Carma e destino do Sudeste Asiático

Bangkok me confirma que, mazelas à parte, o século 21 é, decididamente, asiático

Por Fernando Dourado Filho, de Bangkok, Tailândia

Bangkok, na Tailândia

Paul e Pauline formam um casal de chineses de Cingapura. Com dois filhos já grandes – tanto quanto essa geração se permite crescer emocionalmente –, ele é diretor de TI de um importante órgão público e ela trabalha no porto. Segundo ela, são 100 mil containers movimentados por dia, só perdendo em volume para Xangai. Orgulhosos do legado da cidade-estado da ponta da península malaia, eles tiram não mais que duas semanas de férias por ano, mas o fazem com estilo. País detentor de renda média suíça , inusitado número de milionários e uma infraestrutura que faz jus à localização privilegiada, eis que o casal se abre cada dia mais para o mundo. 

No agradável restaurante onde nos levaram para jantar, à beira do mar, na cabeceira de uma das pistas do aeroporto de Changi, encaram o futuro com muito entusiasmo e têm certeza de que os anos que estão por vir serão os melhores de suas vidas. Emblemas dessa Cingapura que ajudaram a construir – um país onde ministros são os mais bem pagos do mundo, mas que não podem incorrer em deslizes ou facilitações – se dizem felizes. Eis , portanto, um lugar de carma positivo e para onde o capital flui sem olhar para os lados. De arquitetura portentosa, Cingapura se volta agora para as artes e o "soft power", pois o que é o dinheiro sem o bom gosto?    

Para quem estiver por lá um dia, recomendo que vá até o Harbour Front e viaje de ônibus até a capital da Malásia, Kuala Lumpur. O ponto de passagem de fronteira, logo depois da imensa ponte sobre o manguezal, pode parecer tedioso, mas vale a pena adentrar o país pela autoestrada principal e admirar as infinitas plantações de palmeiras que juncam as laterais da pista. No centro, magnólias e orquídeas tornam o trajeto menos penoso, quase agradável. Um ponto assolará o viajante mais sensível. Como é que esse país muçulmano, de gente amável e hospitaleira, processou os duros golpes sofridos na aviação comercial que lhe contaminaram a boa aura? 

Afinal, quem não se lembra do voo MH 370? Pois bem, ele decolou do colossal aeroporto da capital, vizinho ao autódromo de Sepang, com 239 pessoas a bordo a caminho de Pequim. Depois de um último contato na altura de Malaca, exatamente sobre o famoso estreito, o avião sumiu dos radares e parece ter voado em direção ao sul do Índico. Na livraria das imensas Torres Petronas, há quem me garanta que o Airbus foi sequestrado e que os passageiros estão vivos. Ora, cada um vive a dor como pode. Semanas mais tarde, o MH 17, um boeing 777 com 298 pessoas, foi abatido nos céus da Ucrânia em altitude de cruzeiro. Eis do que macular o carma de país que vinha bem.

Falemos, por fim, da Tailândia. No trem entre Chiang Mai e Bangkok – são 12 horas e 20 escalas para vencer 750 quilômetros –, converso com duas belgas que pretendem publicar um livro sobre culinária tailandesa. Chegando à capital, vão fazer um programa de treinamento nos fogões da aclamada escola gastronômica "The Blue Elephant". Sabine e Dominique são apenas duas dos 27 milhões de turistas que visitam o país de quase 70 milhões de habitantes. Apesar de um atentado isolado ano passado, decorrente de uma extradição de muçulmanos beligerantes à China, eis uma nação que consagra os bons modos, a candura, o budismo e, bem entendido, seu monarca de 88 anos – uma unanimidade no antigo Sião.

Potência automobilística mundial, forte em borracha, arroz e frango – a principal proteína animal –, a Tailândia tem um carma dourado. Como dourados são seus templos, “watts”, pagodes e Budas. Ponto de atração de mão de obra do Cambodja, Laos e Vietnã, a Tailândia trava uma guerra sem quartel contra a corrupção. Se jamais atingirá o padrão de uma sociedade eclética como Cingapura, seu bom carma continuará a atrair oportunidades em escala crescente. Que o diga o setor de frango brasileiro, o mais novo investidor no país.    

O que me parece inquestionável, contudo, é que a geografia ainda dará muitas alegrias a essa parte do mundo. Pois se a ela somarmos o gigantismo populacional da Indonésia, fato é que Cingapura, Malásia, Tailândia, Vietnã, Laos, Brunei, Butão, Myanmar e Cambodja formam um bloco que, antes de mais nada, se destaca pela equidistância da China e da índia, ou seja, de populações que, se somadas, perfazem quase 40% dos seres humanos do planeta. Assim sendo, apesar de problemas que possam afligir esporadicamente um ou outro deles – semana passada mesmo houve um atentado mortal no centro de Jakarta –, o certo é que a mola propulsora da cultura chinesa funciona como fator de fomento econômico e empreendedorismo.

É claro que a China também tem seus percalços. Nesses dias, registrou o menor índice de desenvolvimento dos últimos 25 anos e assistiu não sem desconforto à eleição presidencial de Taiwan, cujo desfecho evidenciou uma incontida aspiração à manutenção da independência. No momento em que me despeço mais uma vez dessa parte do mundo, depois de 32 anos de visitas regulares às principais cidades, testemunho com saudades os tempos em que se questionavam os Tigres Asiáticos e seu futuro. Pois bem, isso é página virada. Bangkok me confirma que, mazelas à parte, o século 21 é, decididamente, asiático.      


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