. Demitiu quando teve que demitir, indiferente aos vagidos demagógicos do Poder Executivo. Quem, afinal, demite por prazer nesse mundo? Assim, enfrentou uma greve excruciante no Canadá e, com firmeza rara, esfarelou o palco do aplauso fácil do Executivo ao encomendar os navios da Vale onde, efetivamente, eles seriam construídos dentro do prazo. Tudo com excelência técnica e a preços compatíveis. Embarcou minério de ferro sem preço fixado, contando com a viagem para descolar um "premium" por conta da pronta entrega.  É claro que os banqueiros de Osasco lhe sinalizavam que aliviasse vez por outra diante do populismo anabolizado do Planalto. Apesar disso, Roger fez o certo até onde pode. E, só então, saiu. O que não estava nos planos era que morresse prematuramente. Perdulário com a vida de seus jovens maduros, o Brasil viu Roger se juntar a Eduardo Campos, Luis Eduardo Magalhães e Marcos Freire – também falecido aos 56 anos. Quem se debruçar sobre a história da internacionalização da empresa brasileira, porém, verá que o nome de Agnelli brilhará no panteão dos heróis discretos desse malbaratado começo de século. Foi homem inspirador e muito querido.  Foi o primeiro a botar o guizo em Lula quando este ainda tinha ares de gato persa.


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