Gerdau perde R$ 4,5 bi com cenário econômico incerto

Cautelosa com quadro brasileiro, a maior empresa do Sul reduz aportes

Por Marcos Graciani

graciani@amanha.com.br

Com cenário econômico incerto, Gerdau perde R$ 4,5 bilhões

A imprevisibilidade da economia brasileira está fazendo com que até mesmo a Gerdau, reconhecida por sua virtude de antecipar cenários, adote a cautela para atravessar um cenário difícil – e que a levou a um prejuízo líquido de R$ 4,5 bilhões no ano passado. Ao apresentar nesta terça-feira (15) os resultados de 2015, o diretor-presidente, André Gerdau Johannpeter, avisou que a siderúrgica reduzirá em 35% os investimentos  em melhoria de produtividade e manutenção neste ano, na comparação com 2015. A cifra de investimento, para 2016, ficará em  R$ 1,5 bilhão “Se o cenário atual [da economia] se mantiver, o aporte se manterá nesse patamar”, anunciou André Gerdau lembrando que desde o final de2014 a companhia tem feito ajustes nas operações para se à adequar demanda. “No último trimestre, fizemos paradas importantes em usinas e começamos 2016 de modo similar”, contou o presidente da maior companhia da região, segundo o ranking Grandes & Líderes – 500 MAIORES DO SUL publicado por AMANHÃ em parceria com a consultoria PwC. Hoje, a empresa opera com cerca de 70% da produção instalada, índice que deve se manter ao longo deste ano.  

Tamanha cautela tem muito a ver com a situação do Brasil, onde a Gerdau comercializou 4,2 mil toneladas de aço em 2015, volume 22,7% menor do que o total vendido em 2014. No ano passado, o mercado interno encolheu 16% puxado, principalmente, pela construção civil e a indústria. O ponto positivo ficou por conta das exportações a partir do Brasil, que dobraram em 2015, atingindo 2,2 milhões de toneladas. A demanda mundial por aço deve crescer 0,7% em 2016. Porém, a demanda na China, onde há a maior parte do excesso de capacidade instalada no mundo, deve apresentar redução de 2% neste ano, o que fará com que a produção excedente do gigante asiático continue a pressionar os preços no mercado internacional.  Segundo André Gerdau, as prioridades para 2016 seguirão sendo a geração de caixa livre, a restrição de novos investimentos e a redução de custos e da alavancagem financeira, considerando o desafiador cenário global do aço. “Continuaremos trabalhando para gerar mais valor de mercado e identificar oportunidades em  mercados  de  produtos  de  alto  valor  agregado,  como  demonstra  a antecipação da entrada em operação do laminador de chapas grossas no Brasil, entre outras iniciativas”, prometeu. 

Balanço
Ao longo de 2015, os reflexos da queda da demanda por aço e da contínua pressão de produtos importados foram sentidos em diferentes níveis, de acordo com o segmento e a região geográfica das operações. As unidades no Canadá, nos Estados Unidos e no México (não inclui usinas de aços especiais) comercializaram 6,2 milhões de toneladas, 4% de redução em relação ao ano anterior, o que se deveu à contínua entrada de produtos importados na região, apesar da manutenção da boa demanda para o setor da construção não-residencial. Já na América do Sul (não inclui operações no Brasil), as vendas somaram 2,2 milhões de toneladas, uma redução de 2% no ano em relação a 2014. Na operação de aços especiais (inclui usinas no Brasil, Estados Unidos, Espanha e Índia), foram vendidos 2,6 milhões de toneladas em 2015, 9% de diminuição em relação ao ano anterior, em razão da forte queda de demanda do setor automotivo no Brasil e, em menor grau, do setor de óleo e gás nos Estados Unidos. 

Todos esses fatores, somados, fizeram com que a Gerdau apresentasse um prejuízo consolidado de R$ 4,5 bilhões (veja os principais números na tabela abaixo), ante lucro de R$ 1,4 bilhão observado em 2014. De acordo com Harley Lorentz Scardoelli, vice-presidente executivo de finanças, o resultado foi afetado por perdas pela não recuperabilidade de ativos, que no quarto trimestre alcançaram R$ 3,1 bilhões. O padrão contábil internacional (conhecido como International Financial Reporting Standards, ou IFRS), seguido pela Gerdau e outras grandes corporações mundiais, determina que sejam realizados regularmente ajustes do valor contábil dos ativos da empresa. Por exemplo, se um bem [ou unidade geradora de caixa, termo técnico usado por contadores] estiver precificado no balanço por R$ 150 mil e ele valer, realmente, R$ 100 mil, a diferença deve ser contabilizado como prejuízo. 

No caso da Gerdau, a reavaliação do valor de seus ativos foi para um valor menor devido ao ambiente do setor de siderurgia permanecer deteriorado, explica Carlos Muller, diretor Adjunto de Relações com Empresas da ApimecSul. "Os ativos que no passado eram reconhecidos no balanço por determinado valor, com as condições macroeconômicas atuais, mudaram. A empresa precisou, então, reconhecer essa diferença, gerando um efeito não-caixa nos resultados", detalha Muller. Assim, do total, a empresa registrou como ágio (diferença entre o valor justo apurado e o valor contábil dos ativos) R$ 1,2 bilhão na operação de negócios (ON) da América do Norte, R$ 1,1 bilhão na de Aços Especiais e R$ 835 milhões no imobilizado da operação Brasil. 

No ano o lucro líquido ajustado foi de R$ 684 milhões, 42,5% menor que o lucro de 1,1 bilhão em 2014. Especificamente na ON Brasil, as perdas foram resultantes dos efeitos da redução da demanda e das paradas de produção em algumas unidades da Companhia, ocorridas ao longo de 2015 e que tiveram como objetivo a readequação da produção aos novos níveis de demanda. 

Zelotes
A Gerdau novamente sustentou, durante a coletiva desta terça-feira, que tem em tramitação processos no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF) e sempre fez uso de escritórios externos visando ao mais adequado assessoramento de estrita natureza técnica. “Ao contrário do que tem sido cogitado no noticiário, não se trata de sonegação – declaração falsa ou omissão com a intenção de eximir-se de tributos eventualmente devidos – e sim do exercício legítimo de direito pelas empresas da Gerdau, respaldado expressamente nas leis e na jurisprudência”, esclareceu André Gerdau ao ler o mesmo teor do comunicado distribuído pela companhia em 25 de fevereiro. O documento afirma ainda que as informações financeiras referentes aos processos em andamento no CARF têm divulgação nas notas explicativas do balanço da empresa. “Os contratos com esses escritórios externos, como outros que a Gerdau possui com prestadores de serviço, foram firmados com cláusula que determina absoluto respeito à legalidade, cujo descumprimento acarreta na imediata rescisão. Nenhuma importância foi paga ou repassada aos escritórios externos do caso específico e os contratos foram rescindidos quando o nome dos prestadores de serviço investigados foram veiculados na imprensa por suspeitas de ações ilícitas. A empresa jamais concedeu qualquer autorização para que seu nome fosse utilizado em pretensas negociações ilegais”, defendeu Gerdau. Leia aqui a integra do comunicado da empresa.  


Informações selecionadas 2015 2014 Var. 4T15 Var.
Vendas (Em mil Ton) 16.970 17.869 -5% 3.887 -16,7%
Receita Líquida  (R$ Mi) 43.581 42.546 2,4% 10.449 -12,4%
Ebitda ajustado (R$ Mi) 4.501 4.906 -8,3% 1.246 -29,4%
Margem Ebitda  (%) 10,3% 11,5% 11,5%
Lucro Líquido (R$ Mi)         (4.595) 1.488        (3.169)  
Lucro Líquido ajustado (R$ Mi) 684 1.190 -42,5% -41


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