Feira de Cantão, o Banco Asiático e a estratégia da China

A Ásia reforça sua capacidade de investir em infraestrutura para ampliar sua competitividade

MiltonPomar

Feira de Cantão, o Banco Asiático e a estratégia da China

Encontrei há alguns dias o cartão de visitante da Feira de Cantão, que recebi quando fui lá pela primeira vez, em 1997. A “Canton Fair” (www.cantonfair.org.cn) completava 40 anos e aquela era a sua 81ª edição. Voltei lá várias vezes, desde então, acompanhando seu crescimento e mudanças, inclusive de endereço – ela saiu do centro da cidade, para o “Complexo Pazhou”, às margens do rio Zhujiang (rio das Pérolas), em região servida por metrô (linha 8), grandes avenidas e com muitos hotéis internacionais. Naquela edição, as vendas anunciadas atingiram um total de US$ 9,8 bilhões. No ano passado, a 115ª edição da Canton Fair vendeu US$ 31 bilhões. E em 2008, as vendas na edição de abril bateram em US$ 38 bilhões, recorde ainda não superado.

 

A criação do Pavilhão Internacional, em abril de 2007, com estandes de expositores estrangeiros, significou uma mudança importante no evento, que a partir daí passou a não ser mais exclusivo da China para o mundo, mas também do mundo para a China. Na próxima edição, a 117ª, de 15 de abril a 5 de maio, haverá espaço internacional na primeira e na terceira fases da feira.  Considerada a maior feira de commodities da China, Cantão atrai todos os anos centenas de empresários e empresárias do Brasil. Comitivas articuladas pelo China Trade Center, de São Paulo, em parceria com federações de indústrias de vários Estados, além de comitivas articuladas por federações comerciais, por empresas diversas, pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China e por outras instituições. Todas elas vão à Feira de Cantão não para vender, mas para comprar de bugigangas de plástico até grandes máquinas.

 

É interessante refletir sobre isso no momento em que se noticia a fundação do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, com capital inicial de US$ 50 bilhões, do qual o Brasil, Rússia e Inglaterra farão parte. Ou seja, enquanto continuamos importando produtos para nossas lojas e indústrias (e pagando taxas reais de juros que são as mais altas do mundo), a Ásia reforça sua capacidade de investir em infraestrutura para sustentar e ampliar sua competitividade. Registre-se ainda não ter “caído a ficha” aqui no Brasil sobre a extensão e profundidade do estrago resultante da concorrência chinesa nos países nossos tradicionais compradores e, internamente, em vários segmentos do setor industrial. O comércio Brasil-China saltou de US$ 2,3 bilhões, em 2000, para US$ 23,3 bilhões em 2007, e logo depois (2010) para US$ 56,6 bilhões. Mantido esse ritmo de crescimento, de 40% ao ano, chegaríamos já neste ano com US$ 300 bilhões e não com os atuais possíveis US$ 100 bilhões.

 

A China continua liderando os grandes movimentos estratégicos na Ásia e no restante do mundo. Além do Banco Asiático, criou também o Banco do BRICs, em julho do ano passado, para contrapor-se financeira e comercialmente à ofensiva norte-americana no Pacífico. E continua crescendo seu PIB: a previsão para este ano é de 7% que se dará não sobre US$ 1 trilhão (PIB chinês em 1997), mas sobre US$ 10 trilhões, enquanto a maioria das economias desenvolvidas continua patinando em torno do 1%. Se se considerar o PIB chinês por paridade do poder de compra, quase US$ 18 trilhões, o impacto desses 7% de crescimento será ainda maior.


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