O mito do caos eficiente anda fazendo escola por aí

Para José Martins, há muita distorção no significado dessa filosofia

Por José Martins*

Sede do Facebook

O mundo corporativo adora modismos. Sabedores da ânsia por ideias novas, os gurus de administração esmeram-se em apresentar soluções exóticas para a gestão de empresas. Muitas são interessantes e inovadoras; outras se revelam uma bobagem passageira. Atualmente, viceja por aí a ideia do “caos eficiente”. Explico. Há uma legião de executivos e palestrantes que elegeram a Apple, o Facebook (foto) e o Google como deuses, verdadeiros ídolos do olimpo empresarial. É compreensível. Afinal, trata-se de três companhias fantásticas, inovadoras e bem-sucedidas. Muito se pode aprender com elas, sem dúvida. O equívoco está em atribuir a essas corporações o que elas não fazem e sair imitando o que elas não são.

Circula a crença de que essas empresas funcionam com alguma dose de caos e, portanto, o caos é eficiente. Entenda-se por caos a ausência de hierarquia, a liberdade no trabalho, a não cobrança de horário, o direito de experimentar as ideias mais malucas e a inexistência de processos rígidos. Em determinadas circunstâncias, o caos pode ser eficiente. Mas há muita distorção na interpretação do que isso significa. Ao ver aqueles tipos que se vestem e se comportam de forma esquisita, alheios a qualquer regra e sem hierarquia, muitos concluem que tais empresas são assim em seu todo. Isso é falso. Há, sim, algum caos nos chamados “departamentos de criação e inovação”, que funcionam sem regras e com liberdade de experimentar as ideias mais estranhas. Mas aquelas empresas não adotam o caos e a falta de regras nas atividades de produção, vendas, finanças, contabilidade, logística e atendimento ao cliente.

No fluxo produtivo, comercial e financeiro, as corporações de sucesso são bem organizadas, com regras e processos rigorosos. Às vezes, vigora o caos – mas apenas nas áreas onde ele é útil. Fora disso, não. A ideia do caos eficiente em sentido geral é um mito falso. Essa onda foi estimulada pelo sucesso do livro “O Ócio Criativo”, de Domenico di Masi, coisa à qual Einstein já havia se referido quando disse: “Penso 99 vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio, e eis que a verdade se revela”. Einstein se referia à criação intelectual, não ao processo produtivo industrial. 

Um provérbio chinês diz que “pode-se fazer tudo com uma espada, menos sentar em cima dela”. O mesmo acontece com a ideia de “algum caos”. No lugar certo pode ser útil. No lugar errado pode significar a falência. Quem observar uma fábrica, um restaurante, um hospital ou uma companhia aérea perceberá que no processo operacional dessas empresas imperam regras, ordem, rotinas e fluxos bem definidos. Sem isso, elas fracassariam. Nas artes, nas atividades de criação e inovação, a ausência de regras e de rotinas faz sentido em razão da essência dessas atividades. Mas pensemos em uma empresa como o Banco do Brasil. Com suas mais de 5 mil agências, o banco até pode (e deve) ter canais para a administração participativa, meios para o livre fluxo de ideias de seus funcionários e departamentos sem regras e com algum caos. Mas é óbvio que o funcionamento de cada agência e cada serviço do banco depende de normas rígidas, procedimentos rigorosos e rotinas quase militares. Pegar uma ideia que funciona em dada circunstância e transpô-la para outra circunstância completamente diferente é, claro, um equívoco. Ainda assim, o mito do caos eficiente anda fazendo escola por aí.

*Economista e reitor da Universidade Positivo.


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