A era dos carros sem “charme”

Será esta a característica dos veículos elétricos e dos autodirigidos?

Por André D´Angelo

Modelo da Tesla Motors

Na minha segunda coluna da edição impressa de AMANHÃ, republicada como post semanas atrás, comentei sobre o fim da era do automóvel (leia aqui). Os carros parecem estorvos para boa parte dos jovens do primeiro mundo, enquanto o compartilhamento e a valorização dos transportes coletivos ou não poluentes, como as bicicletas, está tornando a posse de um veículo individual um símbolo de desperdício e egoísmo, ao menos no primeiro mundo.

Pois bem. Ian Bogost, um articulista dos EUA, avança nessa ideia e propõe que, após décadas de forte simbolismo do automóvel para os norte-americanos, em que consumidores e veículos nutriam uma relação de identificação, os carros estão prestes a se tornar verdadeiras commodities. 

A razão? 

Primeiro, a ascensão da Tesla Motors (foto), montadora que lidera o desenvolvimento dos automóveis elétricos. A despeito do design futurista de seus modelos, da velocidade que podem atingir e do preço ainda elevado para os padrões americanos, faltaria ao Tesla o sex appeal típico de certas marcas esportivas, como Ferrari, Lamborghini e outras tantas. Os carros da Tesla são muito “certinhos”, “convencionais” – ou, para usar uma gíria recente dos brasileiros, “coxinhas”. A inexistência do motor a combustão, que empresta uma aura de potência e virilidade aos veículos, tende a fazer com que  os americanos percam “a conexão emocional com os automóveis”, afirma o autor.

O segundo motivo adviria da quantidade de tecnologia disponível nos veículos do futuro, especialmente dos carros autônomos. Segundo Bogost, o envolvimento dos motoristas será com os aplicativos existentes nos automóveis, tal como com tablets e smartphones hoje. A “libido” dos proprietários será direcionadas aos softwares, e não ao “hardware”, que é o automóvel em si. “A tecnologia não é apenas uma ferramenta”, diz ele, mas “também um uniforme. Ela padroniza os corpos que a contêm, redirecionando” o olhar para algo externo. 

Será? Embora traga alguns insights interessantes, o autor não me convence. Numa sociedade de consumo, símbolos e significados podem ser atrelados a (quase) qualquer coisa. Se antes o que emprestava charme a um automóvel era a potência do motor, amanhã pode ser sua condição de não poluente; se era o design e o conforto, poderá ser a tecnologia. A magia do capitalismo consiste em não fazer mágica alguma, a não ser a de transformar nossa percepção. Ian Bogost esquece que o fascínio  e o encantamento não estão no produto, necessariamente, e sim na mente de quem o vê – na cabeça do consumidor, portanto. 

Mas tire suas próprias conclusões.  Clique aqui para acessar o texto completo, em inglês. 


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