Heitor Müller, da Fiergs: “O Brasil está em um labirinto”

Recuperação da economia dependerá da solução dos problemas políticos

Por Laura D'Angelo

laura.cauduro@amanha.com.br

Balanço e Perspectivas Fiergs

O ano de 2014 não tinha sido dos mais fáceis para a indústria e a economia brasileira. O país dava sinais de desaceleração e os investimentos se retraíam. Mesmo assim, os maus resultados não foram capazes de abalar as expectativas de Heitor José Müller (foto) para o ano de 2015. O presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) acreditava, no final do ano passado, que o trio recém-escalado para cuidar da área econômica brasileira (Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda; Nelson Barbosa para o Ministério do Planejamento; e Alexandre Tombini, mantido no Banco Central) iniciaria os ajustes que o Brasil precisava para estabelecer a estabilidade necessária para a retomada em 2016. Acontece que a sucessão de crises políticas que tomou conta do Congresso Nacional derrubou o discreto otimismo do industrial. “O Brasil está, neste momento, em um labirinto. Podemos chegar a algumas conclusões de como entramos nele, mas duvido que alguém saiba como vamos sair”, constatou Müller, na apresentação do relatório Balanço de 2015 e Perspectivas para 2016 da Economia na sede da federação, em Porto Alegre.

E é da saída desse labirinto que depende o futuro da economia nacional. Na opinião de Müller, não há como se vislumbrar a recuperação econômica sem que os desacertos políticos, que travam a votação e decisão de medidas importantes para a produção brasileira, se encerrem. A instabilidade política, segundo ele, afeta diretamente a confiança da indústria e dos consumidores e freia investimentos e vendas. “Pior do que a realidade do momento, é a falta de perspectiva de solução”, resume. E pelas previsões da Unidade de Estudos Econômicos (UEE) da Fiergs não há muita esperança no horizonte. Na projeção mais otimista da entidade, o PIB brasileiro ficará estagnado no próximo ano. “Em qualquer cenário, mesmo no mais otimista, não há melhora de desempenho”, confirma André Nunes (na foto, à esquerda), economista da Fiergs e responsável por comandar o estudo que costuma apresentar as previsões econômicas para três panoramas: um pessimista, um moderado e um otimista. Para este ano, o recuo da atividade econômica deve ficar em 3,5%.

Para a indústria, o tombo é ainda maior. Ao final do ano, a Fiergs estima que o segmento apresente uma queda de 7%. Sem tantos investimentos na agenda para 2016, a produção deve apresentar uma nova redução, que, em um cenário moderado, a Federação calcula em 3,5%. A indústria, assim, continuará com resultados inferiores aos demais setores, marca negativa que registra desde 2011. Na época, o setor representava 15% do PIB brasileiro. Hoje, a participação é de 11,4%. Nunes destaca que, por causa dessa queda, a indústria deixou de gerar cerca de R$ 3 trilhões durante o período. “ [A indústria] responderia por quase metade do PIB nacional”, salienta o economista.

A contração da produção industrial neste ano foi afetada, entre outros fatores, pela recomposição de alíquotas de tributos e fim dos subsídios para o setor – algumas das medidas impostas pelo governo para tentar equilibrar as contas da União. No entanto, o resultado primário brasileiro deve ser, pelo segundo ano consecutivo, de déficit. Nunes acredita que, devido às discussões políticas, “falou-se muito em ajustes fiscais, mas se fez pouco”, o que leva o Brasil a viver a mais longa e profunda crise nas últimas duas décadas. “Não tenho dúvida que passamos pela maior recessão da história brasileira”, atesta Nunes.

O labirinto gaúcho

Em não mais tranquilas águas navega o Rio Grande do Sul. Na análise da Fiergs, o estado também enfrenta uma recessão e deve ter um PIB menor em 2,8% do que do ano passado. Mais uma vez, a agricultura salvará o cenário que, com uma safra recorde, amenizou a queda da atividade econômica. No entanto, o setor primário não deve conseguir superar os resultados na produção de 2015/2016, o que deixará o PIB gaúcho com a perspectiva de nova queda para o ano que vem (-3%). Já para a indústria estadual, a Fiergs prevê um recuo maior do que o enfrentado pela nacional em 2016. O setor deve registrar queda de 4,1%. Nunes observa que a crise afetou até mesmo setores de necessidade básica, que costumam ser mais resistentes. É o caso da indústria alimentícia, cuja atividade caiu 0,3% entre janeiro e setembro na comparação com 2014.

Até outubro, no acumulado de 12 meses, a indústria gaúcha extinguiu mais de 69 mil postos de trabalho. De acordo com Heitor José Müller, o segmento tem batalhado para manter a mão de obra qualificada e treinada, optando por medidas como férias coletivas e lay-off. “Minha dúvida é se, quando acabar o prazo dessas medidas, a economia vai ter melhorado”, assinala o industrial. Mesmo se mostrando menos confiante do que no ano passado, o presidente da Fiergs preferiu terminar o tradicional encontro da entidade com uma mostra de perseverança. Para isso, citou a seguinte frase, atribuída à Albert Eistein: “Falar de crise é promovê-la. Calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la”. Afinal, a experiência de vida ensinou a Müller que as crises são sempre superadas e que, cedo ou tarde, se encontra a saída do labirinto.


Projeções da Fiergs

PIB Brasil

2015: -3,5%

2016: -2,5% (cenário moderado)

PIB Indústria brasileira

2015: -7%

2016: -3,5% (cenário moderado)

PIB Rio Grande do Sul

2015: -2,8%

2016: -3% (cenário moderado)

PIB Indústria gaúcha

2015: -9,1%

2016: -4,1% (cenário moderado)

Resultado primário brasileiro

2015: -0,7%

2016:  0,3% (cenário moderado)

Inflação (IPCA)

2015: 10,3%

2016: 8,6% (cenário moderado)

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