Países preferidos

Mas, afinal, o que está por trás da subjetividade do destino favorito?

Por Fernando Dourado Filho, do Rio de Janeiro

Globo

Um croata muito talentoso e empreendedor disse tempo desses a um amigo que adorava o Brasil. E não ocultou os motivos: "Aqui tudo está para ser feito. E até mesmo o que já está concluído, precisa de retrabalho. Daí eu amar esse país". Nessa linha de fazer de nossas deformações uma oportunidade, um português me confessava: "Os italianos adoram as imperfeições do Brasil. Brechas de legislação, sanha legiferante e caos tributário são para eles um mar piscoso. É só jogar a vara e lá vem peixe. Quem se acostumou com regras estáveis, fica desacorçoado". Já um francês que conheço há uma década, repete o mesmo mantra ao primeiro cálice de vinho: "O Brasil é incompreensível. Como é que um país que tem tudo, realmente tudo, consegue desperdiçar chances tão gritantes de prosperar e crescer?" Resumo: são três visões muito peculiares, mas todas elas têm um denominador comum, pois os indivíduos acima preferem o Brasil a qualquer país do mundo. 

Assim sendo, acho que podemos fazer uma analogia com dimensões mais concretas da vida. Quem disse que as pessoas se apaixonam necessariamente pelas mais belas, mais cultas ou mais prendadas? Quantas vezes a gente não se espanta ao ver casais ditos inexplicáveis? E daí podem nascer as interpretações mais bizarras, nem por isso menos verdadeiras: "Fulano é feio, mas é rico"; "Sicrana é bonita, mas é meio sem sal". E assim a fauna humana vai fazendo opções que não se explicam à luz do racional ou do senso comum. Ainda bem, eu digo, embora os mais conservadores fiquem perplexos com essa imprevisibilidade. Mas voltemos aos países. Trinta anos atrás, quando eu falava que a culinária peruana era excepcional, as pessoas me escrutinavam dos pés à cabeça. Será que está maluco? A mesma reação eu senti na pele ao me confessar enamorado pela Bósnia, Vietnã, Bulgária e Cambodja – destinos associados a atrocidades e opressão. Mas, afinal, o que está por trás da subjetividade do país preferido?     

Pois bem, como se trata de uma questão muito aberta e ampla, tomo como ponto de partida que as opiniões mais abalizadas são aquelas que emanam da boca de gente da meia idade. Esta sabe desafiar a sabedoria convencional sem extrapolar. Não quero falar em causa própria – mesmo porque já estou para sair da faixa dentro de um par de anos –, mas é óbvio que a maioria dos muito jovens pautam suas escolhas pela adrenalina própria dos que querem viver com intensidade. Quanto aos idosos, sem querer generalizar, eles trocam qualquer ilha grega paradisíaca pelo aconchego de sua cidade, quando não da própria casa. Resta, portanto, ouvir com atenção o que diz a bancada dos cabelos grisalhos para que tenhamos um equilíbrio bem balanceado de segurança, gastronomia, cultura, natureza, hospitalidade, conforto e, é claro, uma pitada de aventura. Nesse contexto, a ênfase pode variar de um indivíduo para outro, mas é certo que teremos alguns blocos de países finalistas. 

Ora, seja por afinidade cultural, seja por amor ao equilíbrio das virtudes acima mencionadas, o quarteto latino formado por Portugal, Espanha, França e Itália dificilmente faltará – em parte ou na totalidade – da lista dos mais experientes.  No Mediterrâneo Oriental, é difícil resistir à combinação de Turquia, Israel e Grécia, na impossibilidade de incluirmos países que já foram fascinantes, mas que estão devastados. Numa vertente cultural mais próxima, Chile, Argentina, Peru e Colômbia são alguns dos mais queridos. Na África, os pontos de ancoragem estão mais dispersos. Botswana, África do Sul, Costa do Marfim e Quênia são destinos tentadores. China, Hong Kong e Japão são opções imperdíveis na Ásia, mas haverá lugar com folga para Índia e Tailândia. Já Polônia, Rússia, República Tcheca e Hungria podem ser encantadores. E todo mundo sempre achará uma versão dos Estados Unidos a que se afeiçoará, pois lá tem de tudo para todos os gostos. Por afinidade geográfica, incluamos aqui o México. 

Num pelotão isolado, correm países que exercerão sempre um apelo irresistível, muito embora passem por instabilidades que afugentam os mais curiosos. Tunísia, Marrocos, Egito, Jordânia e Irã são alguns deles. A Islândia pode apaixonar os espíritos mais introspectivos e a Nova Zelândia exerce um magnetismo tal que muitos pensarão em morar lá. Tanto quanto acontece com a vizinha Austrália. A região da Lapônia dos países nórdicos parece um conto de fadas, especialmente na Finlândia. Poucos resistirão à harmonia da Costa Rica e sou dos que se sentem em casa na Lituânia, um lugar sofrido, mas belo. Embora não sejam países como tais, a Sicília e a Catalunha merecem a boa fama de que gozam, muito embora isso não seja de aplicação geral à primeira. Para os que pensam em bons ancoradouros para envelhecer, lá está o Uruguai que acena com paz, proximidade e contemplação. Quanto às plagas inóspitas podemos esperar porque o páreo é duro. Ademais, esse é um espaço para o bom e o bem. 


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