Quem resiste ao capitalismo?

Biscoitos para os ribeirinhos, carros para os índios e um tríplex para...bom, deixa para lá

Por André D´Angelo

CVRD negocia com índios Xikrins

O marketing e a sociedade de consumo são hábeis em atender as nossas necessidades ou em criá-las? Questão antiga e, provavelmente, eterna. 

Costumo responder que necessidades físicas, sistema econômico nenhum inventa. Mas necessidades relativas, sim – aquelas que vão aparecendo com o desenvolvimento material de uma sociedade e oferecendo facilidades de todos os tipos. A partir do momento que nos habituamos com certas comodidades ou prazeres, passamos a tratá-los como essenciais. Daí nos acostumamos com privilégios que, até determinado tempo antes, desconhecíamos, com consequências nem sempre das mais positivas.

Fenômeno do tipo parece estar ocorrendo entre ribeirinhos de uma floresta nacional do Pará, beneficiários do Bolsa Família há 10 anos. Criados na subsistência da pesca e da lavoura, utilizaram a renda extra do benefício estatal para acrescentar à dieta produtos industrializados. O resultado: ingestão calórica abaixo da ideal e alimentação com piores taxas de sódio, açúcares etc. (leia mais aqui).

Outro exemplo. Uma década atrás, uma tribo indígena (foto), também do Pará, entrou disputa com a Vale por uma área no estado. Mais do que o conflito territorial, o que deixou marcas entre os locais foi a mudança de comportamento dos índios, que “começaram a pedir à companhia bens como os que” viam “em posse dos brancos”. Quando não tinham suas vontades atendidas,  os índios compravam “eles mesmos os produtos”, como roupas e carros, “cujas prestações eram cobradas depois na mineradora” (detalhes aqui).

Já na Cuba pré-abertura, uma adolescente narra, sorridente, sua experiência de comer hambúrguer, tomar refrigerante e zapear os canais da TV na Inglaterra, e voltar com 81 quilos para Havana (no 30º minuto deste documentário).

Desses exemplos, fica a sensação de que o capitalismo e a sociedade de consumo são como mundos encantados, aos quais ninguém resiste. Não há hábito arraigado, costumes ancestrais, religiões ou ideologias capazes de enfrentá-los. Exceto quando proibições são impostas, como no caso dos amish (leia aqui), ocorre sempre uma rendição ao consumo.

Por isso, quando vejo cartazes anticomunistas, como nas manifestações do último domingo, não enxergo neles somente uma preocupação extemporânea e démodé com uma ameaça que obviamente não existe, e sim uma evidente incoerência. Afinal, os protestos eram voltados aos próceres dos governos anterior e atual que se meteram em enrascadas justamente por terem se entregue ao capitalismo com toda a sua vontade – e para todo o seu próprio proveito. 


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