Liderança posta à prova

O tripé em que se estriba a chefia é o composto harmônico de conhecimento, visão e virtude

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo

Aspectos da liderança

"A história acontece como tragédia e se repete como farsa" - Karl Marx 

Admitindo que a chefe do Poder Executivo recrute ministros como um técnico de futebol faz com jogadores, não há como negar que a escalação da semana passada encontra bons paralelos no mundo da bola. Isso porque o mais novo integrante da equipe traz à nossa lembrança veteranos do naipe de Ronaldinho Gaúcho ou Romário. Comparo-o com ambos porque eles também reluziram no auge. Do lado negativo, eles tampouco souberam parar em tempo devido. Ora, quem assim age, termina por aceitar papeis secundários e por jogar na Segunda Divisão – mesmo que estes lhes valham um pacote de benefícios e regalias duvidosas. No caso em questão, contudo, assoma uma verdade desconcertante. Exangue e desidratada, a Presidente vai buscar para compor o plantel alguém com comprovado perfil de liderança. Mesmo que ele venha a ser o "maestro do ocaso", como dizem alguns – dada a deterioração do quadro. Afinal, o placar já está muito desfavorável, daí o recurso extremo.   

De qualquer sorte, se nos debruçarmos sobre o que faz um líder, recorro ao que li certa feita em Warren Bennis. O tripé em que se estriba a liderança é o composto harmônico de conhecimento, visão e virtude. De preferência, em dosagens similares. Interessante que não basta ter só uma das componentes acima para termos um líder. Pois admitamos que ele tenha profundo conhecimento de finanças públicas. Mas se lhe faltar a virtude e a visão, o que será ele? Um tecnocrata. Um piloto de planilha que não enxerga além do quadrado e que se contam às centenas na capital. E na hipótese de só terem a visão, descolada da virtude e do conhecimento, o que será ele? Um demagogo, ora. Desses que, siderados por uma premonição delirante – "seremos uma potência petrolífera" –, mas desprovidos de conhecimento e virtude, atearão fogo no circo. O perfil se aplica a Morales; ao casal Kirchner e a Maduro. Para eles, vale o lema "depois de mim, o dilúvio". Vale o dividendo imediato, o "cash" na boca do caixa eleitoral. O aplauso fácil.  

E o terceiro grupo, como fica? Acaso podemos menosprezar a virtude pura e simples? É lógico que não. Mas, em consonância com nosso raciocínio, ela só não basta. O lugar deste homem ou mulher é num claustro nas montanhas. Ali se dedicará à oração, à penitência ou à assistência aos desvalidos mais próximos. Homens de vida santificada não são necessariamente grandes líderes. Mandela e Jesus Cristo, acaso foram só virtude? Não. Para fecharmos a reflexão, contudo, e chegarmos ao panteão onde estão Churchill, De Gaulle, Bill Clinton e Ho Chi Min, se impõe que cada um dos atributos acima se faça presente no perfil. Nesse contexto, no que diz respeito à recente contratação da Presidente, os ingredientes estão mal balanceados. Em que quesito, você perguntará. Pois bem, nos três. Interessante é constatar que o novo contratado tinha bons escores. Mesmo os desafetos não lhe negavam pontos positivos até um passado recente. Onde, portanto, o caldo entornou? Consigo responder num parágrafo? Tentarei.     

Pois bem, como alguém que veio de uma infância dificílima, ele encantava o mundo pela capacidade de superação e personificava a virtude. Se lhe faltava um conhecimento estruturado da agenda internacional, essa deficiência era largamente suplantada pela apurada intuição e carisma. Em socorro à visão, eis que o destino lhe concedeu atuar num período de raríssima bonança no "front" mundial em que tudo, absolutamente tudo, parecia dar certo. Ora, se dizia, até os melhores goleiros precisam de sorte. O tempo passou e a "hubris" se apoderou do protagonista. Em dado momento, destilou ressentimento para com os mais educados. O exercício da visão cedeu ao delírio da perpetuação no Poder, ainda que ao arrepio de padrões éticos mínimos. Por fim, más companhias obliteraram o laivo da virtude. O triângulo despencou e assomou a essência desnuda de uma obsessão: o aparelhamento do Estado e o patrimonialismo. Resultado: pediu asilo no Planalto onde ganhará uma caneta e um gabinete. Mas tudo indica que já é tarde.  


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