Comércio tende a mergulhar mais profundamente em 2016

O segmento de bens e serviços terá dois anos de resultados negativos

Por Laura D'Angelo

laura.cauduro@amanha.com.br

Marcelo Portugal Fecomercio

 “O fundo do poço ainda não chegou”. A frase do economista Marcelo Portugal (foto) dá o tom das perspectivas para o Brasil em 2016. Para Portugal, ainda que as estimativas para os principais índices no próximo ano mostrem quedas menores em relação às deste ano, o país continuará colhendo os frutos de uma política de excessos, tanto no aspecto monetário como fiscal, do primeiro mandato da presidente Dilma – agravada por uma crise política que não deve ser apaziguada tão cedo.

Assim, o país terá em 2016 novamente um ano de recuo no PIB, calculado por Portugal em 2%. Desde 1930 e 1931 não ocorria de dois anos consecutivos com índices de atividade econômica negativos. Até mesmo o setor que tem sido o grande motor da economia brasileira há décadas – e, inclusive, amenizando os resultados negativos de outros segmentos - pode ser atingido. Portugal chama atenção para a previsão do IBGE de uma safra para o ano que vem, em volume, menor a deste ano, dificultando ainda mais uma reação da produção nacional. “Costumo dizer ao pessoal do agronegócio: ‘a tua hora vai chegar’”, brincou Portugal durante almoço de final de ano promovido pela Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS) nesta terça-feira (1).

O indicativo de que o governo não conseguirá reduzir seu déficit fiscal neste ano provavelmente provocará a perda de mais um grau de investimento no próximo semestre. “No momento que as agências de classificação de risco verificarem que continuamos na mesma situação fiscal, elas vão nos rebaixar novamente”, antevê Portugal. Como consequência, o clima de insegurança afastará os investimentos estrangeiros no Brasil e diminuirá a liquidez de dólares, pressionando a moeda norte-americana para cima. A previsão do professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) é que o dólar alcance até R$ 4,15 no ano que vem. Em contrapartida, a inflação deve desacelerar e ficar entre 6% e 7%.

Comércio e serviços

O setor terciário foi um dos últimos a ser atingido pela crise, mas não conseguiu escapar dos efeitos da alta inflação e da queda de confiança do consumidor. Em 2015, o varejo restrito [que envolve dados do comércio de combustíveis, supermercados, alimentos, bebidas, fumo, tecidos, vestuário e calçado, entre outros] brasileiro, no acumulado até setembro, apresentou queda de 3,3% na comparação com o ano passado. O setor de serviços, no mesmo período, caiu 2,8%. Os segmentos mais afetados foram aqueles que mais dependem de crédito, casos do automotivo, do de eletrodomésticos e móveis. Como as condições que derrubaram a venda de bens e serviços devem permanecer as mesmas no próximo ano, como preços altos e crédito caro e de acesso restrito, Portugal acredita que o setor tende a dar um mergulho ainda mais profundo em 2016. “Vamos ter um segundo ano de recessão para comércio e serviços”, prevê o economista.

A Fecomércio-RS espera para o Estado, em 2016, um recuo de 3,2% no comércio de bens e de 2% em serviços. O presidente da instituição, Luiz Carlos Bohn, ressaltou que os agentes do setor continuarão na briga para a diminuição dos impostos e para evitar a recriação da CPMF. Mesmo envoltos a duas graves crises, econômica e política, os empresários, acredita Bohn, sobreviverão e sairão mais fortes desse período de retração. “Eles têm o espírito empreendedor. Quando dão um passo atrás já estão pensando dois à frente”, conclui Bohn, esperançoso.


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