Somos todos proletários

Concentração de profissionais + baixo crescimento econômico = remunerações modestas para os diplomados

Por André D´Angelo

Concentração de profissionais gera remunerações modestas para os diplomados

Há pouco mais de um ano, meu médico de confiança parou de atender pelo plano de saúde do qual sou beneficiário. Ganhava, segundo ele, 50 reais líquidos por consulta, o que o obrigava a complementar a renda obtida no consultório com atendimentos em hospitais e casas de saúde. Mesmo atendendo a um volume elevado de pacientes no consultório, quase no limite do permitido pelo plano, o custo-benefício de fazer parte da rede conveniada deixou de compensar. Hoje, ele atende apenas particulares.

Ele e 25% de todos os médicos brasileiros que atendem em consultório, segundo pesquisa recém divulgada pela USP (resumo aqui). Aqueles que permanecem em planos de saúde têm oferecido disponibilidade de horários reduzida para os beneficiários, priorizando os pacientes privados.

Surpreendente? Nem um pouco. Em praticamente todas as profissões de nível superior no Brasil ocorre uma combinação perversa de excesso de profissionais formados, superconcentração nas áreas urbanas e mais ricas do país e, claro, baixo crescimento econômico. O resultado é muita gente disputando um mercado que não cresce a contento para atender a todos. 

Em parte, esse fenômeno é fruto das peculiaridades brasileiras citadas acima. Não havendo incentivos para ocupar regiões mais distantes dos grandes centros, é natural que os profissionais se concentrem onde a demanda é maior, ainda que disputada a tapa com inúmeros concorrentes. O crescimento econômico pífio completa o problema, pois não faz com que o bolo da renda, mesmo nas localidades mais ricas, cresça a ponto de satisfazer a todos os comensais. 

Este até poderia ser visto como um fenômeno típico de uma sociedade que atinge um patamar elevado de desenvolvimento. À medida que se avança econômica e socialmente, a inclusão de uma maior parcela da população em serviços essenciais, como medicina e educação, só ocorre com um achatamento das remunerações desses profissionais. No entanto, serviços públicos de qualidade e bens de consumo baratos permitem que esses diplomados vivam com dignidade e algum conforto, mesmo que distantes de qualquer chance de riqueza.

Por aqui, não. Profissionais com curso superior, de diversas áreas, acumulam múltiplos empregos para conseguir arcar com serviços essenciais privados (medicina, inclusive) e contam com acesso mais restrito a bens de consumo, especialmente duráveis (caros em função da baixa produtividade e da carga tributária). 

Para médicos e tantos outros profissionais, como arquitetos, jornalistas, advogados etc., entrar na faculdade nem sempre é o desafio mais difícil, por mais concorrida que seja a disputa em algumas universidades. O realmente complicado vem depois. É escapar da proletarização. 



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