O pai da médica e o subversivo

A medicina deveria ser a seara dos que sonham com os cheques polpudos?

Por Fernando Dourado Filho, de Recife

Estetoscópio, um do símbolos da  medicina

Dias atrás, às vésperas do Natal feio e nublado do litoral nordestino, encontrei no calçadão da praia um velho amigo de faculdade que me falou com entusiasmo do grande bem que lhe sucedera pouco antes do fim do ano: a filha caçula fora aprovada no vestibular de medicina de uma faculdade privada. Segundo ele, teria de suar a camisa ainda por alguns anos para pagar a salgada mensalidade, mas o faria com alegria. Mesmo porque sabia que se tratava de um investimento de retorno garantido. Afinal, os recém-formados na profissão estão ganhando não menos que R$ 20 mil ao mês – um dinheiro decente em qualquer lugar do mundo, e quase uma fortuna para os padrões magros de nossa região. O que podia eu fazer? Dar-lhe os parabéns e torcer para que aquela menininha supere os desvãos do carreirismo e da frivolidade. E que, efetivamente, se torne uma médica. E não uma aviadora de receita. No decurso da caminhada, contudo, não pude deixar de matutar sobre o caso. Isso porque me causa estranheza que um pai não veja o óbvio ululante: a opção pela medicina não deveria ser contemplada por juízos tão utilitários – apesar de o genitor ter nascido com um aplicativo de pay-back internalizado.  

Ora, meu caro colega e ilustre economista, será que a medicina deveria ser a seara dos que sonham com os cheques polpudos?  Longe de mim sugerir que ela tenha que ter um viés de sacerdócio. Seria castigar indevidamente um ofício onde o empenho é brutal e a formação dispendiosa. Mas me pergunto até agora: será que ele conhece a filha? Em que circunstâncias ele a viu demonstrar real empatia para com a dor humana e para com o sofrimento do corpo e da alma das pessoas? Em que medida aquela mocinha criada em redoma – que jamais pegou um transporte público e sequer fez um trabalho voluntário – arregaçará as mangas com desprendimento? E, ademais, terá empenho genuíno em mitigar o sofrimento do semelhante? É certo que posso perfeitamente estar avaliando a garota pelo que vejo serem os valores familiares: a superficialidade das vivências; a fixação que herdou pelas aparências e o quão impressionável ela é pela aura mítica da medicina e seus trajes brancos. Talvez por ter ele sofrido nas mãos de doutores de vários estados brasileiros, quando não de estrangeiros, para combater uma enfermidade que o acometeu no final dos anos 1950, ainda no berço – hoje praticamente erradicada.

Mas como sou um sujeito afortunado, quis o destino que mais tarde minha ansiedade fosse aplacada. E isso aconteceu quando ele me telefonou. Com o sotaque doce e arrastado dos nordestinos de boa cepa, me perguntou se não queria lhe fazer uma visita à sua casa. Poderíamos tomar um espumante ou mesmo um uísque. Isso porque tinha dito à filha que me encontrara na caminhada vespertina. Falando de minha vida de andanças pelo mundo, ela ficara interessada em conversar. Na varanda iluminada de luzinhas natalinas, veio meu presente. Isso porque ela me disse ter planos de viver alguns anos no coração da África. Para tanto, já começara a ler alguns dos autores consagrados que escreveram sobre o Continente. Com um sorriso cúmplice, foi bem sincera: "Pode ser até que meus pais achem extravagante. Mas eu queria viver no Congo, em Moçambique ou no Sudão do Sul."

O casal torceu o nariz e ele, piscando um olho, me fez um gesto que misturava algum orgulho com a esperança velada de que aquele afã passaria. E que ela poderia, afinal, viver a vida de uma médica de província. Logo o imaginei cotando uma máquina de exames, lhe contratando uma secretária e lhe dando um consultório como forma de mantê-la ao abrigo de aventuras. 

Saí de lá feliz e alforriado. Eis que a jovem Vitória – pequenina, franzina, mas de reluzente olhar – não parecia nada interessada em passar incólume pela história da ciência. Mesmo contrariando meu amigo, contei a história bonita do Dr. Albert Schweitzer, às voltas com a construção de um hospital na África sub-Saariana. E citei sua frase-símbolo: "Dar o bom exemplo não é a melhor forma de influenciar os outros. É a única."

Levando-me ao elevador, o amigo me deu um tapa carinhoso no ombro e se saiu com a máxima com que me brindava nos anos 1970, quando nos aproximamos: "Uma vez subversivo, sempre subversivo. Mas obrigado, de qualquer forma, por iluminar o caminho de minha pequena. Medicina nessa casa sempre foi um capítulo sério. Que prevaleça o sonho pois, do contrário, eu não estaria aqui."

Com um abraço forte, nos despedimos e desci de volta para o calçadão. Caminharia um pouco. No brilho da única estrela que vi no céu, pedi por Vitória e pelos tantos que abraçarão a profissão no próximo ano. Antes de tudo, ouçam seus pacientes. Pois dizia o médico alsaciano: "Quando o homem aprender a respeitar o menor ser da Criação, seja ele animal ou vegetal, ninguém precisará lhe ensinar a amar o semelhante.” 

Feliz 2016 para todos.              



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comentarios




Beto Cervieri

Boa tarde, Fernando Dourado Filho. Li sua coluna e também me identifiquei com o pai da menina que passou no vestibular. Pelo que entendi, o médico tem de ser humanitário. Não concordo, pois é uma profissão e, sendo um médico competente e bom naquilo que faz, trará resultados ótimos para seus pacientes. Se for humanitário, melhor ainda, mas não creio que seja um requisito.

Fernando Dourado Filho

Acho que você tem razão, Beto. Tenho que rever alguns conceitos. Feliz 2016. Abraço, Fernando

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