Afrísio Vieira Lima

Se é verdade que um homem só morre quando deixamos de falar dele, é lícito vaticinar que Afrísio vai varar o século

Por Fernando Dourado Filho , de Cingapura

Afrísio Vieira Lima falece aos 86 anos

Uma cena comum aos olhos de quem viaja pela Ásia é admirar a figura dos grandes patriarcas de origem chinesa que presidem mesas imensas onde três ou quatro gerações de parentes comem e conversam com galhardia. Caudatárias da melhor tradição confuciana, essas famílias têm para com eles uma relação que vai muito além do respeito. Isso porque cada gesto de filhos e netos reflete, no mínimo, imensa gratidão pelo líder iluminado e experiente. Assim será enquanto eles viverem e, mesmo depois de mortos, serão objeto de um elaborado culto de louvor aos antepassados. 

Foi vendo uma cena dessa natureza, mais precisamente por ocasião de um casamento no hotel Goodwood Park, de Cingapura, que me ocorreu pensar no velho Afrísio Vieira Lima. Sem vê-lo há quase dois anos, comentei com Lavínia que não recebera notícias de Geddel no fim do ano. Impunha-se, portanto, saber das novidades mesmo porque a preocupação com os pais é um estado de alma permanente em todos aqueles que, como nós, já passamos há muito dos 50 e ainda temos a ventura de tê-los vivos. Sim, escreveria para meu amigo.

Nem bem se passou um dia dessa lembrança para que me chegasse a notícia do falecimento de Dr.Afrísio nessa noite de segunda-feira (11), horário do sudeste asiático. Se imensa é minha desolação por não poder estar com D. Marluce e com o próprio Geddel nessa hora, me compraz pensar que ele viveu 86 anos e, até bem pouco tempo, continuava a destilar a mesma verve de quando o conheci – lá se vão 35. Deputado Federal, presidente da Comissão de Constituição e Justiça, eis um homem que vivia apaixonadamente para o trabalho, a família e os correligionários.         

Nesse contexto, muito teria a falar sobre ele, mas o momento pede recolhimento. Espero, outrossim, que tenhamos muitos anos pela frente para poder desfiar o rosário de histórias que, sem bravatas, denotavam altivez. Sem afetação, louvavam a inteligência. Sem perder a autoridade, desciam até nós na conversa franca, sem barreiras e igualitária. No mais das vezes, no quadro luminoso da cidade de Salvador nos anos 1980 e 1990. Se não estive à altura de lhe seguir alguns conselhos, rimos bastante da crônica de vida que eu lhe narrava. Aos olhos dele, eu era um "porreta".

Dr. Afrísio foi advogado e contava de seus primórdios com Mamede Paes Mendonça, homem que admirou. Aliado de Antonio Carlos Magalhães, um dia virou desafeto e o Palácio de Ondina ferveu. Sempre respaldado pela figura mítica de D. Marluce e pelo engajamento abrasivo de Geddel – por quem seus olhos brilhavam –, gostava de receber os irmãos e sobrinhos para animadas conversas. O destino de cada um deles se lhe afigurava como ponto relevante de agenda. Para si, pedia pouco: paz na família, aplicação no dever e, para quem tivesse em estoque, audácia. 

Se é verdade que um homem só morre quando deixamos de falar dele, é lícito vaticinar que Dr. Afrísio vai varar o século com tranquilidade pois são muitas as pessoas que lhe são devotadas. Do núcleo irradiador da casa animada e buliçosa, unida e irreverente – muitas vezes mais parecia que D. Marluce tinha quatro filhos –, aprendi muito. E, com os olhos marejados, parece que o estou vendo me dizer com ares de quem já vira muitos filmes: "Meu filho, ouça um homem apanhado". Generoso e cúmplice, era seu mote para nos ensinar como rever valores e viver melhor. 

Vá em paz, amigo. As sementes bem plantadas ainda têm muito por germinar. Infinitas serão, contudo, as saudades que deixará no coração de todos. Sem quaisquer hierarquizações de sentimentos, ouso contudo dizer que Geddel acusará essa mutilação talvez para sempre. Mas será dele também que virá a força e a liderança para que a mesa volte a gargalhar e todos possam lhe evocar a memória saudosa; o espírito atilado de um patriarca singular porque bom de coração; caloroso no trato e, sobretudo, clarividente quanto aos becos e avenidas da condição humana. 


leia também

Crise de Geddel faz bolsa cair e dólar subir - Mercado começa a precificar aumento de instabilidade política

Tempos difíceis exigem reações firmes e tempestivas - Opinião é de Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos

comentarios




Luiz Eduardo Viana Coelho

Afrisio era um apaixonado pelo que fazia. Gostava de conversar. Ouvia atentamente e falava com sinceridade... Era um entusiasta da juventude. Lembro com carinho das conversas francas sobre política e o sonho de uma Bahia mais justa. Deixa saudades e muitos amigos.

Comentar

Adicione um comentário: