Lesbos e o Nobel da Paz

O que singulariza o pedido é que os gregos passam por um momento dramático e mostram que sempre cabe mais um no coração

Por Fernando Dourado Filho, de Ponta de Serrambi (PE)

Ilha de Lesbos, na Grécia, porta de entrada de refugiados para a Europa

O arquiteto grego Alkmini Papadaki lançou petição, já assinada por meio milhão de pessoas, sugerindo a ilha de Lesbos (foto) e seus briosos habitantes para ganhar o prêmio Nobel da Paz de 2016. Embora pareça extremamente prematuro focar desde já quem merecerá o galardão, não há dúvida de que os ilhéus têm formado uma honrosa linha de frente de acolhimento de milhares de refugiados sírios que, tendo vencido o obstáculo da passagem pela Turquia, fazem dali uma plataforma para seguir em direção ao coração da Europa, à procura de melhores dias.

O que singulariza sobremodo a petição de Papadaki é que os gregos passam por um momento dramático de sua história econômica e, com gestos de desprendimento, têm demonstrado que, na verdade, sempre cabe mais um no coração. E, como consagra o ditado, onde comem dois, comem três. Nesse contexto, ele singulariza essas ações solidárias nas pessoas de Emilia Kamvysis, de 85 anos; e de Stratis Valiamos, um pescador de 40 anos. Ambos estão sempre mobilizando esforços para ajudar os refugiados e têm demonstrado profunda empatia para com o sofrimento alheio.

Eis o que dá o que pensar. Nesses próximos dias, vão se completar cinco anos que perdi um amigo querido, um desses sujeitos que trouxe da infância até a idade madura e para quem jamais houve aperto financeiro (e ele conheceu tantos) que o impedisse de olhar para os mais necessitados do que ele próprio. Quantas vezes, quando o inverno ainda existia pelas bandas da Consolação, na capital paulista, não o vi pegar uma caneca de café, torrar umas fatias de pão e levar os mantimentos para um mendigo que, anônimo, se refugiava sob a marquise de um banco do outro lado da rua?

Nesse contexto, nunca esqueci as páginas memoráveis do livro "Ébano", de Ryszard Kapuscinski, sobre as muitas décadas que ele passou na África. Em dada passagem, ele alude às crianças que, ao receber uma bala para quatro, a repartiam criteriosamente em pedacinhos milimétricos para que ninguém saísse prejudicado. Dito de outra forma, não é raro que as pessoas mais necessitadas sejam aquelas que melhor apreendem o sofrimento dos semelhantes. É claro que são milhões os seres humanos que se enquadram na categoria de Emilia Kamvysis e Stratis Valiamos. Mas por que não eles, já que tão cedo esse drama se estancará?

Com esses exemplos, é possível que pessoas como a jornalista húngara que tentou deter foragidos à custa de rasteiras e chutes (é curioso que na Tailândia os pés só podem ser usados para a locomoção e nada mais), atinem para que é nas zonas de fronteira que o destino nos impõe alguns dos maiores desafios. E não é à toa. Pois é ali que as pessoas estão mais fragilizadas, mais reféns de um sorriso amistoso, de uma atitude tranquilizadora, para não dizer de um gesto de boas vindas. Tudo isso os gregos estão fazendo com largueza e desprendimento.


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