A Pauliceia desvairada

São Paulo tem uma legião de fãs e que certamente não a trocam por lugar nenhum no mundo

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo

Ponte Estaiada, em São Paulo

Diga-se o que quiser de São Paulo, mas eis aqui uma cidade insubstituível ao sul do Equador. Ano após ano, olho com inquietação o calendário e vejo que minha temporada na grande cidade se aproxima do fim. E que logo me debruçarei com saudades sobre os últimos 35 anos, aqueles que assinalaram uma relação tão umbilical com a megalópole que chegava a conhecê-la bem mais do que a imensa maioria dos paulistanos com quem convivia. Essa partida quase inexorável se deve a que o que antes se me passava despercebido – trânsito, poluição, custo de vida e violência –, hoje se me afigura ameaçador. Mesmo nos corredores exclusivos para ônibus, os engarrafamentos podem ser demorados. A asma se ressente do ar poluído. O custo de vida me obriga a optar ano após ano por apartamentos menores – o que violenta os livros – e a idade faz com que eu já possa me tornar um alvo fácil da violência. Quem me olhar com más intenções poderá concluir: eis um alvo bom, já não tão ágil, já não tão desenvolto, pesado, quiçá lento.   

É claro que até por razões de sobrevivência, tenho que me aguentar por mais uns anos. Tanto pela material – nunca fui um poupador agressivo – quanto espiritual. Isso porque não me enxergo num grotão longe das salas de cinema, lendo jornal pela internet nem cultivando covas de feijão. Tampouco me vejo caminhando pelas praias e suspirando ao pensar que em São Paulo tenho mais clientes num raio de 10 quilômetros de casa do que no Nordeste brasileiro inteiro. Isso é aterrador. Da vez que fiz uma experiência parecida, o resultado foi catastrófico e de curto fôlego. Primeiro porque a todo o momento precisava voltar à cidade por razões profissionais. Segundo porque a nostalgia me envolvia em tal onda que até as pessoas mais próximas me disseram que preferiam abrir mão de conviver comigo para meu próprio bem. Isso porque eu mais parecia um navio que adernava ou que encalhara num banco de areia. Voltei para a cidade com uma alegria que jamais me deixou.

Ademais de todos os atrativos profissionais, São Paulo nos dá anonimato; vida cultural efervescente; gastronomia impecável; bonitos parques e uma diversidade humana que já foi desde há muito cantada em prosa e verso. Além do mais, lá estando, não longe de seu aeroporto, temos a sensação de que o mundo fica ao alcance da mão. Nenhuma distância é intransponível; nenhuma barreira geográfica é inalcançável. Nesse contexto, muitos poderão até sentir falta das coisas que abominavam quando lá chegaram: o português mal falado que resultava do mish mash do árabe, do italiano e do japonês. As relações institucionais que as pessoas travavam – em detrimento do tom mais cordial do restante do país e aquele senso de urgência que parecia destoar de um Brasil mais rural e cordato. Pois bem, melhor que seja assim. O que é inelutável é que as enormes transformações dos últimos anos pouco a pouco me relegam à posição de meus chefes quando cheguei. Eram senhores sisudos que se preparavam para deixar as empresas.      

Não, São Paulo jamais será a festa parisiense porque esta, apesar de recentemente enlutada, tem uma beleza que laça o visitante pelo pescoço. Jamais terá o charme sóbrio de Londres nem tampouco o vigor de suas ruas atapetadas de centenas de etnias. Pode ser que, sob certos aspectos, se equipare a Nova Iorque, mas fato é que perdeu muito de seu impulso com o colossal desperdício de talentos e potencialidades do país nesse milênio. De Buenos Aires, lhe falta a aura de cidade europeia clássica e jamais seria Roma porque esta é única e eterna. Mas, convenhamos, tudo isso são analogias bobas. Importante é que São Paulo corre em raia própria e isso não é pouca coisa. Ademais, a exemplo de todas essas que precederam, ela também tem uma legião de fãs que lhe destacam as belezas dos ipês roxos e amarelos de outubro e que certamente não a trocam por lugar nenhum no mundo. Bem ou mal, se a opção me fosse dada, talvez fosse meu caso. Mas a equação da vida não se resolve simplesmente com uma opção – como se se tratasse de um teste de múltipla escolha. 

Assim sendo, ao ter que optar por mais de uma alternativa – ou algumas delas combinadas –, é possível que venha a me despedir de minha amada cidade até o fim da década. Enquanto o momento não chega, vamos vivê-la intensamente e lavrar os renovados agradecimentos ao tanto que ela proporcionou. Pois a ele devo muito. Só não tanto, talvez, quanto ao Recife dos anos 1960 e 1970. Mas isso fica para outro dia. 


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