Cuba: nada será como antes

Acredito que a ilha se revelará uma grata surpresa para a América Latina lá por meados da próxima década

Por Fernando Dourado Filho, de Recife

Raul Castro e Barack Obama

O anúncio da viagem do Presidente Obama a Havana, onde estará entre 21 e 22 de março, deve estar enchendo os moradores da Ilha de entusiasmo inusitado e bem fundadas esperanças. Primeiro porque anos de provação e penúria não lhes tiraram a capacidade de ler a História. Ora, no caso da crônica cubana, ela se encaminha claramente em direção a um divisor de águas. Assim sendo, os códigos tácitos que regem a aproximação política sinalizam que a lua de mel poderia ser frustrada – ou mesmo abortada – em caso de violações flagrantes das liberdades individuais. Mesmo porque a nomenklatura cubana sabe perfeitamente que há oposição republicana nos Estados Unidos ao gesto largo e que, ao ousar fazê-lo, o presidente expõe a riscos a chapa democrática pois contraria alas histéricas da direita – hoje vocalizadas por Trump. Dito de outra forma, ele esquece por um momento as eleições e olha para a História – quase nove décadas depois da última visita de um primeiro mandatário ao vizinho. Logo, se antevê um relaxamento no aparelho repressivo dos Irmãos Castro.  

Em segundo lugar, porque o evento coincide com a oficialização de nada menos do que 120 voos diários entre os Estados Unidos e meia-dúzia de cidades na Ilha. Ora, com 3.600 voos comerciais ao mês, ou mais de 40 mil num único ano, à modesta razão média de 100 passageiros por avião, fica patente que não haverá muralha de contenção que impeça uma ampla interação entre um povo sedento de conhecimento e oportunidades e outro que se lhe assemelha nesse quesito como duas gotas d'água. Aliás, não fosse este um clichê tão rasteiro, eu não hesitaria em dizer que se trata de juntar a fome com a vontade de comer. Mas agora já está dito. O que resultará de tamanha empatia? O mesmo pragmatismo que rege as relações da China com o mundo, creio eu. Fazem-se negócios em profusão e exploram-se sinergias onde presentes. Política? Deixa-se de lado. Afinal, é tema de gosto tão duvidoso quanto falar de ex-namorada com a nova. Ademais, perde primazia quando a pauta é palpitante. Não é à toa que se diz que política é tema para desesperados e desocupados. Onde mais ele incendeie as pessoas? Em Oslo ou no Cairo?          

Nesse contexto, vale ressaltar que Obama se prepara para deixar a presidência no bojo de um legado importante. Se em alguns momentos do duplo mandato ele pode ter passado a impressão de que fora abduzido pelas demandas da Realpolitik e que, contrariamente ao truísmo ianque, não faria diferença à luz da História, cresce o consenso em torno da força agregada de um legado que, de forma cumulativa, cobriu setores tidos por vulneráveis e indefinidos. Se a saúde pública foi talvez o mais visível deles, a política externa esteve sob seu comando ao abrigo dos desastres que assinalaram o caminho dos que o antecederam. Com a honrosa – e surpreendente – exceção de Ronald Reagan que, alinhado com Thatcher e um Papa polonês, colecionou inusitado número de créditos. Com Obama, a recuperação da economia se deu em paralelo ao ritmo de inovação do país e, tanto quanto lhe permite a alçada, colocou o dedo em temas centrais, a começar por questionar a venda de armas e a obesidade infantil. De resto, o leitor sabe que há limitações ao poder do presidente, pois muito é matéria do Congresso, quando não dos Estados.     

Assim sendo, tenho certeza de que um dia Obama terá uma grande estátua no centro de Havana e os cubanos o apontarão como o grande irmão que resolveu enfrentar os ruivos de pele rosada do norte e, riscando o passado, oxigenou um país que já estava de há muito fenecido, vivendo das gambiarras que seus velhos automóveis tão bem simbolizam. Ademais, sendo o primeiro casal americano formado por negros – como boa parte dos cubanos –, se selará uma empatia cultural que o jogará nos braços do povo, se tudo correr bem. Ao passo que esse o acolherá como se estivesse abraçando parentes de quem estivesse há muito separado. Ao que tudo indica, quem estiver lá nesse dia testemunhará mais do que História, pois tudo aponta para uma festa. Acredito, portanto, que Cuba se revelará uma grata surpresa para a América Latina lá por meados da próxima década. E não somente devido à alavancagem propiciada pelo irmão rico e generoso, mas porque algo de diferenciado lhe terá ficado no legado educacional para compensar a invariável baboseira ideológica que vem como matéria compulsória. 

O capítulo ingrato ficará para mais tarde. E sequer falo aqui de transformar homens e mulheres atados pela burocracia estatal em atores vivos de uma saudável economia de mercado. Isso o tempo resolve e já temos casos patentes dessa conversão até em rincões da Romênia e da Moldávia – não sem alguns vícios que se acumularam em décadas. O pior será sempre aquele momento em que, tendo a erva daninha encoberto o mausoléu dos irmãos, a sociedade se voltará, afinal, para acertar as contas entre si. Ou seja: o que é feito dos brucutus que sequestraram, mataram e torturaram? Será que os tempos pedirão que se lhes esqueça o legado sinistro? Será que a generosidade da Ilha os deixará cair no esquecimento até que o ostracismo os leve à morte? Ou, pelo contrário, serão levados a cortes para um julgamento independente, até mesmo em fóruns internacionais? Não se sabe. Chile, Argentina e Brasil lidaram de forma bastante peculiar com tais esqueletos de armário. Em tal cenário, que cadeira caberia a Frei Betto? Réu por propaganda enganosa ou jurado cristão, a serviço do ser humano onde ele estiver? 


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