Yuan se torna moeda de reserva: o que isso significa para os mercados globais?

A decisão talvez gere um conflito geopolítico maior ao dar voz à China nas decisões monetárias internacionais

Por Wharton

FMI torna o yuan moeda de reserva

A decisão tomada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) no início deste mês de incluir o renminbi chinês, ou RMB, como moeda de reserva internacional a partir de outubro de 2016 deverá ter um impacto limitado sobre o mercado em um mundo dominado pelo dólar americano. A deliberação do FMI talvez gere um conflito geopolítico maior ao dar voz à China nas decisões monetárias internacionais. Isso capacita o país a criar um sistema de transferência de dinheiro que poderá competir com o sistema “Swift” amplamente utilizado, por exemplo. O fato também poderá limitar o uso do dólar no cumprimento de sanções políticas. A novidade deverá também incentivar a China a acelerar as reformas no setor financeiro, depreciando desse modo o RMB a níveis que talvez não deixem contentes os Estados Unidos. 

O FMI anunciou a nova metodologia depois da reunião anual da entidade em 30 de novembro em que foi revista a composição da cesta de moedas que compõem os “direitos especiais de saque”, ou SDRs, de acordo com a sigla em inglês. O Fundo faz a alocação de cotas para complementar as reservas dos países-membros. As outras moedas da cesta são o dólar americano, o euro, a libra esterlina e o yen japonês. Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, justificou a inclusão do RMB nesse clube de elite com o argumento de que a instituição reconhecia a integração da economia chinesa ao sistema financeiro global, bem como o progresso alcançado pelo país nos últimos anos com a reforma do seu sistema monetário e financeiro.

“De modo geral, a decisão do FMI parece ter caminhado na direção certa”, observa Marshall W. Meyer, professor emérito de administração da Wharton e especialista de longa data em China. “A expansão comercial da China depende da internacionalização do RMB”, arremata. “A decisão do FMI é bem-vinda, embora complique o problema imediato de gerir gradualmente, e não de forma precipitada, a depreciação do RMB, e assim dar sustentação à economia doméstica”, observa. 

“Com o RMB como reserva financeira, a China passará a fazer parte das discussões sobre a reforma monetária”, lembra Steve Hanke, professor de economia aplicada na Universidade Johns Hopkins, de Baltimore, e diretor adjunto do Instituto de Economia Aplicada, Saúde Global e de Estudo da Empresa Comercial da universidade. “Os chineses terão acesso a mais benefícios nos mercados internacionais. É desse modo que se veem prontos para desafiar o dólar americano”, argumenta Hanke que é também pesquisador sênior e diretor do Projeto Moedas Turbulentas [Troubled Currencies Project] do Instituto Cato de Washington.

“A inclusão do renminbi como moeda de reserva é, sem dúvida alguma, uma notícia positiva para a China, já que outros países poderão aceitar o RMB como divisa de troca no futuro”, comenta Minyuan Zhao, professora de administração da Wharton. Contudo, o impacto de mais longo prazo disso dependerá do modo como a China usará essa oportunidade. “Se será algo positivo ou negativo a longo prazo vai depender de como a China se comportará. Seria a oportunidade de dar transparência ao sistema financeiro e de reformá-lo, já que não se encontra em boa forma atualmente?”, questiona ela. Para Z. John Zhang, professor de marketing da Wharton e diretor do corpo docente da Penn Wharton China Center, o FMI e seus países-membros vêm sendo pressionados para incluir o renminbi em sua cesta de moedas. “Isso é algo que tinha de ser feito, uma vez que a China está determinada a amolecer toda resistência”, apregoa Zhang. “Os chineses devem ter dado algumas garantias de estabilidade da moeda a curto prazo. A grande dúvida é saber se o FMI não teria incluído uma moeda muito diferente das demais em conversibilidade, transparência e gestão – o que poderá, ou não, ter repercussões de longo prazo no sistema financeiro global. A resposta a essa pergunta fica por conta do palpite de cada um”, emenda Zhang. 

Impacto geopolítico
Hanke explica por que a inclusão do RMB como moeda de reserva é importante para o contexto geopolítico – e não para a forma como ela se relaciona com o mercado. “O dólar é rei. Ele domina o comércio, a precificação, o faturamento e todas as reservas em depósito nos bancos centrais. É sempre assim. Se voltarmos 2  mil anos no passado, veremos que sempre houve uma moeda dominante preferida pelos mercados”, conta Hanke. Ele recorda que a libra esterlina britânica dominava os mercados antes da Primeira Guerra Mundial. Depois, foi desbancada pelo dólar norte-americano. “Ter uma moeda dominante no mundo para a realização de transferências financeiras e para operações comerciais resulta em economias de escala e ajuda a diminuir os custos das transações”, argumenta. Hanke não espera que o RMB supere a divisa dos Estados Unidos no mercado financeiro internacional. Hoje, o dólar controla mais de 90% de todas as transações cambiais no mundo todo. “Para o mercado, o RMB não representa nenhum grande desafio. O teste de mercado a que foi submetida a moeda chinesa se revelou um grande fracasso. Ninguém demonstrou interesse em usá-la. A situação ainda é a mesma atualmente”, salienta. Contudo, na esfera geopolítica, “a história é outra”, de acordo com Hanke. “A China é um país grande e poderoso. Ela foi a principal responsável pelo incremento do crescimento mundial nos últimos 20 anos”, sublinha. 

Vários países no mundo todo têm um total de 80 bilhões de RMB em reservas estrangeiras. Só para situarmos essa informação, a China tem cerca de 3,5 trilhões em reservas estrangeiras, de acordo com o último dado disponível em reportagem do Wall Street Journal. Zhang também não espera que o dólar perca força imediatamente e atribuiu isso ao fato de o RMB não ter conversibilidade plena e aos controles de capitais da China. “De fato, parte da força do RMB é consequência do grande volume de reservas em dólares da China”, frisa. “O impacto geopolítico da China já é um dado, com ou sem a decisão do FMI. Porém a decisão amplia esse impacto tanto em termos econômicos quanto também no que diz respeito aos esforços dos chineses para remodelar as regras e as instituições globais cujo perfil, até agora, foi uma imposição dos Estados Unidos”, considera Zhang. 

Posição econômica da China
“Estamos em uma conjuntura incomum na trajetória econômica da China”, observa Meyer. “O crescimento impulsionado pelo investimento chegou ao limite e o país precisa encontrar um novo modelo de crescimento. Nesse período, há muita incerteza. Os principais economistas da China sabem disso”, alerta. Meyer apresentou os principais temas que foram consenso entre os economistas presentes, em novembro, ao congresso patrocinado pela Xinhuanet sobre os próximos passos a serem dados pela economia chinesa. “Em primeiro lugar, a economia chinesa já está em queda há quatro ou cinco anos. O melhor indicador desse declínio é o índice de preços ao produtor, ou IPP, que caiu durante 44 meses consecutivos; o IPC (índice de preço ao consumidor), embora positivo, não ultrapassou os 2% no mesmo espaço de tempo, o que corresponde efetivamente a zero. Em segundo lugar, a principal causa de declínio é o excesso de capacidade impulsionada por medidas de estímulo. Mais estímulos apenas prolongarão o declínio. O excesso de capacidade é maior em indústrias como a do carvão, do petróleo e do aço dominadas por empresas estatais. Em terceiro lugar, a menos que ? e até que ? o governo permita que o ciclo econômico normal entre em ação e se elimine a capacidade de excesso, o declínio persistirá. Em quarto lugar, entre outros efeitos, alguns dos quais positivos, a campanha de anticorrupção atrasou a liquidação da capacidade de excesso, uma vez que pairam suspeitas sobre as vendas de ativos das estatais”, argumenta. 

Lidando com a capacidade de superávit
Meyer apresentou esses temas tendo por pano de fundo um contexto mais amplo. “Não apenas a China está mergulhada em capacidade, como também em dinheiro”, garante. Ele observa que a relação M2 (medida de oferta de dinheiro da qual fazem parte dinheiro, cheques, depósitos em poupança e a prazo e fundos de mercado monetário) na China é o dobro da que se observa nos Estados Unidos. “Isso é muita liquidez. Era de se esperar que houvesse inflação com esse excesso de liquidez. Contudo, a capacidade superou a liquidez, portanto o que se tem é deflação”, ensina. Porém, a China não tem opções fáceis para lidar com essa capacidade de superávit. “Se os chineses tentarem liquidar essa capacidade em excesso, haverá inquietação social”, alerta Meyer recordando dos tumultos provocados pelos trabalhadores depois do fechamento, em novembro, da empresa privada Tangshan Songtin Iron & Steel. De acordo com uma reportagem da Reuters, a Tanghan produz mais aço do que os Estados Unidos.

“A principal reforma a ser feita na China consiste em se livrar das estatais que são verdadeiros buracos negros. A maioria delas é constituída basicamente de empresas zumbis que sugam todo o crédito”, sugere Hanke. Como consequência disso, as empresas privadas do país enfrentam uma brusca redução do crédito disponível. Zhao sente que a sombra de uma sanção anticorrupção severa sobreviria também aos esforços de privatização das estatais. “Vários gerentes estão assustados com a privatização porque seja o que for que venderem, podem ser acusados de atribuir preços falsos aos ativos. A possibilidade de se ver envolvido em uma investigação qualquer é assustadora”, constata ela. 

Swift x ChIPS
De todos os cenários possíveis, o que mais tem chance de ocorrer parece ser o surgimento de um sistema mundial paralelo de transferência de dinheiro. A maior parte das transferências internacionais atualmente usa o sistema conhecido como “Swift” (sigla em inglês de Sociedade para Transferências Financeiras Interbancárias Globais) denominado em dólares. A China está propensa a criar um sistema rival batizado de ChIPS (Sistema de Pagamentos Internacionais da China) em que usará o renminbi. “Isso seria bom pois, no caso do Swift, o Tesouro americano tem um exército de pessoas esperando para estabelecer sanções e restrições a países de que não gostam. Isso torna a elevação do RMB à categoria de moeda de reserva um fator geopolítico, uma vez que as sanções são políticas”,  antecipa Hanke.

O argumento a favor da inclusão do RMB na cesta de moedas com direitos especiais de saque (SDRs) foi, na verdade, o oposto disso, conforme esclarece Zhao. “Um argumento que pesou a favor da inclusão da China no sistema de SDRs teve por objetivo desencorajar o país de criar um sistema paralelo”, contou ela. Ao incluir o RMB como moeda de reserva, o FMI pode pressionar os chineses a arcar com as responsabilidades decorrentes do novo status de sua moeda, tais como maior transparência na valorização do RMB. Nesse espírito, espera-se que o país faça justiça ao seu compromisso de tornar o RMI totalmente conversível até 2020. “Se as decisões tomadas forem no sentido de tornar a moeda mais transparente e negociável, teremos uma atitude positiva que impedirá a introdução de outro sistema paralelo”, explica Zhao. “Tal situação leva ao paradoxo hoje enfrentado pelo mundo. A China sofre atualmente uma fuga de capitais, já que muitos investidores estão tirando dinheiro de lá e levando-o para portos mais seguros. Se depois de se unir ao clube das moedas SDRs o RMB se depreciar significativamente, os Estados Unidos entenderão isso como um resultado de mercado?”, indaga ela. “Se os norte-americanos não gostarem desse resultado, será que interferirão e tentarão influenciar o sistema para desagrado dos chineses? Teremos aí, portanto, um resultado geopolítico, e não de mercado. Se a China liberalizar cada vez mais sua economia, conforme vem fazendo desde 1978, atrairá mais fluxos de capitais” acrescenta Hanke.

Perspectivas do RMB
A China não pode, porém, depreciar facilmente o RMB. “Se os chineses tentarem forçar artificialmente o RMB para tornar sua indústria mais competitiva, o resto do mundo provavelmente protestará devido à perda de postos de trabalho e ao aumento da poluição”, constata Meyer. A poluição vem à tona devido à substituição do petróleo (os campos de petróleo domésticos já ultrapassaram seu pico de produção) pelo carvão (abundante na China). Meyer espera que o impacto do RMB seja gerido com muita cautela. “O RMB entrará em declínio aos poucos e a China terá de administrar essa queda”, prevê. Ele citou em seguida comentários feitos por Yi Gang, presidente interino do Banco do Povo da China, o banco central do país, segundo os quais a China manterá um sistema de “flutuação administrada” antes de passar gradualmente para a “flutuação limpa” do yuan, conforme noticiou reportagem recente do Wall Street Journal. A flutuação limpa é um objetivo de longo prazo pelo qual o banco central não interfere no controle do valor da moeda, relata a matéri. “Com relação à desvalorização, ou não, do RMB depois da sua inclusão no SDR, não há necessidade de nos preocuparmos com isso”, declarou Gang. “Pode-se interpretar esse comentário de diversas maneiras. Chame de manipulação, se quiser, ou de prudência. Você que sabe. Se não houvesse o gerenciamento de fluxos, tais como limites sobre as transações com moedas estrangeiras, o hot money [recursos financeiros de curtíssimo prazo] sairia da China o mais rápido possível dada a perspectiva de desvalorização incremental do RMB”, salienta Meyer. 

EUA x China
A importância cada vez maior do RMB poderia ser também um teste da influência dos EUA sobre a China. Hanke se recorda que depois de mudar de câmbio fixo para flutuante em 1973, os Estados Unidos começaram a pressionar o Japão para que o governo deixasse o yen se valorizar. Isso foi feito com o propósito de proteger os produtos americanos das importações mais baratas do Japão, sobretudo no segmento automobilístico. “Sob tremenda pressão, o yen se valorizou passando de 360 em relação ao dólar para 80-85 por volta de 1990. O yen se valorizava continuamente devido à interferência dos Estados Unidos sobre o Japão obrigando-o a valorizar sua moeda através de todo tipo de conflito comercial e outras práticas”, conta Hanke. 

Nesse sentido, a China não se comportará como o Japão, acredita Hanke. “A China não será manipulada pelos Estados Unidos e não teremos um RMB se valorizando continuamente. Os chineses farão aquilo que acreditam ser do interesse do seu país”, afirma Hanke. De acordo com Meyer, a decisão do FMI não corroerá imediatamente a força do dólar. “A longo prazo, porém, a capacidade dos Estados Unidos de isolar os Estados-vilões recorrendo a sanções financeiras pode se ver tolhida”, constata. Seja como for, tal situação foi prevista, por isso os EUA já trabalham em alternativas às sanções financeiras. “Ao mesmo tempo, embora a China ganhe influência internacional, a decisão do FMI, no fim das contas, corrói a capacidade de controle do governo chinês sobre o RMB. A pergunta que não quer calar, porém, é o que acontecerá se a China retroceder no caso de o RMB sair de controle. O FMI, por exemplo, suspenderia temporariamente os SDRs da China?”, questiona Meyer.


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