Um 2015 complicado dá lugar a um ano novo tenso na Europa

A crise dos imigrantes, os ataques do ISIS e os movimentos contrários à austeridade continuarão a gerar tensões em 2016

Por Universia Knowledge@Wharton*

Manifestação em Paris contra os ataques terroristas do ISIS

Alguns poucos tópicos dominaram as manchetes na Europa em 2015, sobretudo a crise dos imigrantes, os ataques terroristas do Estado Islâmico (ISIS) e os movimentos contrários à austeridade. Essas tensões continuarão a ter um impacto significativo sobre a perspectiva econômica da região em 2016 e, juntas, estão suscitando o receio entre alguns grupos de que a União Europeia possa vir a se desintegrar futuramente.

A análise da avaliação inicial das previsões econômicas, entretanto, mostra a persistência de um crescimento moroso, embora isso ainda possa ser considerado uma melhora importante em relação aos anos que se seguiram imediatamente à crise financeira. A previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI) para os 19 países que adotam o euro, por exemplo, prevê um PIB de 1,6%, pouca coisa acima de 1,5% para 2015. No caso dos 28 países que integram a União Europeia, a previsão de crescimento do índice é de 2%, ante 1,9% no ano passado.

É claro que esse crescimento está distribuído de forma heterogênea pelos países. Contudo, na soma geral, esses valores contrastam com a previsão de crescimento global do PIB, que é de 3,6% segundo o FMI, e pouco abaixo de 3%, de acordo com o Banco Mundial. Uma das dificuldades mais visíveis e imediatas continua a ser o embate com o enorme influxo de refugiados e de imigrantes que atravessa a Europa e que deverá crescer neste ano. As eleições na Espanha e em Portugal no final de 2015 tiveram resultados fragmentados, em parte devido ao sentimento de antiausteridade que varre o sul da Europa.

No Reino Unido, há preparativos em andamento para um referendo em 2017 que determinará sua permanência, ou não, na União Europeia, o que poderia criar uma fragmentação em escala ainda maior. Outros países, como a França, estão se preparando para a eleição presidencial de 2017, da qual deverá participar um candidato de extrema direita. A Hungria e a Polônia votaram no ano passado em líderes que veem com ceticismo a União Europeia. Feitas as contas, “há mais incertezas políticas em 2016 do que em 2015”, o que gera incertezas econômicas, observa Mauro Guillén, professor de administração da Wharton. “O máximo que podemos fazer é esperar que 2016 não seja pior do que 2015.”

Uma nova urgência
A crise dos refugiados colocou a Europa sob o foco das atenções por razões econômicas e políticas. Em 2016, a Comissão Europeia espera que 1,5 milhão de imigrantes parta em direção à Europa, mais do que o número de migrantes do ano passado, estimado em 1 milhão. A questão das fronteiras se tornou um assunto extremamente delicado. A Grécia, sem dinheiro em caixa, tem sido o ponto de entrada para um grande número de refugiados que fogem da violência no Oriente Médio e na África. Refugiados e imigrantes que se dirigem para a Alemanha, Suécia e Reino Unido, nações que têm programas de acolhimento, são obrigados a atravessar países como a Hungria, muito pouco hospitaleiros.

De acordo com Guillén, a crise dos refugiados está introduzindo outro elemento de tensão. Ele explica que os países estão divididos por causa disso, o que deixa visíveis inúmeras diferenças entre eles. É o que pensa também Olivier Chatain, professor de política estratégica e de negócios do Instituto Mack de Gestão de Inovação da Wharton. “A crise política é alimentada pela crise econômica ainda não resolvida. E o resultado é isso que se vê. Esse é um dos fatores principais em apoio às ideias daqueles que querem fechar as fronteiras e estão poucos dispostos a partilhar e proporcionar serviços sociais para os imigrantes com os quais não desejam colaborar”, acrescentou.

Consequentemente, há quem exija a retomada do controle da fronteira entre as nações europeias, embora a UE se orgulhe de sua política de abertura formulada pelo Tratado Schengen. Guillén acrescenta que o livre fluxo de pessoas foi suspenso em vários países, o que sabota a ideia de uma integração europeia com livre circulação de pessoas. Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, disse ao Parlamento Europeu: “Temos de salvaguardar o espírito por trás de Schengen […] Não haverá moeda única sem Schengen. O tratado é um dos pilares da construção da Europa.” Portanto, uma Europa sem fronteiras é algo que está associado à sustentabilidade do euro usado por 19 países e suscita a questão da existência, tal como hoje se vê, da UE no futuro.

Uma das preocupações com a crise dos refugiados é seu impacto econômico. Franklin Allen, professor de finanças da Wharton e diretor executivo do Centro Brevan Howard no Imperial College de Londres, explica que para um país como a Alemanha, a admissão de refugiados terá um custo inicial, mas num contexto mais amplo, esse custo não será muito alto. A Comissão Europeia declarou em sua previsão econômica de outono que os aumentos no gasto público para gerenciamento do grande influxo de indivíduos em busca de asilo estimularia a economia europeia, resultando até mesmo em um ganho líquido de 0,25% até 2017. Os refugiados representam uma solução econômica para os países que passam pelo envelhecimento de sua população e sofrem com a escassez de mão de obra, como a Alemanha.

Questões deflacionárias
O temor da deflação e da estagnação não desapareceram na Europa. No ano passado, a inflação se tornou negativa com a queda dos preços do petróleo e das commodities e com o fortalecimento do euro, barateando as importações. Em 2015, a inflação anual foi, em média, de 0,1% na zona do euro e deverá aumentar para 1% em 2016, de acordo com o FMI. Contudo, a inflação tem estado abaixo de 1% nos últimos dois anos. Allen prevê que a preocupação com a deflação será mais ou menos a mesma em 2016. O número vai variar um pouco, mas não será muito diferente em 2016, aposta.

Um dos objetivos do programa de quantitative easing [recompra de títulos do Tesouro pelo governo para injetar liquidez na economia] é fazer com que a inflação volte para menos de 2%, que é a meta do Banco Central Europeu (BCE). Em dezembro, Mário Draghi, presidente do BCE, anunciou que o programa de compra de ativos não mudaria, ao mesmo tempo que as taxas de depósito seriam cortadas para – 0,3% nas reservas dos bancos da zona do euro para incentivá-los a conceder mais empréstimos. O BCE continuará a comprar US$ 6,3 bilhões em títulos do governo e outros ativos todos os meses para continuar a abastecer de dinheiro a economia até março de 2017.

Alguns especialistas esperavam uma expansão na injeção de liquidez, uma vez que a economia europeia continua morna. Draghi declarou que a alta foi a menor em mais de 25 anos, de acordo com o Financial Times. Como as empresas estão evitando investir, Peter Praet, economista-chefe do BCE, se referiu ao humor predominante como “pessimismo transbordante”. No ano passado, o desemprego na zona do euro era de 11%, mais do que o dobro da taxa de desempregados dos Estados Unidos. Guillén ressalta que a injeção de liquidez deveria ter começado há muito tempo, quando os Estados Unidos começaram a usar esse instrumento, em vez de esperar sete anos de recessão na Europa. Contudo, ele acrescenta que o BCE enfrenta um dilema muito sério, uma vez que alguns países em melhor situação financeira, como a Holanda, Alemanha e Áustria, não querem se aventurar muito seriamente no programa de injeção de liquidez.

“O quantitative easing (QE) [ou injeção de liquidez na economia] não teve efeito significativo sobre a economia. A ideia de que o QE ajuda no crescimento é simplista. Em alguns lugares, ele distorce os preços dos ativos, o que é um problema. Simplesmente não se sabe qual o verdadeiro preço dos ativos”, acrescenta Allen. Muitos especialistas acreditam que o crescimento econômico deva ser impulsionado pelos governos. Todavia, os legisladores de vários países têm de lidar com situações políticas instáveis.

Campanha de incentivo ao voto
Na Europa, vários países tiveram eleições com resultados que refletem o sentimento das pessoas profundamente afetadas pela crise econômica. As campanhas contrárias à austeridade dominaram as eleições na Grécia, Espanha e Portugal no ano passado. Enquanto os gregos votaram novamente no seu primeiro-ministro, a Espanha não teve um vencedor claro para 2016. Portugal está sob a liderança de uma coalizão frágil.

O atual titular do governo espanhol, o primeiro-ministro Mariano Rajoy, amealhou a maioria dos votos, mas não conseguiu maioria no parlamento nas eleições realizadas no final de 2015. Pela primeira vez, havia quatro partidos nacionais depois de 25 anos de bipartidarismo. Um dos novatos é o esquerdista Podemos, que fez campanha com base em uma plataforma contrária à austeridade. “Não houve nenhuma coalizão […] o que introduz um elemento de incerteza. Em um país que está tentando atrair capital externo, esse é um complicador. A incerteza política repercute na incerteza econômica”, acredita Guillén. Embora a Espanha esteja crescendo economicamente, isso não basta para reduzir significativamente o desemprego, acrescentou. O desemprego, segundo as previsões, deverá ser de 19,9% em 2016, ante 21,8% em 2015, de acordo com o FMI. O crescimento foi de 3,1% em 2015, mas deverá cair para 2,7% em 2016.

O tumulto eleitoral na Espanha produziu confusão similar em Portugal durante as eleições de outubro. Pedro Passos Coelho, ex-primeiro-ministro de centro-direita , a quem se atribui a retomada de medidas austeras no país, conquistou a maioria dos votos, mas perdeu cadeiras no Parlamento. Os partidos minoritários formaram uma coalizão para liderar o governo e o líder socialista Antonio Costa assumiu como primeiro-ministro. Contudo, seus aliados concordaram em apoiá-lo se ele reverter as medidas de austeridade, como o congelamento das aposentadorias e o aumento de impostos. “O governo português é frágil e instável, porém suas políticas serão seguramente favoráveis ao euro […] O governo tentará, é claro, moderar as medidas de austeridade, contudo, no fim das contas, para resumir, o ministro das Finanças fará tudo o que Bruxelas mandá-lo fazer”, antevê João Gomes, professor de finanças da Wharton. Contudo, acrescentou, “a Espanha é muito mais importante do que Portugal. Muita coisa do que acontecerá na zona do euro em 2016 depende da solução da crise política espanhola”.

Na França foram realizadas eleições regionais cujo resultado mostrou forte apoio à líder do partido Frente Nacional, de extrema direita, Marine Le Pen. A Frente Nacional não conquistou uma cadeira, em parte porque o Partido Socialista, de esquerda, à frente do governo, retirou, parcialmente, dois de seus candidatos das eleições. Eles incentivaram seus eleitores a eleger seu principal rival, os candidatos de centro-direita, e com isso a Frente Nacional perdeu em todas as 13 regiões francesas. Contudo, Le Pen ganhou muitos pontos, diz Guillén. As eleições francesas ocorreram pouco depois dos ataques terroristas em Paris e para muita gente a popularidade da Frente Nacional aumentou depois dos atentados. Chatain aponta que esse é um pressuposto enganador. “Os resultados das eleições não teriam sido muito diferentes […] O clima aqui ainda é de muito descontentamento com a ausência de crescimento e com o nível de desemprego. As pessoas têm problemas com a identidade e com a imigração, com ou sem ataques terroristas”, completa.

Em novembro, a França realizará primárias que apontarão quem disputará a presidência com Le Pen. “A eleição presidencial de 2017 será bastante complicada. Le Pen muito provavelmente passará ao segundo turno do pleito. Resta saber quem mais estará na disputa”, observa Chatain. Ele acrescenta que 2016 será “um ano de eleições. O governo criará empregos aqui e ali para ganhar votos […] A França deflagrará um fluxo contínuo de reformas em pequena escala bem direcionadas de modo geral. No entanto, se o crescimento for de 1% ou de 1,5%, isso não bastará para reduzir o desemprego.” De acordo com o FMI, o desemprego na França foi de 10,2% em 2015 e deverá cair para 9,9% este ano. O crescimento foi de 1,2% em 2015 e deverá chegar a 1,5% em 2016.

Outra votação importante será o referendo no Reino Unido em 2017 para decidir se o país permanecerá na União Europeia. Enquanto o primeiro-ministro David Cameron negocia intensamente com Bruxelas por melhores condições para o Reino Unido, o “Brexit” [de British exit, saída britânica da UE] é perfeitamente possível. “Creio que, a longo prazo, o Reino Unido se dará bem fora da UE. A curto prazo, talvez tenha de percorrer um caminho acidentado. Veremos de que modo Cameron e o ministro das Finanças, George Osborne, progredirão com seu plano este ano. Acho que o resultado do referendo dependerá, em certa medida, da crise dos refugiados, e isso é uma coisa difícil de prever”, acredita Allen.

Além da instabilidade política com consequências para a economia, há forças externas em ação. A desaceleração nos mercados emergentes, como é o caso do mercado chinês, atrapalha as exportações de países como a Alemanha, que continua a ser a potência econômica da zona do euro. “Um dado positivo é a elevação das taxas de juros do Fed, que deixará o euro mais frágil, de modo que as empresas europeias poderão exportar para os Estados Unidos”, recorda Guillén. “A perspectiva econômica futura da Europa é de uma catástrofe em câmera lenta. As políticas fiscais continuam contraídas. Pode-se fazer todas as reformas microeconômicas corretas, mas isso não basta para que haja resultados mínimos a curto prazo. Não dá para fugir disso. Aumenta-se o potencial a longo prazo, mas tal estratégia não está ajudando os países a recuperar mais rapidamente o terreno perdido”, acrescenta Chatain.

*Serviço gratuito disponibilizado pela Wharton, Escola de Administração da Universidade da Pensilvânia, e Universia, rede de universidades que conta com o apoio do Banco Santander.


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