A dança e a guerra

A informação excessiva é uma corruptela do consumismo e, a seu modo, cria um fundamentalismo

Por Fernando Dourado Filho, de Verona (Itália)

Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia

No começo da semana, a União Europeia deu um cheque de 3 bilhões de euros de ajuda à Turquia a pretexto de ajudar a manter o país – a principal plataforma de acolhimento de refugiados sírios. É claro que isso é uma benção para o presidente Recep Erdogan (foto). Pois, ademais do dinheiro sonante, a Europa promete reabrir as portas à sua inserção na União. Não será pelo contencioso com Chipre que isso não ocorrerá, dizem alguns.

Por trás disso, há também um desejo de sedução. Afinal, o namoro com a Rússia vinha incomodando a OTAN. O avião-caça que os turcos bobamente abateram está gerando, como sabemos, a reação enfurecida do Czar contra o Sultão. Se a lufada de prestígio alivia os calos da Turquia, o pânico no país não é menor. Putin vai dificultar a vida de 200 mil turcos que vivem na Rússia; já levantou barreiras sanitárias contra os produtos agrícolas; suspendeu a venda de pacotes turísticos para Antalya – onde os russos só perdem para os alemães em presença – e exige desculpas públicas e indenização pelos danos. Em suma, os comerciantes pagarão a conta.  

O que isso significa na ótica geopolítica? Os portos de Tartus e Latakia – bastião de Bashar al-Assad –, vitais para o equilíbrio de forças no Mediterrâneo Oriental. É essa a obsessão russa. Para entornar o caldo, os turcos mataram um líder curdo de grande expressão e integridade. Fato é que o cenário é tão volátil que ninguém pode dizer onde tudo isso vai parar. De fato, ainda que o resultado seja distinto, estamos vivendo um quadro sintomático do mundo de um século atrás, quando a Primeira Guerra campeava.

 Imagino quanto tempo pessoas estudiosas não levam devorando informações e rascunhando cenários que, no dia seguinte, serão provavelmente obliterados por uma nova composição de nuvens. Falando nelas, domingo passado, aqui perto de Verona, fui a uma quermesse divertida. Em dado momento, fiquei observando um casal de camponeses dançar a ponto de suar, apesar do frio de 3 graus. De grande agilidade e com a graciosidade das pessoas simples de espírito, fiquei matutando o que pensam eles desses atores sinistros. Provavelmente, nada.

Ali, naquele vilarejo do Trento, apesar dos riscos brancos de ar condensado que cruzam o céu azul – assinalando jatos que voam a caminho de todos os teatros de guerra –, o que conta mesmo é a chuva, a neve, o sol, a polenta, as perdizes, as uvas e a música. Mas que ninguém se iluda com o bucolismo. Há pouco mais de um ano, fiquei maravilhado com Sarajevo, uma rara capital europeia que não conhecia. Ontem vi um documentário aterrador. A cidade já virou um grande centro de aliciamento islamismo salafista e o proselitismo é feito nas ruas e baseado no mais descarado assistencialismo. 

Na Bósnia, tem áreas no norte do país cujo valor despencou bruscamente. Isso porque os muçulmanos financiados pela Arábia Saudita estão criando um enclave avesso a qualquer vizinho que não comungue do credo. É quase um estado dentro do outro. Os eslavos devem estar dizendo: estão vendo no que deu não nos deixar terminar a faxina étnica? Em suma, essa linda parte do mundo está a ponto de explodir. Não há líder – por melhor que seja – que possa ter repertório para interpretar e se posicionar diante dessa miríade de variáveis. Talvez nem Hillary Clinton, o quadro mais bem preparado da atualidade. 

Para apaziguar o espírito e afugentar os maus pensamentos, vou pensar no casalzinho de camponeses que dançava e rodopiava como se estivesse se purgando de algum mal. E quem disse que não estava? A informação excessiva é uma corruptela do consumismo e, a seu modo, cria um fundamentalismo. Melhor mesmo deve ser dançar e se regozijar com as coisas pequenas que fazem a vida grande. Em última instância, a energia da Europa lateja nos velhos burgos onde ainda se fala dialeto. 


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