Ano novo, vida nova? Nem tanto

O cenário econômico brasileiro deve permanecer instável em 2016

Por Laura D'Angelo

laura.cauduro@amanha.com.br

Seminário Fundação CEEE

Nas conversas de elevador, na pausa para o café no trabalho, nos desabafos das redes sociais. Seja qual for a situação, neste final de ano a sociedade brasileira parece ter um único desejo: que 2015 termine logo e que, em 2016, o Brasil possa começar a escrever uma nova história. Mas se depender das previsões dos especialistas Samuel Pinheiros Guimarães Neto, Leda Maria Paulani e Roberto Padovani, o país não conseguirá enterrar o seu passado recente. Para os palestrantes do 17º Seminário Econômico (foto), promovido pela Fundação CEEE, o ambiente político e econômico devem permanecer turbulentos em 2016 – configurando um ano que de “novo” não terá nada.

As disputas políticas, que têm impedido que o programa de ajuste fiscal elaborado pelo governo seja realmente implementado, não devem se amenizar, acredita Samuel Guimarães Neto, diplomata e professor do Instituto Rio Branco. Apesar de considerar de que a questão do impeachment da presidente Dilma Roussef tenha sido superada, Guimarães Neto destaca que existe ainda um clima de inconformidade por parte da oposição. Além disso, os partidos já estariam com os olhos votados para a próxima eleição presidencial. “Temos hoje uma disputa muito forte em torno do poder de 2018”, completa. As eleições municipais também devem acrescentar um tom ainda mais acirrado ao próximo ano à cena política brasileira. Guimarães Neto aponta que, como resultado da corrida eleitoral para 2018 já iniciada, a presença do ex-presidente Lula deverá ser cada vez mais constante nas decisões do governo federal. “O Lula reassumiu o comando político da situação. Foi ele que iniciou o processo de substituição dos ministros recentemente e, agora, está colocando até o cargo do Levy [ministro da Fazenda, Joaquim Levy] em risco”, aponta Guimarães Neto.

As respostas positivas do mercado em relação às especulações da saída de Joaquim Levy são, na avaliação de Leda Paulani, professora da Universidade de São Paulo (USP), reflexo da “violência das medidas do ajuste fiscal” que assustaram não só a base governista como também os investidores e empresários. “As propostas não resolveram as variáveis principais que induziram esse ajuste. Os resultados das contas públicas e da inflação continuam ruins”, afirma. Na percepção de Leda, a atividade econômica deve se manter em retração em 2016, com uma queda de cerca de 2%, o que deverá ter impacto direto no aumento do nível de desemprego. Em compensação, a aceleração da inflação deve ser contida. “O maior impacto dos preços administrados já foi absorvido neste ano. A despeito de haver ainda algum grau de indexação da economia e por conta do fato de que teremos dois anos de retração, não acredito que haja força pelo lado da demanda para efetivar aumentos de preço da ordem que se teve em 2015”, prevê.

Nas contas públicas, Leda estima que não haja melhoras significativas. Ainda que o governo consiga melhorar seu superávit primário no próximo ano (“a duras penas e com um custo que talvez não compense”, comenta), o país deverá intensificar o seu déficit nominal por conta dos altos juros e da baixa arrecadação. Na opinião da professora, houve uma reação exagerada ao resultado de superávit de -0,6% do PIB registrado pelo país em 2014, o que induziu a um programa de ajustes muito austero que freou a atividade econômica. “Com essa política de juros, vê-se o quanto se aprofundou o déficit nominal do país. Por mais esforço que se faça no [resultado] primário, a arrecadação está caindo. Além disso, há todas as consequências sociais, como o desemprego. Todos os indicadores ficaram piores”, critica.

Lá fora

As instabilidades política e econômica nacionais em conjunto com a recuperação das economias desenvolvidas devem diminuir os investimentos estrangeiros no Brasil, aposta Roberto Padovani, economista do banco Votorantim. Segundo ele, o mundo vive um momento de “rebalanceamento de forças”. Enquanto as economias emergentes, lideradas pela China na última década, diminuem o ritmo de crescimento, nações como Estados Unidos, fortemente afetados pela crise bancária de 2008, voltam a se consolidar. “Os mercados emergentes, de modo geral, costumam ser vistos como lugares confusos, politicamente agitados e em processo de correção de rumos. A estratégia para investimentos globais é ir para mercados mais seguros. Isso reduz fluxos para o Brasil”, explica Padovani.

O ciclo de commodities também deve seguir desacelerando, o que provocará uma crescente valorização do dólar nas economias emergentes, inclusive no Brasil. No entanto, a depreciação do real é vista de forma positiva pelos analistas, pois é uma forma de recuperação da competitividade da indústria brasileira. “A médio prazo, vamos resgatar a capacidade de exportar e crescer via correção do câmbio”, considera Padovani lembrando que, no momento, o setor exportador é pouco representativo e não tem condições de impulsionar o crescimento da economia brasileira. Leda entende que a valorização do dólar também ajudará no resultado positivo da conta corrente da União, ainda que em razão da diminuição das importações e não pelo aumento das exportações. Enfim, ao menos um motivo positivo para o Brasil comemorar a entrada em 2016.


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