Medidas de estímulo ao crédito são vistas como ineficientes

Para economistas, pacote que procura impulsionar a produção e recuperar o crescimento não terá eficácia

Da Redação, com Agência Brasil*

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Medidas de estímulo ao crédito são vistas como ineficientes

Na quinta-feira (28), o governo anunciou medidas de estímulo ao crédito que injetarão R$ 83 bilhões na economia de modo a impulsionar a produção e recuperar o crescimento (leia mais detalhes aqui). O Palácio do Planalto buscou gerar ânimo com o pacote, com os líderes governistas avaliando as medidas como um começo, pois sinalizam positivamente para os investidores. No entanto, não foi desse modo que o anúncio foi recebido por economistas.

As medidas foram vistas “como prova de uma estratégia de política econômica cada vez mais errática e até mesmo incoerente” pela consultoria de risco político Eurasia. Para os analistas que assinam o relatório, as medidas representam uma grande mudança, pois até este ano a política econômica vinha sendo em grande parte coerente, mesmo que sujeita a oscilações importantes.  A Eurasia aponta que tanto Dilma Rousseff quanto Nelson Barbosa estão cientes de que abordar os desequilíbrios fiscais continua sendo essencial para conter a atual crise de confiança e é fundamental para acabar com a recessão. Porém, o que "parece agora é a indicação de que a política econômica sob o comando de Barbosa será cada vez mais errática e um tanto incoerente”. 

“O pacote de estímulos é grande e de amplo alcance, mas há forças poderosas que irão limitar a sua eficácia em termos de estimular a atividade econômica”, alerta Neil Shearing, economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics. Assim, destaca ele, é questionável esperar destas medidas uma reviravolta no nível de atividade econômica, como acredita o governo. "A maioria dos anúncios são destinados a aliviar a pressão sobre os devedores existentes – em outras palavras, eles são projetados para evitar que as coisas piorem em vez de realmente estimular a atividade”, justifica Shearing. “Na verdade, é discutível se um programa de flexibilização de crédito poderia fazer muito para revigorar o crescimento, de qualquer modo, dada a enorme quantidade de desalavancagem necessária tanto nas famílias quanto no setor corporativo após uma década de explosão do crédito”, completa.  No entanto, a consultoria entende que as medidas podem ajudar a aliviar a pressão sobre algumas áreas da economia que estão mais endividadas e que têm sido pouco mais afetadas pelo aprofundamento da recessão. "Mas somos céticos quanto a saber se elas vão fazer muito para reverter a queda da economia”, reforça Shearing.

A LCA Consultores aponta que os efeitos na economia das medidas fiscais serão reduzidos, pois a demanda por crédito tanto das famílias, como das empresas está retraída. Entretanto, a disponibilidade de crédito poderá ajudar na rolagem dos compromissos das empresas. "Fica a dúvida quanto à viabilidade do anúncio tendo em vista a atual fragilidade política", afirmam os consultores.

Repercussão 
Embora com ressalvas, o pacote foi bem recebido pela Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs). “Todo e qualquer incentivo que ajude a reativar a economia é bem-vindo. O governo não tem mais recursos para oferecer, pois tem de fazer o ajuste fiscal. No entanto, já é um bom começo, ainda não o suficiente para festejar”, avalia Heitor Müller, presidente da entidade.  Ainda que pesquisas feitas com empresários indiquem que a indústria gaúcha investirá menos em 2016, Müller está confiante que alguns setores da economia busquem o crédito oferecido pelo governo. “Segmentos fortes no Sul como o agroindustrial e a cadeia de alimentos, por exemplo, seguirão investindo. Sempre vai ter alguém que poderá tomar empréstimo. Acredito que os produtores rurais farão isso, assim como a construção civil e, também, a indústria”, prevê Müller. 

Müller, que atua no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), avaliou como positivo o primeiro encontro do grupo. "Foi uma reunião produtiva. Portanto, não foi só escutar o governo. Logicamente, o desafio será a efetividade do Conselho, que não se dá nas plenárias, mas especialmente através dos grupos de trabalho que serão formados. A meu ver, a participação no Conselhão faz parte do esforço do empresariado de se fazer ouvir, para criticar e propor mudanças de rumo que encaminhem o desenvolvimento brasileiro e que encurtem ao máximo a atual crise”, afirma. 

No encontro, a presidente Dilma Rousseff apelou para a volta da CPMF. Segundo o industrial, a medida dificultará ainda mais a competitividade e a participação no mercado internacional. “Qualquer alta de tributos vai gerar aumento no nosso custo que já é alto até para concorrer no mercado interno. O aumento do câmbio favorece as exportações, mas encarece as importações. O que precisamos é exportar para mantermos as nossas empresas”, justifica. 


*Com Bloomberg.


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