Emergentes: oportunidades para o Private Equity

Ainda que alguns países estejam em dificuldades, o cenário deve mudar

Por Wharton

Mercados emergentes em desaceleração criarão oportunidades para o private equity

Na entrevista a seguir, a Knowledge@Wharton pediu a Michael Rogers, líder interino da EY, empresa global de Private Equity, e a Stephen M. Sammut, pesquisador bolsista e professor assistente da Wharton, para que avaliassem a perspectiva do setor de Private Equity nos mercados emergentes. Em tom de otimismo, eles disseram que embora o ano tenha sido difícil, o Private Equity é um dos segmentos em que o crescimento lento pode criar oportunidades, uma vez que poderia reduzir o preço de compra das empresas, um fator fundamental para seu desempenho posterior. Eles assinalam ainda que algumas economias estejam em dificuldades atualmente, o cenário tende a mudar “bem depressa” nos mercados emergentes. Acompanhe a a seguir a versão editada da entrevista.

Vocês poderiam dar uma volta rápida pelo mundo e nos dizer o que está acontecendo com o Private Equity nos mercados emergentes?

Michael Rogers: Foi um ano complicado para o Private Equity em alguns mercados emergentes. Isto se deveu, em parte, à retração ocorrida no reequilíbrio [da economia chinesa, por exemplo] […] Vamos começar pela região da Ásia-Pacífico. Notamos ali uma queda acentuada de atividade este ano impulsionada, em grande medida, pelos problemas enormes da China. Do ponto de vista da captação de fundos, a região arrecadou cerca de US$ 19 bilhões no primeiro semestre deste ano. Isso corresponde a uma queda de 30% em relação ao mesmo período de 2014. As atividades em geral também encolheram. As empresas anunciaram negócios de cerca de US$ 14 bilhões, o equivalente a uma queda de 44%. Essas variações também constituem oportunidades. Já se observam, por exemplo, quedas de cotação na China, antes um mercado extremamente aquecido. Isso poderá incentivar um pouco mais os investimentos nos próximos trimestres na medida em que o Private Equity (PE) tentará aproveitar as oportunidades de entrada [aquisição de empresas] mais em conta. Contudo, a abertura e o fechamento das possibilidades de IPO não ajudam o negócio de PE ali. Portanto, ele terá de encontrar outros meios de se financiar nesse mercado. Muita coisa ainda vai acontecer na China, e a economia local é o que há de mais importante em tudo isso. [Nota do Editor: Esta entrevista foi feita antes dos grandes eventos financeiros nos mercados de ações e de moeda do país no final de agosto].

A América Latina está desacelerando um pouco. A captação de fundos se manteve em patamares elevados. Ficamos muito contentes com isso. Alguns foram muito bem recebidos. A Carlyle fez uma segunda captação com foco no Brasil. A Advent também fez uma captação com valores que ultrapassaram US$ 1 bilhão. Os investimentos em PE estão mais ou menos no mesmo nível do ano passado. A parte de desinvestimento [saída das empresas de participação] está um pouco mais lenta do que muita gente gostaria que estivesse. A Colômbia é uma exceção. Parece que ali o setor ainda está bastante aquecido. Na verdade, o ciclo de desinvestimento vem ganhando algum impulso ali.

Na Índia, houve um aumento de expectativa no decorrer do último ano impulsionado pela melhora das condições econômicas e pelo ciclo de eleições, que introduziram algumas reformas no país. A captação de fundos está em alta, houve vários negócios de grande porte e o PE está investindo bastante ali. Contudo, em relação à dimensão dos negócios e ao volume em dinheiro, há pequenos movimentos ascendentes e descendentes. De modo geral, porém, a Índia parece estar indo muito bem.

É interessante observar, quando falamos dessas partes do mundo, como os mercados emergentes tendem a se mover muito depressa. Quem está na frente este ano pode facilmente ficar em último lugar no ano que vem […] Portanto, a longo prazo, haverá oportunidades. Aí então o PE realmente terá chance de brilhar. Sob vários aspectos, outro lugar que podemos citar objetivamente, por exemplo, é o Brasil. Praticamente toda tendência econômica que você puder imaginar teve resultados negativos no Brasil: taxas de juros elevadas, aumento da inflação, PIB em queda além de todas as demais dificuldades, a corrupção etc. conforme vimos pelos últimos acontecimentos que vieram a público. Pode-se dizer que é um momento ruim para o PE investir. Mas, como creio que todos sabemos, muitas vezes são essas exatamente as melhores oportunidades para investir, principalmente com a moeda desvalorizada. Portanto, investidores externos talvez deparem com níveis de cotação que podem funcionar como excelentes pontos de entrada nesses mercados. Por isso, minha perspectiva é a da copo meio cheio. As oportunidades estão aí. Talvez as cotações deem uma moderada e até cresçam quando entrarmos em 2016.

Stephen M. Sammut: No meu modo de ver, o copo está meio cheio também. As coisas tendem a mudar bem depressa nos mercados emergentes. Assim, este ano elas podem parecer negativas, mas podem mudar facilmente no ano que vem. Só com o tempo poderemos dizer se elas prenunciam mais macrotendências. Eu acho que não. Muitos dos gestores de fundos de Private Equity e sócios solidários com quem tenho conversado na América Latina dizem que pode haver alguns novos macrofatores ou tendências de longo prazo a considerar. Estou ouvindo perguntas que nunca ouvi antes. Eles se perguntam se ainda é possível confiar na hipótese clássica de investimento na América Latina segundo a qual geraremos crescimento, retornos e alfa [retornos não explicáveis pelo risco e que são atribuíveis à habilidade superior do gestor] com base na melhora das empresas, que é o negócio do Private Equity, e que teremos ganhos e múltiplos para nossos sócios de responsabilidade limitada simplesmente fazendo bem nosso trabalho. Pela primeira vez estou ouvindo falar de uma especulação segundo a qual talvez seja hora de pensar na alavancagem como componente de geração desses retornos, o que não é a prática comum ? em outras palavras, compensar a diferença entre o crescimento nativo e a engenharia financeira através da engenharia financeira […] Isso significa que teremos de trabalhar com bancos para conseguir essa alavancagem, o que é sempre temerário. Por isso, não sei se isso vai se tornar parte do cenário ou não.

Rogers: Acho que você tem razão. Historicamente, a América Latina sempre se caracterizou por mercados de capitais e por um ambiente de crédito em grande escala muito pouco desenvolvidos. Na prática, é quase como se não existissem. Creio que a evolução natural da indústria exigirá a criação e a utilização de linhas de financiamento de terceiros de forma mais ampla nessas transações porque […] a maior parte das transações realizadas ali foi feita com muito pouca dívida, ou nenhuma, tendo sido financiadas quase que inteiramente com capital próprio.  Muitas dessas empresas são empresas familiares, por isso não conseguem se financiar por meio desse mecanismo. Contudo, precisaremos de mercados de capitais pujantes na América Latina para que isso venha a funcionar a longo prazo.

Já que os mercados emergentes perderam um pouco o gás que tinham, vocês acham que a África terá um desempenho melhor do que os mercados emergentes em geral, ou será pior ou parecido?

Sammut: Creio que vários países africanos têm condições de apresentar um desempenho melhor do que outros mercados emergentes. É mais difícil dizer o mesmo do continente em geral. Não há dúvida, porém, de que as economias em rápida expansão ? e os gráficos do relatório da EY reproduziram bem isso ? mostraram quais países tinham taxas de crescimento significativas. Creio que eles ultrapassarão os mercados emergentes em geral porque há uma lacuna muito grande a preencher, e as tendências demográficas certamente terão um papel importante na forma com isso se dará. Quando conversamos com jovens africanos ? claro que isso não é um dado científico; é mais um dado empírico, e dados empíricos não são a mesma coisa que dados de fato ? ouvimos sempre dizerem: “Chegou a nossa vez. Agora é a nossa vez.” Esse tipo de energia humana pode fazer com que as coisas caminhem muito.

Rogers: Talvez seja cedo demais para dizer se a África ultrapassará os mercados emergentes. Contudo, o potencial existe. Apesar de certa fragilidade na América Latina, o que se pode atribuir em boa parte às dificuldades enfrentadas pelo Brasil, a arrecadação de recursos ali superou a da África em múltiplos. Portanto, o mercado africano ainda está em sua infância se comparado a outros mercados. A região, sob muitos aspectos, continua a sofrer de uma percepção que vem de muitas décadas de que se trata de uma área de estagnação econômica ou de instabilidades. Isso levou a um subinvestimento crônico. Felizmente, está surgindo uma nova narrativa africana. Ela está dando lugar a uma energia cada vez maior e mais veloz à classe média ? o consumo está crescendo. Vejo isso também quando estou lá. Percebe-se na voz das pessoas. A gente vê que elas estão entusiasmadas com a oportunidade que têm à frente. Creio que o aumento do investimento de investidores locais e estrangeiros nas várias indústrias que você mencionou está por trás desse avanço, e o PE está se tornando parte importante dessa narrativa. Algumas empresas locais têm sido alvo de atenção crescente de empresas e sociedades de responsabilidade limitada. É preciso também desenvolver esse ecossistema. Se olharmos para o que acontecia na América Latina há alguns anos, nossa preocupação era que os fundos locais introduzissem um primeiro nível de profissionalização em uma entidade; em seguida, que tornassem isso mais atraente para as regiões vizinhas e, por fim, se transformasse em algo que pudesse ser adquirido pela Carlyle ou pela KKR mais adiante. O ecossistema tem de continuar a se expandir.

Todos os mercados emergentes oferecem imensas oportunidades, mas a África é um caso à parte. Concordo com Steve nesse ponto. Muitos setores mais maduros em lugares como a China e o Brasil ainda estão em desenvolvimento na África. Alguém poderá ver isso e dizer que o PE penetrou muito pouco ali. Além disso, várias das apostas iniciais bem-sucedidas do PE na China e na América Latina continuam lá abertas às oportunidades, como o segmento de telecomunicações e banco móvel. Por isso, a tendência é acreditarmos realmente no que se passa na África. A volatilidade continua a desempenhar um papel importante no contexto africano, e a coisa não é para os fracos, vamos deixar isso claro. Em relação ao know-how local, com amplas redes e boas conexões de mercado, o PE terá a oportunidade de agregar valor como fez em outros mercados. Estive em um congresso, London for Africa, em outubro. Foi no auge da discussão sobre o ebola. Um dos palestrantes com quem conversei disse que a África é um continente flexível. Se atentarmos para aquela ocasião, todos pareciam voltados para a crise de então. O continente, porém, sofreu e se recuperou de uma série de dificuldades ao longo do tempo. Alguém provavelmente olhará para o que se passa ali e dirá que o risco percebido é maior do que o risco real e continuará a investir e a ter sucesso ? o que lhe dará a vantagem, sob muitos aspectos, de chegar primeiro […] Portanto, estamos esperançosos e vendo de forma positiva o futuro da África.


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