Teles: no que elas vão se transformar agora?

Consultor da Huawei diz que empresas estão mudando modelo de negócios

Por Universia Knowledge@Wharton*

telecomunicações

Se você quiser ter alguma perspectiva do impacto da revolução digital, pense no que ela fez ao setor de telecomunicações. Empresas que antes eram concessionárias públicas tediosas que transmitiam voz por fiação de cobre a localidades fixas se transformaram em usinas móveis de dados sem fio que em breve ligarão praticamente tudo a todas as coisas. Considerando-se tudo o que esse pequeno aparelho no seu bolso faz, é surpreendente que ainda o chamemos de telefone.

Contudo, os mesmos aplicativos que estão fazendo do telefone muito mais do que ele é também estão devorando as receitas das operadoras. Martin Creaner, consultor de estrutura corporativa da Huawei ? maior fabricante de equipamentos de telefonia do mundo ?, diz que as empresas de telecomunicações estão mudando seu modelo de negócios para se adaptar. Creaner, um dos palestrantes presentes ao congresso de “Estratégias para o Sucesso na Nova Era de Ecossistemas Conectados” patrocinado pelo Instituto Mack de Gestão da Inovação, da Wharton, falou a Knowledge@Wharton sobre as mudanças da indústria na era digital.   

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: O setor de telecomunicações móveis mundiais é muito competitivo. Gostaria de saber como a tecnologia digital dá a Huawei vantagem competitiva na China e em outras regiões.

Martin Creaner: Você tem razão. A indústria é realmente muito competitiva. Contudo, a concorrência não se dá apenas entre as teles. Se a concorrência fosse só entre elas, daria para lidar com a situação. A concorrência real vem do que chamamos de empresas “over-the-top”, como WhatsApp, Viber, Skype ? empresas que não possuem necessariamente uma rede, mas que criaram um serviço que utiliza a rede existente.

Cada vez mais, as receitas das teles vão sendo devoradas, suas linhas principais de negócios, voz, dados e mensagens, estão sendo arruinadas por outros serviços. Elas ainda têm alguma receita decorrente da oferta de conectividade básica, mas não participam dos sedutores fluxos adicionais de receitas. De modo geral, as teles já sabem que se trata de uma tendência irreversível. Elas precisam mudar todo o seu modelo de negócios para se adaptar a esse quadro, e é aí que entram as tecnologias digitais.

As teles têm capacidades, redes, sistemas e um grande volume de dados interessantes. Elas têm sistemas de cobrança e de pagamentos. E, cada vez mais, vislumbram um futuro em que serão meios que permitirão a vários desses serviços chegar ao mercado, proporcionando serviços interessantes entre empresas (B2B) para as provedoras de serviços over-the-top e obtendo, em troca, uma pequena fatia de receitas, em vez de serem elas responsáveis pelo desenvolvimento e fornecimento de serviços. Essa é a primeira mudança por que estão passando as empresas de telecomunicações.

Quais são os novos modelos de negócios que a Huawei está buscando, e em que novos mercados vocês estão pensado em entrar?

A Huawei fornece equipamentos a todas as principais empresas de telecomunicações digitais. Somos um dos principais fornecedores dessa indústria. A Huawei e a Ericsson ? e, em menor grau, a Alcatel-Lucent, que acaba de ser adquirida pela Nokia ?, fornecem infraestrutura de comunicação a centenas de teles no mundo todo.

O desafio que mencionei diz respeito à dificuldade enfrentada pelas próprias empresas de telecomunicações: AT&T, Verizon, Vodafone, China Mobile, Deutsche Telecom etc. A Huawei está a um passo atrás nessa cadeia de valor, fornecendo equipamentos de rede, aparelhos etc. para essas empresas.

O principal interesse da Huawei neste momento é tentar compreender de que modo o mercado vai mudar para seus clientes ? como a At&T, Verizon, Vodafone, Deutsche Telecom etc. reagirão às pressões que citei. Que sistemas, softwares e serviços essas empresas precisarão que a Huawei lhes forneça daqui a três ou cinco anos para que possam competir com a nova economia digital em que se encontrarão?

Há uma analogia com a corrida do ouro, em que os mineiros tentam encontrar ouro, mas alguém vende a eles as pás de que precisam. É isso mais ou menos que sua empresa está fazendo?

Sim, de modo geral. Na indústria, não importa em que país você esteja ou que rede você esteja usando, as probabilidades são de que ela esteja usando equipamentos da Huawei, da Ericsson ou da Alcatel-Lucent. São essas as três opções disponíveis atualmente. Bem, a conectividade está crescendo no mundo todo, portanto a indústria continuará a vender mais equipamentos para atender à necessidade que todos têm de conectividade. Contudo, os modelos de negócios com base nos quais as teles obtêm receitas em troca de conectividade constituem o ponto principal dessa mudança.

A Huawei continuará a “vender pás” para as empresas de telecomunicações que fornecem a conectividade. No entanto, o que é importante compreender é o que, além disso, as teles vão precisar daqui a três ou cinco anos quando estiverem operando um novo tipo de negócios? […] É por isso que a Huawei está envolvida com a Wharton e com várias outras escolas de negócios de ponta ? para tentar entender de que modo essas coisas estão mudando em outras indústrias e o que a Huawei pode aprender. E, talvez, lançar algumas outras ideias nesse pote que a empresa fará então circular entre sua clientela de telecomunicações.

Existe alguma coisa que você preveja para daqui a três ou cinco anos e que as pessoas não estejam percebendo, mas que pode ser um grande negócio, ou talvez um possível grande negócio?

Por um lado, é claro, não dá para prever o que será um grande negócio daqui a três ou cinco anos. Ninguém imaginava cinco anos atrás que fosse existir uma Airbnb, ou um Uber, ou o sucesso que é o WhatsApp. Portanto, não gasto muito tempo tentando prever aonde coisas desse tipo vão dar. Eu me preocupo mais em criar um ambiente flexível que possa tirar vantagem daquilo que será realmente importante.

Minha visão do futuro das teles é que elas deixarão de ser a parte que apenas nos proporciona serviços de voz, dados e mensagens ? áreas cujas receitas vêm diminuindo ? e se tornarão a parte que disponibiliza a plataforma que permite a outras pessoas entrar nesse mercado. Portanto, as teles proporcionam uma coisa útil para o próximo Uber, para a próxima Airbnb, o próximo WhatsApp. Elas fornecem a capacidade que tira vantagem das coisas boas que elas podem fazer, e tira daí uma fatia das suas receitas. Essa é realmente a resposta que estou procurando nessa minha temporada com a Wharton ? uma visão de como deverá ser essa flexibilidade, e não a visão de quem será o próximo Uber. Se alguém puder me dizer quem será o próximo Uber, por favor, eu também gostaria muito de saber. Contudo, não acalentem muitas esperanças desse tipo.

Aqui nos EUA, a Verizon está apostando alto na Internet das Coisas. Ela quer se tornar a operadora que conectará todos os aparelhos conectados a Internet, inclusive carros. Qual sua opinião sobre a Internet das coisas? A popularidade dela está crescendo na China?

Creaner: Sem dúvida que sim. Quer dizer, já é um mercado bem grande. Talvez nem tanto no segmento de conectividade de carros, embora os carros conectados sejam, é claro, muito importantes no mundo todo. Contudo, coisas como cidades e casas inteligentes e os aparelhos de Internet das Coisas que as impulsionam ? têm recebido investimentos elevados no mundo todo, na China, na Europa, nos EUA. Toda empresa de telecomunicações com quem você conversa está seriamente decidida a testar tecnologias e modelos de negócios em cada uma dessa áreas ? cidade inteligente, casa inteligente, carro conectado. Também drones para a agricultura, sistemas de saúde conectados a aparelhos usados para assistência médica e bem-estar. São muitas as experiências em andamento no mundo atualmente.

Acho que a tecnologia provavelmente já está aí. O que ainda não está são os modelos de negócios e as estruturas de mercado e ecossistemas que terão de cooperar uns com os outros, que terão de ser orquestrados de modo que essas coisas se tornam um negócio de verdade. Não tenho dúvidas de que vai acontecer. Num dia qualquer em se realize um congresso dessa área, há 20 relatórios técnicos sendo publicados sobre o assunto; empresas seu volume de investimento em IoT [Internet das Coisas] relacionado a carros conectados, cidades inteligentes etc.

Por enquanto, porém, ainda estou aguardando para ver exatamente o que vai acontecer e quem vai faturar com isso. Quem vai realmente controlar  o ecossistema e quem serão os atores secundários? As teles farão parte definitivamente desse mix, porque todas essas coisas exigirão conectividade. Contudo, as teles serão apenas dumb pipes [isto é, se limitarão a viabilizar o tráfego de bytes de conteúdo de terceiros em vez de oferecer serviços de valor agregado]? Ou será que terão algum outro papel a desempenhar? É aí que se dará a verdadeira batalha.

Como você mantém viva a inovação na Huawei e quais os desafios que ela acarreta?

A Huawei tem apenas 20 anos, mas já se tornou uma empresa bem-sucedida cujo valor atual é de aproximadamente US$ 60 bilhões graças à excelência da sua engenharia. Portanto, creio que as principais dificuldades consistirão em identificar o que o mercado precisa, atendê-lo rapidamente e, em seguida, executar brilhantemente o que se espera da nossa engenharia. Em termos técnicos, estamos falando de inovação sustentável e não inovação disruptiva. Com base nesse modelo, a Huawei cresceu e se tornou líder de mercado.

Quando você se torna líder de mercado, é muito difícil continuar a ser apenas um fast follower [companhias que seguem os líderes de mercado, repetindo rapidamente experiências de sucesso comprovado]. Você tem de se tornar líder. Portanto, o desafio para a Huawei consiste em saber como fazer a transição para a liderança e deixar de ser uma fast follower. A empresa é extremamente inovadora atualmente no segmento de aparelhos diversos, celulares e wearables [a tecnologia wearable se adapta à roupa e acessórios dos usuários para transformá-los em dispositivos inteligentes] , relógios inteligentes etc. É um negócio que está crescendo rapidamente na China e no mundo todo.

Estamos aprendendo a inovar, em vez de nos contentarmos em ser fast follower. Mas esse é um processo de aprendizagem. Pegar uma empresa que prosperou e cresceu e que hoje tem centenas de milhares de pessoas que trabalham segundo o modelo de fast following e aí começar a mudar essa mentalidade para se tornar líder em inovação é algo que exige inúmeras mudanças culturais. Não se trata de um desafio cultural para uma empresa chinesa. Nada disso. Trata-se pura e simplesmente de mudança cultural corporativa.

Como você lida com a questão do desafio cultural corporativo?

Note que a Huawei, nos últimos cinco anos, abriu uma série de centros de pesquisa fora da China. Há talvez dez, aproximadamente, na Europa. Há centros de pesquisas na Costa Oeste dos EUA, em Santa Clara, na Califórnia, há centros de pesquisas em outros países que exploram diferentes recursos, deferentes tipos de pensamento, onde trabalham pessoas que não se formaram necessariamente na cultura original da empresa. Essa é uma das maneiras que trabalhamos essa questão.

É preciso diversificar o pensamento e não se limitar apenas a tentar fazer mudanças internas. É preciso introduzir agentes de mudanças de diferentes localidades. Acho que essa é, talvez, uma das áreas mais importantes. É claro que deve partir também da liderança. A Huawei tem, na verdade, três CEOs que trabalham em sistema de rodízio. Um deles, Eric Xu, está muito voltado para a próxima visão da empresa.

Portanto, acho que se você tem uma liderança que está realmente disposta a dar impulso à inovação, e já desenvolveu toda uma série de ideias nesse espectro em diferentes centros de pesquisas, em diferentes localidades totalmente distintas do pool de genes da Huawei,  creio que temos aí os elementos necessários a essa tarefa.

Certamente vários outros elementos surgirão nesse nosso processo de aprendizagem.


*Serviço gratuito disponibilizado pela Wharton, Escola de Administração da Universidade da Pensilvânia, e Universia, rede de universidades que conta com o apoio do Banco Santander


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