O futebol está passando por uma revolução financeira?

A securitização de ativos é uma das fórmulas para levantar capital

Por Universia Knowledge@Wharton*

Os clubes seguem explorando novas fórmulas para levantar capital. A securitização de parte dos seus ativos é a mais recente delas

O financiamento continua a ser o grande cavalo de batalha dos clubes de futebol. Eles seguem explorando novas fórmulas para levantar capital – seja para erguer grandes estádios ou contratar os melhores jogadores. Em janeiro deste ano, o Atlético de Madri, equipe da primeira divisão espanhola, juntamente com vários times de outras ligas europeias, como a Premier League do Reino Unido e a Bundesliga alemã, constituíram um fundo de securitização de direitos de cobrança futura com capital de investidores norte-americanos. Foram captados, no total, cerca de US$ 73 milhões. Em troca, os clubes cederam parte dos seus direitos de transmissão pela televisão e de receitas oriundas de possíveis transferências de jogadores. Contudo, não é algo que esteja a alcance de qualquer agremiação. 

“Quase nenhuma equipe espanhola cumpre, e nem vai cumprir, os requisitos de transparência da SEC [Securities and Exchange Commission, órgão semelhante à CVM no Brasil]”, opina Geraldo Seeliger, professor da Escola de Negócios IE. “Além disso, na hora de atrair investidores, há dúvidas sobre a continuidade do crescimento sustentável de alguns clubes e, até mesmo, sobre sua gestão. Portanto, esse não é um setor interessante para os investidores”, afirma Seeliger, que também é especialista em gestão desportiva. 

Contudo, os especialistas observam que há um excesso de liquidez nos mercados e, por isso mesmo, é um bom momento para captar recursos. Massimo Cermelli, professor da Escola de Negócios Deusto, diz que se trata sem dúvida de um mercado atraente. Ele vê com bons olhos a atitude dos clubes de recorrerem a novas fórmulas de financiamento, embora concorde com Seeliger de que não se trata de um expediente ao alcance de qualquer time. “As grandes equipes estão preparadas, já que o assunto é muito sério, e elas precisam de ativos, como direitos de transmissão pela tevê, que deem respaldo a esse tipo de emissão de dívida. Embora fosse preciso primeiramente analisar em profundidade as contas, a priori, os investidores estão efetivamente interessados”, garante Cermelli.

Os números falam por si mesmos. De acordo com o relatório “Impacto Socioeconômico do Futebol Profissional da Espanha”, elaborado pela consultoria KPMG, o futebol é a atividade mais importante, em termos financeiros, do setor de lazer. Tanto o negócio direto quanto o indireto (como as apostas feitas na loteria esportiva) desse mercado movimentam, só na Espanha, 7 bilhões de euros, ou 0,7% do PIB do país. Para os cofres públicos, isso representa uma receita tributária de 3 bilhões de euros ao ano. Com relação aos times, as receitas de rádio e tevê dos clubes da Liga de Futebol Profissional (LFP) chegam a 800 milhões de euros (600 milhões oriundos do mercado nacional e o restante de retransmissões no exterior). Apesar disso, esses dados estão muito longe, por exemplo, do montante de 1,5 bilhão de euros arrecadados pelas equipes da Premier League inglesa.

Problema de dívida
Embora pareça um setor financeiramente saneado, a realidade é muito diferente no caso dos clubes espanhóis, já que a maioria tem problemas em seu balanço patrimonial por causa de uma dívida elevada. A verdade é que os times do Real Madrid e Barcelona ficam com 40% das receitas. No caso dessas equipes, suas contas estão mais saneadas e por isso têm menos necessidade de recorrer a novas fórmulas de financiamento. O mesmo não acontece com os demais times, cujo futuro é incerto. “Quem investe quando o risco é tão grande?”, indaga Seeliger, do IE. Mas o problema não é exclusivamente espanhol – e sim da maior parte das ligas do mundo todo, cujos índices de endividamento são muito parecidos, com algumas exceções, como é o caso da Alemanha, onde há um controle maior sobre os gastos e a gestão dos clubes.

De acordo com a LFP, excluindo-se as principais equipes, a dívida dos times da primeira divisão era, em 31 de dezembro de 2014, de 1,96 bilhão de euros. As receitas somavam apenas 940 milhões, o que dá um saldo negativo superior a 1 bilhão de euros. Isso obriga os times a buscar novas fórmulas de financiamento para manter seu ritmo de gastos e de contratações. Contudo, a LFP se comprometeu a reduzir o índice de endividamento dos clubes e garantir a viabilidade econômica dos times para a temporada de 2019-2020. Desse modo, a Liga se equipararia a outras competições europeias, onde já se aplicam as regras conhecidas como fairplay financeiro, isto é, os gastos não devem superar as receitas.

Porém, a medida não convenceu as equipes espanholas, que recorreram aos tribunais para defender a autonomia da gestão de suas finanças. No ano passado, por exemplo, Pedro León, jogador do Getafe, conseguiu que um juiz permitisse que ele voltasse a jogar depois que a LFP o tirara de campo, uma vez que seu clube havia estourado o orçamento com sua contratação. Nesse contexto, é preciso imaginação para buscar novas fórmulas de financiamento, não apenas para sanear as contas dos clubes, mas também para preservar o ritmo de contratações milionárias que dão brilho à conhecida “liga das estrelas”.

Embora a decisão do Atlético de Madri seja a mais original, não é a única alternativa aos empréstimos bancários tradicionais que vêm sendo usados pelos clubes. Cermelli, da Escola de Negócios Deusto, explica, por exemplo, que embora não tenha ainda chegado à Espanha, no Reino Unido são muito comuns os créditos comerciais, um produto financeiro que funciona de forma muito semelhante a uma hipoteca. Isto é, trata-se da troca de ativos não monetários (edifícios, por exemplo) por dinheiro.

A ferramenta mais popular é a busca de um investidor. É o caso do desembarque recente de Chen Yansheng, dono da multinacional esportiva Rastar, no Espanyol. O magnata chinês comprou 54% do capital social da equipe de futebol da Espanha em uma operação que pode ultrapassar os 55 milhões de euros. Seeliger, da IE, afirma que a vantagem dessa fórmula é o preço para o clube, já que a securitização é um tipo de financiamento caro, uma vez que as taxas de juros cobradas são altas. “Contudo, um sócio capitalista sabe que não vai ganhar dinheiro investindo em uma equipe de futebol. O que ele busca é notoriedade e reputação. Em alguns casos, há, inclusive, empresários que compram clubes como símbolo do seu alto poder aquisitivo”, revela Seeliger.

Embora acordos desse tipo sejam os mais desejados, é preciso levar em conta que nem sempre dão certo, advertem os especialistas. “Quando se trata de um capricho, existe o risco de que os investidores desistam com a mesma rapidez de quando chegaram”, observa Seeliger. Cermelli concorda e acha a fórmula uma boa estrutura a curto prazo, mas adverte que depender de um único investidor é arriscado. Foi o que aconteceu com o Racing Santander, clube espanhol que acabou abrindo falência depois que, em 2011, o magnata indiano Ashan Ali Syed anunciou que havia comprado o clube, mas não cumpriu com seu compromisso de investimento, obrigando a equipe a abrir falência.

Fórmulas inovadoras
Outra fórmula empregada é a de abertura de franquias em mercados emergentes, como o da Índia, sistema em que o Atlético de Madrid também foi pioneiro entre os clubes espanhóis adquirindo, especificamente, 25% do Atlético de Calcutá, um clube da Super Liga Indiana. Nesse caso, trata-se não apenas de aproveitar os incentivos fiscais que essa liga de futebol profissional oferece, mas também de gerar receitas através de publicidade (em um mercado de 1,2 bilhão de habitantes), reconhecimento de marca e venda de serviços como o de assessoria dessas novas equipes. O time italiano Fiorentina, por exemplo, também participa da liga indiana através do treinamento técnico do Pune (time indiano).

Em outros casos, os clubes buscam o apoio do capital de risco para repartir os gastos, por exemplo, de uma contratação. Desse modo, as negociações são menos caras para as equipes. Portanto, um investidor privado divide com o clube a propriedade sobre os direitos de um jogador. Conforme explica o escritório de advocacia Baker & McKenzie, trata-se de uma prática iniciada na América Latina para dar respaldo à transição dos jogadores da região para as ligas europeias. O objetivo é investir em jovens promessas do futebol latino-americano a um custo relativamente baixo para logo “vendê-lo” na Europa por vários milhões de euros, obtendo-se com isso lucros superiores a 300%. De fato, em países como a Argentina, a norma que permite aos fundos se converterem em proprietários dos direitos dos jogadores é muito mais avançada do que no Velho Continente. Por exemplo, quando o Barça contratou Neymar, parte de seus direitos econômicos estavam em mãos de vários fundos. Outro caso é o do Doyen, um dos fundos mais ativos desse mercado. Na Espanha, ele ajudou o Atlético de Madrid a contratar o colombiano Radamel Falcao.

Seguindo essa linha de investimento, há também clubes que optaram por estrear na bolsa, como o francês Olympique de Lyon. Na Europa, há mais de 20 equipes com ações em bolsa, embora nenhum deles da Espanha. “A Comissão Nacional do Mercado de Valores (CNMV) tinha dúvidas se deveria permitir a entrada de alguns clubes no mercado de ações tanto por sua situação financeira como por sua falta de transparência de gestão”, observa Gerardo Seeliger. Massimo Cermelli se mostra mais otimista a esse respeito, embora enfatize a importância do tamanho das equipes e acredite que se trate de um veículo apenas para grandes clubes, já que são eles os que mais receitas recebem por direitos audiovisuais. O fato de que alguns se tenham atrevido a securitizar parte desses ativos para captação de fundos é somente o primeiro passo da revolução financeira por que passa o futebol.

Cermelli, da Deusto, acha que, seja como for, os instrumentos financeiros não são uma panaceia para melhorar a situação econômica das equipes, já que continuam a ser veículos de dívida quando o objetivo é precisamente reduzi-la. A securitização dos créditos comerciais serviria apenas para ganhar tempo, enquanto se trabalhariam outros aspectos – como encontrar um sócio capitalista ou patrocinadores que aportem recursos. A curto prazo, Cermelli acredita que essas sejam as melhores opções, mas ele lembra a importância de pensar a longo prazo. Para resolver o problema estrutural do financiamento, e manter ao mesmo tempo uma política de grandes contratações, Cermelli acha que a melhor fórmula consiste em fisgar e envolver diferentes agentes no projeto, desde empresários até os fãs e o público em geral. Desse modo, pode-se fazer, por exemplo, campanhas de crowdfunding [financiamento coletivo] para busca de investimento em projetos específicos como reformar um estádio para construção em seu interior de hotéis ou shoppings que gerem recursos frequentes. É algo que já está sendo feito em alguns países. “A curto prazo, isso não gera grandes lucros, mas a fidelização é um grande ativo a longo prazo”, conclui Cermelli.

*Serviço gratuito disponibilizado pela Wharton, Escola de Administração da Universidade da Pensilvânia, e Universia, rede de universidades que conta com o apoio do Banco Santander.


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