Escrito nas estrelas

Previsões empresariais de astrólogos são piores que a de economistas?

Por André D´Angelo

Primeiro serviço de astrologia empresarial do país, o Astroinvest

Matéria da Folha de S. Paulo dá conta de que, aproveitando-se do incerto cenário econômico atual, foi criado o primeiro serviço de astrologia empresarial do país, o Astroinvest. A reportagem também informa que há empresários que recorrem a mapas astrais, tarôs e numerologia antes de tomar decisões, seja de novos investimentos, seja de contratações – mesmo que, por vezes, escondam isso de sócios, funcionários ou parceiros de negócios, temendo reprovação (leia aqui).

Surpreendente? Nem tanto. O mundo econômico e empresarial é bastante racional e científico na aparência, mas comporta um conjunto amplo e variado de crenças e comportamentos eminentemente emocionais, nem sempre lastreados na realidade. 

Exemplos não faltam, a começar pelo próprio empreendedorismo. Dispor-se a investir tempo e dinheiro em um negócio próprio é, do ponto de vista concreto, uma temeridade, para dizer o mínimo. No Brasil, estatísticas dão conta de que 85% das micro e pequenas empresas sucumbem logo no primeiro ano de funcionamento, dado mais do que suficiente para desestimular qualquer candidato a empreendedor. O futuro empresário, no entanto, não se apega à probabilidade negativa; como dizia John Maynard Keynes, o “espírito animal” se sobrepõe ao cálculo racional toda vez que um negócio sai do papel. “(...) se todos os empreendedores potenciais agissem como calculistas prudentes, (...) o ânimo empreendedor definharia e a economia entraria em séria depressão”, lembra Eduardo Gianetti da Fonseca em “Auto-engano”. 

Segundo, a gestão empresarial, em si, não constitui uma ciência, e sim um conjunto de ferramentas a serem aplicadas no dia a dia dos negócios. E nenhuma decisão corporativa é desprovida das características e dos vieses de quem a toma, sejam eles quais forem, e estejam as tais ferramentas gerenciais presentes ou não. “A maior parte da teoria de administração é um subgênero de auto-ajuda”, provoca Matthew Stewart, um ex-consultor de negócios formado em...filosofia. “O que não quer dizer que seja completamente inútil”, ressalva ele. “Mas assim como a maior parte das pessoas é capaz de levar vidas satisfatórias sem ler Deepak Chopra, a maioria dos gestores provavelmente poderia prescindir do ensino da teoria gerencial” (artigo completo aqui, em inglês).

Finalmente, as projeções econômicas de que imprensa e empresários tanto fazem uso são, simultaneamente, uma sondagem da realidade e uma intervenção nela. Recorrendo novamente a Gianetti da Fonseca, uma imagem proposta por ele capta bem o papel dessa disciplina e de seus profissionais: economistas são meteorologistas capazes de interferir no clima. Cada vez que uma “previsão científica” sai das planilhas de um banco ou de uma gestora de investimentos, contamina o ambiente econômico, para o bem ou para o mal, ajudando a realizar aquilo que ela mesmo vaticinou, constituindo as famosas profecias autorrealizadas. Delfim Netto, o melhor dos economistas brasileiros, não cansa de lembrar que na economia as crenças superam os fatos, e que o desenvolvimento é um “estado de espírito”. Recorrer às projeções do boletim Focus do Banco Central, divulgadas todas as segundas-feiras, talvez não seja tãããão diferente assim de jogar búzios, cartas ou traçar um mapa astral – o que os distingue é o verniz de cientificidade a legimitá-los em diferentes ambientes.

Por tudo isso, a consulta a serviços esotéricos antes de tomar decisões empresariais não só não constitui surpresa como nem mesmo é merecedora de reprovação. Dúvidas, crenças e temores todos os empresários e gestores têm – a diferença está na maneira como lidam com eles e quão abertos estão para reconhecê-los de público.


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