O que o Vaticano tem a ver com startups?

Há, sim, um nexo, como conta neste artigo o consultor Aron Krause

Por Aron Krause*

O que o Vaticano tem a ver com startups?

Faço parte de um grupo chamado Global Shapers, vinculado Fórum Econômico Mundial, e nesta condição fui selecionado para participar de um encontro que o World Economic Forum promoveu em Roma em novembro. Junto comigo estavam mais 39 jovens do mundo que trabalham com projetos vinculados ao social. Como se tratava de um evento vinculado ao Fórum, a Fundação Schwab estava envolvida e foram convidados cerca de 10 CEO`s de grandes organizações internacionais. A programação se estendeu por dois dias e discutimos os marcos que envolvem a desigualdade social e econômica. Pretendo compartilhar algumas reflexões relevantes que surgiram nestes encontro.

Um fato significativo foi a aproximação política do Fórum Econômico Mundial com o Vaticano. Ao longo de todas as discussões havia a presença de sacerdotes de diferentes áreas do conhecimento: filósofos, jornalistas, economistas e sociólogos. Foi a primeira vez que presenciei discussões sobre negócios com pessoas da Igreja. O evento foi dentro da Pontificial University of the Holy Cross. Muito do que eles aportaram nas discussões foi a perspectiva do amor nos negócios - uma visão que traz o respeito e o valor da humanidade no mundo dos negócios de forma prioritária. Uma retórica bem construída, e por vezes bastante conceitual.
Não trouxeram soluções para os problemas, mas reforçaram a urgência de uma mudança global que coloque os principais valores e princípios da existência do homem no centro de nossos sistemas econômicos, políticos e sociais. Tal necessidade é percebida quando se evidencia tamanha desigualdade social e econômica no mundo. Falou-se na necessidade de mudança de mentalidade dos lideres globais, de forma que seja construída uma consciência que não coloque a maximização dos lucros como a grande conquista.

Como o sistema aguenta um decrescimento se foi programado para crescer rumo ao infinito?, eis uma das questões. O que conseguimos ver hoje é a globalização da indiferença e uma crise de confiança no mundo. Cada vez confiamos menos nas pessoas e isto reforça o aumento da desigualdade, inclusive como uma provável reação de defesa a esta sensação.

Outro ponto discutido é como gerenciar o poder? Vivemos em uma crise de gerenciamento de poder. A corrida pelo poder nos mais diferentes campos (econômico, social, político, tecnológico) não se estabelece de forma harmônica. Ora, Rousseau disse lá atrás que o homem nasce puro e a sociedade o corrompe. Logo, não é nada nova a possibilidade tentadora de corromper-se pelo gostinho da conquista e manutenção do poder, uma escolha que pode não ter mais volta, dado que o mundo nos seduz a todo instante, em um assédio que não tem fim. A propósito, cabe uma consulta ao livro de José Mário Neves “A Face Oculta da Organização”. Cabe um exercício de retomada em provocar-se e dar lugar ao questionamento desta constante insatisfação, na qual nos colocamos. Assim, vamos colaborar na transformação do sistema.
A discussão ganhou alguns pontos altos. A dicotomia entre lucro e moral foi um deles. Em determinado debate do dia, o brilhante professor Martin Schlag surpreendeu a platéia e levantou esta reflexão. De que forma se dá esta relação dentro das multinacionais que estavam presentes? E de outros negócios - por exemplo o seu negócio, você que está lendo este artigo neste instante?

Em uma fala contundente, Martín Burt, da Fundación Paraguaya, trouxe uma perspectiva de compreender o que é pobreza para os pobres. A definição é a base de qualquer atuação que possa ser realizada através de ações, projetos e negócios que estejam conectados com o desenvolvimento da inclusão social. A perspectiva da caridade para lidar com questões de inclusão social é o que, muitas vezes, atrasa o processo. “Acreditar que os menos favorecidos financeiramente não tem capacidade de transformar sua realidade é a maior bobagem que possa existir”, acredita Martín. Segundo ele, nosso papel é “esfregar a lâmpada para ela brilhar”.

Um outro ponto de crítica é que não existe uma retenção de talentos – especialmente de grandes profissionais – nas atividades desenvolvidas em favelas ou comunidades de baixa renda. Muitos projetos são iniciados, mas muito poucos conseguem dar conta dos desafios que enfrentam para realmente transformar uma realidade. Acabam perdendo a energia e não seguem adiante. De alguma maneira, é necessário criar condições para que mais pessoas atuem concretamente em relação ao tema da inclusão social.

Entendo que isto é vocação. Há pessoas que possuem e outras não. Existe muito talento criativo que não consegue visualizar oportunidade nesta área. A responsabilidade de um processo de inclusão social é de todos pessoas. Aqueles que possuem preparo ou vocação maior para lidar com o tema têm a responsabilidade de mostrar alguns caminho sobre o que fazer e como fazer para aqueles que não estão preparados para atuar com inclusão.

Por fim, passado algum tempo desse encontro, soube que o Papa Francisco anunciou a abertura de uma aceleradora de startups no Vaticano. A iniciativa é coerente com o discurso e reforça a percepção de que a instituição Igreja Católica está vivendo uma atualização graças ao seu novo líder. A mensagem espiritual, quando ganha o pragmatismo do investimento financeiro que possibilite transformações práticas sociais, ganha muita solidez. Estamos todos presenciando a aparição de um mais novo investidor social com uma influência jamais vista neste meio. Ao seguir potencializando com recursos financeiros as inovadoras iniciativas sociais deste mundo, podemos estar vivendo uma séria mudança, com redução da desigualdade. 

*Aron Krause é fundador do Estúdio Nômade, consultoria que desenvolve soluções voltadas para negócios sociais.


leia também

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: