Ano Novo num 777 atolado na neve

Quando juntamos distância de poder e tendência a lavar as mãos diante de fatos maiores, o resultado é o caos anunciado

Por Fernando Dourado Filho, de Istambul, Turquia

Kobe Bryant e Messi, garotos-propaganda da Turkish Airlines

É bem sabido que a Turquia é um país de grande singularidade geopolítica. Líder natural na diversa região do Cáucaso, Ankara também se presta a ser um ponto avançado sobre o teatro dos Bálcãs e do Oriente Médio. Parceiro insubstituível da OTAN, o grande país só se perde quando sucumbe ao temperamento de seus líderes que, não contentes com os caprichos da geografia, podem se lançar em aventuras evitáveis e que muito custam a seu povo. Como fato representativo recente, podemos destacar o abate de um caça russo – o que ensejou reação enfurecida de Putin e uma lista de retaliações que castigarão, entre outros setores, o do turismo – e o voluntarismo do presidente Erdogan em alçar voos incompatíveis com sua envergadura natural, como fez ao se lançar ao lado do Brasil, na mediação de um acordo nuclear entre o Irã e o Ocidente. 

Alguns desses dilemas são compreensíveis porque a localização privilegiada também impõe deveres pesados. Ponto de passagem obrigatório para as levas de refugiados sírios e sendo um país tido por filho bastardo de uma Europa que lhe teme a pujança e o DNA asiático, como evitar crises de temperamento ocasionais? Certo é, porém, que vez por outra eles lançam plataformas um tanto extravagantes. Isso fica patente quando alardeiam que a Turkish Airlines é a melhor companhia aérea da Europa – no bojo de uma campanha publicitária de anos que teve Messi e Kobe Bryant como garotos-propaganda. Diante do colosso das empresas do Golfo, convenhamos, era hora de fazer valer a localização estratégica para a criação de um mega "hub" aéreo no Bósforo. Ocorre que nem sempre a realização dos desejos é função da retórica. Que o digam os passageiros que pousaram no aeroporto Atatürk, na noite de 31 de dezembro de 2015, provenientes da América do Sul.

Depois de 90 minutos de sobrevoo sobre a cidade e silêncio absoluto da cabine de comando, o avião pousou numa pista juncada de neve alta de ambos os lados. O tráfego estava, portanto, bastante prejudicado e mais de 200 conexões foram inapelavelmente atrasadas ou canceladas. Mas é agora que vem o melhor. Apesar de nevascas frequentes – e essa já estava anunciada, como o estão todas em tempos recentes –, eles não tinham plano de contingência para o Ano Novo. Para agravar os fatos, tudo atribuíram ao mau tempo, apontando para o céu. Como se não fosse dever deles se preparar para fazer face ao que querem pintar como mera fatalidade. Assim, dezenas de guichês estavam vazios; o saguão central era uma Babel de línguas, xingamentos e discórdia. Na impossibilidade emocional de dizer não, as atendentes repetiam chavões e davam informações irresponsáveis sobre partidas iminentes que não aconteciam. É claro que não faltavam passageiros que atribuíam a tática a uma fórmula manjada para não pagar hotel para os viajantes desesperados. 

Embora cenas similares de insatisfação e improviso sejam perfeitamente plausíveis em Toronto, Boston, Chicago e tantos outros aeroporto do norte, a forma de lidar com o imponderável dos grandes centros acima difere bastante da natureza levantina ao reagir ao que lhes parece uma fatalidade. Não saberia dizer se um desgoverno similar não ocorreria nas praças aludidas, isso se a data fosse igualmente marcante como é o Ano Novo. Mas o certo é que haveria mais transparência ao lidar com os fatos visto que na América do Norte prevalece uma noção mais igualitarista de trato entre as pessoas. Ora, quando juntamos distância de poder e uma certa tendência a lavar as mãos diante de fatos maiores, o resultado é o caos anunciado. Nada que o sol de 2016 não tenha diluído, mas nada que faça milhares de passageiros descontentes dizer que a empresa não esteva à altura da propaganda alardeada. Hora de repensar. 


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