Vive la France

Ninguém ficou indiferente à beleza da cerimônia que homenageou as 130 vítimas dos atentados em Paris

Por Fernando Dourado Filho, de Paris

Homenagem às 130 vítimas dos atentados de 13 de novembro, em Paris

Nesta fria manhã de novembro, a escassas três semanas da chegada oficial do inverno, nem eu nem ninguém ficou indiferente à sobriedade e beleza da cerimônia que acabou de acontecer no majestoso átrio de honra dos Inválidos, na margem esquerda do Sena, aqui em Paris, por ocasião da homenagem às 130 vítimas dos atentados de 13 de novembro último, que atingiram a zona leste da capital. Com todo o gabinete reunido, familiares enlutados das vítimas, equipes médicas, forças armadas e gendarmerie, de par com quase todas as lideranças representativas da França, eis que François Hollande chegou num pequeno carro e se dirigiu, solenemente, à frente da banda da Guarda Nacional para a execução da Marselhesa. Dali, em silêncio absoluto, se dirigiu a uma cadeira.

Uma vez o presidente sentado, três moças  – uma delas israelense – cantaram lindamente a maravilhosa "Quand on a que l´amour", do cantor belga Jacques Brel. Quase sem acompanhamento, só com violão, as vozes cálidas pairaram no ambiente transido de emoção enquanto, num telão, se projetava a imagem de cada uma das vítimas de mais de 50 origens dentro da França, e provenientes de não menos que um conjunto de 17 países. Na sequência, outra cantora interpretou a lendária Barbara. Depois disso, os nomes das vítimas foram recitados junto com a idade respectiva – muitas delas contavam entre 30 e 40 anos, para minha surpresa que as julgava mais jovens. Isso feito, se fez um minuto de silêncio. Na sequência, um violoncelo solitário.

Alguns dos nomes recitados me chegaram associados às imagens que deles vi ontem no eixo Place de la République-Boulevard Richard Lenoir, mais precisamente diante do Bataclan – cujo térreo continua encoberto por uma lona branca. O mais marcante de tudo foi percorrer a rua lateral da casa noturna, onde a tecnologia nos fez acompanhar ao vivo as imagens dramáticas dos que acudiam amigos feridos e até de gente que era dissuadida de saltar das altas janelas. Fiquei bom tempo parado entre as marcas de bala 38 e 39, assinaladas pela perícia. Ironicamente, havia visitado a antiga redação do satírico Charlie Hebdo ainda em 2015 e jamais me passaria pela cabeça voltar a um endereço quase vizinho para um programa tão fúnebre quanto brutal.  

Foi só então que o presidente François Hollande se dirigiu ao microfone para experimentar um momento histórico em sua carreira política. Embora tenha certeza de que ele preferisse jamais ter de vivê-lo. Atacando o tema sem direito a introduções que poderiam soar frívolas e demagógicas, falou com firmeza e humildade do golpe covarde que foi desferido contra a França. E tudo isso, aduziu, em nome de um Deus pretensamente traído. Conclamou a Nação à solidariedade e disse que a República não deixará desamparados seus filhos. A França continuará a ser o que sempre foi. Conclamou as pessoas para que encham as salas de concerto; o terraço dos cafés onde se debatem as ideias e se diluem os conflitos; e os estádios de futebol onde reina a alegria.  

Sobre Paris, o palco do massacre, disse que é uma cidade que vive intensamente o dia e que brilha à noite. No Bataclan, que vem de 200 anos de história, tinha gente que havia desfilado ao lado dele e com o mundo na enorme manifestação de 11 de janeiro que reuniu centenas de milhares de pessoas. Acrescentou que a França não é inimiga de ninguém, e que permanecerá aliada de quem dela precisar. Falando da casa noturna, afirmou que a alegria que ali reinava era insuportável aos terroristas que tentaram calar as notas musicais à base das balas de fuzil. Repetiu o que tem sido um mantra nacional: eles têm o culto da morte e nós temos o do amor à vida. Os que caíram em 13 de novembro eram a França, toda a França.

Num tom sereno, conclamou o mundo a vencer o obscurantismo pelas armas que a Europa consagra: direito, democracia, república, e pela concertação das forças militares e de dissuasão. Nessas horas, convenhamos, o francês é uma língua insubstituível. As digressões em torno da fraternidade são intraduzíveis. Nada os levará a alimentar o medo e o ódio, vaticinou. Antes de uma nova execução triunfal da Marselhesa, dessa vez com o corpo da Ópera de Paris, disse, com razão, que o mundo todo se sente atingido quando a França está ferida. E isso por tudo o que ela representa. Referiu-se, por fim, à confiança nas gerações que virão. Outras tantas sofreram numa idade tenra os horrores. E isso não as impediu de seguir adiante. Liberdade não se vinga, ela é honrada.

Hollande falou como chefe das Forças Armadas e chefe do governo. Patriotismo é universalismo. Nacionalismo é ser contra o outro. Enquanto as pessoas se dispersavam, depois da alocução presidencial, a orquestra tocou o "Canto dos Escravos", do Nabbuco, de Verdi. Eis um momento que pertence doravante à história. E que tive o duvidoso privilégio de acompanhar a metros, no lado externo do recinto, mas antenado na emoção das pessoas que acenavam bandeiras da França e que, naquele momento, acolhiam com grandeza um presidente que pode até ser fraco em formulações, mas que tem se portado com diligência e dignidade numa hora em que o país precisa de amparo. Quantos podem pedir tanto de seus mandatários e ser atendidos?      


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