“O Brasil não resolveu nenhum dos seus problemas”

Presidente da Celulose Riograndense defende reformas profundas

Por Laura D'Angelo

laura.cauduro@amanha.com.br

Walter Lídio Nunes, presidente da Celulose Riograndense

Não foi apenas o vinho nacional servido no almoço de confraternização com a imprensa que destoou no tradicional evento promovido pela Celulose Riograndense nesta quarta-feira (2), em Porto Alegre. Acostumada a brindar a chegada do novo ano com um dos rótulos da vinícola Casa Silva, do Chile, país de origem da multinacional, desta vez os convidados foram recebidos com o brasileiríssimo Casa Valduga Raízes, produzido no Vale dos Vinhedos. Outro detalhe que saltou aos olhos foi a dose de pessimismo de Walter Lídio Nunes (foto), presidente da companhia. Questionado sobre o que espera do Brasil em 2016, Nunes não titubeou: “Vai ser um pouco pior do que este ano”. Ao perceber a surpresa e a preocupação dos presentes, o executivo apressou-se a explicar o motivo: “As coisas sempre podem ser piores. Não temos medida alguma para resolver nossos problemas”, constata.

Nunes afirma estar tranquilo quanto aos resultados da companhia para 2015 e 2016 pelo simples fato de que a maior parte da produção da empresa é direcionada ao mercado externo. A recuperação dos mercados dos Estados Unidos e da Europa, além da continuidade de crescimento da China, vão garantir o faturamento de U$S 600 milhões este ano e U$S 1,3 bilhão no ano que vem, quando a segunda fábrica de Guaíba, que iniciou operação em maio, atingirá sua capacidade máxima de produção. Mas se dependesse da economia nacional, a serenidade desapareceria. Nunes observa que não há ambiente político para que se encontrem as soluções e se trabalhe nas reformas estruturantes necessárias para que o país, principalmente na economia, corrija o rumo.

Nunes acredita que o Brasil precisa de transformações que fomentem o empreendedorismo e a competividade através, por exemplo, de reformas tributárias e legislativas.  “A burocracia é o maior incentivador do comércio das facilidades porque só prejudica quem é correto. Quem é ilegal sempre acha outra maneira pra fazer”, dispara. Ele entende que, para que o Brasil deixe os últimos lugares nas listas de competitividade e se torne um ambiente atraente para investidores, é necessária a compreensão de que o modelo clientelista e patrimonialista brasileiro, de troca de favores e de demasiada interferência do governo, está esgotado. 

Na visão de Nunes, as discussões estão focadas, no momento, em questões políticas que impedem o avanço de debates importantes para que a economia brasileira cresça. Um deles, de interesse especial da Celulose Riograndense, estaria relacionado ao melhor desenvolvimento dos transportes fluvial e intermodal, que possibilitariam o escoamento de produções de forma mais rápida e barata. “Nós temos uma das piores logísticas do mundo”, reclama. No entanto, Nunes admite que a própria classe empresarial é desunida e só briga por interesses individuais. “Acho que nossa representatividade é muito ‘getuliana’. Ou seja, é muito sindical patronal. Temos de pensar no desenvolvimento da sociedade sob a perspectiva de um segmento importante que é o empreendedor”, sugere. Segundo ele, o setor empreendedor deveria ter uma pauta em comum que conjugasse os interesses de vários outros setores da sociedade.  

Investimentos em 2016

Em janeiro do próximo ano, a Celulose Riograndense começará as obras de reforma do Porto de Pelotas, onde instalará um terminal para o transporte de toras de eucalipto. A intenção é levar as madeiras retiradas das áreas de plantio da empresa na zona sul do Estado até a fábrica de Guaíba pela hidrovia. De Pelotas também partirá a celulose exportada para os Estados Unidos, Europa e Ásia. As operações no porto, que recebeu investimento de R$ 20 milhões, deverão começar em março de 2016. 

Apesar de não revelar os valores, Nunes garante que a Celulose Riograndense fará grandes investimentos para melhorias da infraestrutura do Porto de Pelotas e para a atualização dos processos no parque industrial de Guaíba, cuja ampliação representou o maior investimento privado realizado no Estado (U$$ 2 bilhões). A nova fábrica está funcionando com 90% da sua capacidade. A estimativa é que, no próximo ano, com funcionamento pleno, a produção chegue a 1,7 milhões de toneladas – um aumento de 30% na comparação com este ano. Ainda assim, Nunes queria poder fazer mais. “Gostaria de construir mais uma fábrica, mas a conjuntura nacional me impede”, afirma em referência ao dispositivo legal que limita a compra de terras por empresas brasileiras com capital estrangeiro, como é o caso da Celulose Riograndense, cuja controladora é a chilena CPMC. Mais um tema que, para Nunes, deveria estar na agenda dos políticos e empresários brasileiros para o desenvolvimento da economia nacional.



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