Cesar Leite: "Ninguém escapa da nuvem"

Presidente da Processor afirma que os céticos já migraram para o cloud

Por Eugênio Esber

eugenioesber@amanha.com.br

Cesar Leite, presidente da Processor

Apaixonado por ficção científica e pelos filmes de Stanley Kubrik, Cesar Leite (foto) está convicto de que o próximo capítulo na vida da Processor, empresa de TI que fundou há 27 anos, será uma odisseia na nuvem. Desde que ele, pouco mais que um adolescente, fundou a companhia admirado com as oportunidades da então chamada “microinformática”, várias foram as mudanças de rota até chegar à decisão de incorporar, ao logo da Processor, a definição The Cloud Company. “Aqui nós seguimos a lógica de que a constante é a mudança”, diz Leite, um homem de tecnologia que resolveu cursar Administração e, na hora de buscar uma especialização, enveredou pela psicologia. Leite conversou com AMANHÃ sobre o que há de consistente e o que é onda em relação à computação em nuvem.

A computação em nuvem é um modismo ou é um real divisor de águas?
A tecnologia sempre teve momentos de promover certas ideias e lógicas capazes de criar rupturas, modificar paradigmas e gerar avanços. É um processo evolutivo e cíclico. Às vezes, é necessária a proposição de uma ideia, simplesmente, para depois então, sim, ela efetivamente se materializar. Primeiro, alguém pensa. E então alguém tenta dar materialidade prática a isso. A ficção científica tem um papel interessante nisso. Veja o caso do tablet, por exemplo. Se nós pensamos em Jornada nas Estrelas, uma série que começou em 1964, nos Estados Unidos, já existiam, lá, os tablets. O capitão Kirk assinava em um tablet certas coisas. Lá também estavam os cartões de memória, entre outras novidades. E também estava lá a interface oral com o computador, com sentenças. Muito bem. Então, são três conceitos que foram postos lá, e que também já tinham sido abordados em livros – mas ali foram materializados e universalizados. Tornou-se uma coisa comum.

Mas muito tempo se passou até que o conceito tivesse materialidade.

Na década de 1990 algumas companhias fizeram os primeiros tablets, mas eles não eram suficientemente bons nem adequados. E aí chegou um determinado momento no qual alguém fez um produto superior, com uma interface diferenciada, e isso tomou o mercado e virou padrão. Isso virou, a partir daí, um hype, um modismo. Passado um certo tempo, agora voltou ao contexto natural. Qual é o contexto natural? Na verdade, o que todo mundo queria era uma interface que fosse fácil de utilizar, que fosse touch, e que estivesse disponível em vários dispositivos. Agora está: está disponível no celular, no próprio tablet, nos notebooks, nos desktops. Ou seja, aquele conceito está arraigado em vários lugares. Então, a tecnologia tem esses contextos. A partir de uma certa frente, estabelece-se um certo conceito, uma certa possibilidade... Com o passar do tempo, a teoria se viabiliza tecnicamente, em um segundo momento ela se desenvolve em escala e a partir daí, populariza-se e aquele contexto viabiliza outros contextos.

Há ou houve algum exagero na venda do conceito de computação em nuvem?
A computação em nuvem é um conceito que já existe há bastante tempo, sob o ponto de vista prático. A maioria dos e-mails que as pessoas utilizam, esses e-mails que são públicos, digamos assim, já são em nuvem há muito tempo. Existem vários serviços que já estão, que já têm, essa dinâmica. Um Hotmail da vida já era uma nuvem. O que acontece neste momento é que, depois que esse conceito foi percebido como muito positivo e começou a se disseminar, novos conceitos sobre essa disseminação foram estabelecidos, e a partir daí a coisa se tornou cada vez mais evolutiva e propositiva. Então, computação em nuvem tem um componente de hype, tem um componente de onda, mas ela é definitiva sob o ponto de vista do formato de trabalho e do formato de utilização da tecnologia.

E o que se sobressai nesse novo formato de trabalho que baixa dessa nuvem?
É que, em um mundo no qual nós temos muitos dispositivos e temos muitas interfaces de acesso ao que precisamos, não faz sentido a informação estar disponível dentro do dispositivo. Faz sentido ela estar centralizada, organizada, e acessível a todos em vários formatos. Quais são os formatos de acesso? Nós vemos hoje os celulares, os computadores, vemos um avanço das TVs, mas nós vamos ver outras interfaces: o carro, os eletrodomésticos, os aparelhos de som, os aparelhos de segurança. Isso cada vez mais vai avançar, de forma tal que as suas preferências, o seu jeito, as suas cores, o seu formato, tudo  estará de uma forma ou de outra disseminado entre todos os dispositivos que você estiver utilizando para acessar a informação ou trabalhar com ela. E a computação em nuvem facilita esse processo, porque ela cria um modelo de centralização da informação barato, porque tem escala, e é elástico.

Elástico?
O modelo é elástico porque você não mais está vinculado à capacidade de processamento de execução daquele dispositivo, e sim a uma parafernália que está por trás. Esse modelo é elástico, dinâmico, porque é capaz de lidar com momentos de pouco uso e momentos de intenso uso. Lembremos que em momentos como Natal, Dia das Mães, ou Black Friday, você precisa de uma capacidade adicional – mas na segunda-feira subsequente você já não precisa mais.  E a mudança talvez seja a coisa mais importante aqui: é que você passa a consumir tecnologia como serviço, e não mais como propriedade. Isso é o major shift que vem junto com a questão da computação em nuvem. Ou seja, estamos saindo de um mundo que, lá atrás, era baseado em hardware, e que passou para hardware com software, migrando para software e, hoje, é software com serviço. Mas, na sequência, será serviço. As pessoas querem usar a tecnologia.

E qual é o lado hype, como você disse, dessa tendência? Onde está o exagero, o modismo?
O componente de hype é tudo ser cloud. Nem tudo será cloud. Eu não imagino, por exemplo, um Banco Central brasileiro operando 100% cloud, porque tem um contexto de segurança que precisa ser considerado. Algumas coisas é melhor estarem desconectadas da tomada. É mais seguro. O hype é isso: todo mundo querendo dizer que é cloud, que pratica cloud... Não é bem assim.  As aplicações e os softwares têm de ser efetivamente organizados, preparados e integrados.

E o que vem depois da computação em nuvem?
Como eu disse, a tecnologia é evolutiva e é cíclica. O contexto de cloud computing vai dominar o formato de uso da tecnologia por anos à frente, porque ainda há muito o que fazer nesse processo de transformação. Então, não dá para dizer quando que é que começa, digamos assim, a próxima etapa. Ainda é muito cedo. Mas dá para dizer que tem um caminho importante a seguir, porque esse formato é muito conveniente, a tecnologia toda está vindo para esse contexto. Um dia na vida, pegando aí o exemplo de locação de filmes pela internet, você comprava o filme, depois você ia na locadora pegar o filme. Agora, você vai para o seu computador ou para a sua TV e faz o processo de seleção de uma quantidade de títulos e coloca isso para utilizar. É difícil imaginar que esse modelo não vai evoluir cada vez mais e que nós vamos voltar a ter locadoras. Não vamos ter. Se nós olharmos no mercado, um dia na vida as grandes capitais tinham uma quantidade incrível de locadoras, como farmácias. Hoje já não é mais assim. São raras. Eu, particularmente, não me lembro de nenhuma aberta nesse momento. Faz parte do jogo.

Os grandes escândalos de vazamento de informações e espionagem eletrônica, como o que envolveu a Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, não tornam arriscada a decisão de muitas empresas de migrar para a nuvem?
Olha, em uma época não muito distante, o computador que a empresa dava para você era melhor que aquele que você tinha em casa. Hoje, é o contrário. Com a consumerização, e diante da ampla globalização da tecnologia e do empoderamento do usuário, que tem amplo acesso às  ferramentas, hoje quem dá o norte, quem dá o drive das tecnologias, são as pessoas físicas, são os consumidores de tecnologia: de gadgets, de aplicativos... Exatamente porque as pessoas têm hoje um equipamento mais interessante do que havia dentro do seu ambiente de trabalho é que se gerou o conceito tão divulgado – na verdade, outra hype – do BYOD (sigla em inglês para “Traga seu próprio equipamento”). Profissionais e executivos têm notebook, têm computador em casa, têm tablet, têm celular, têm conexão 4G... E as empresas têm de lidar com essa parafernália. A tecnologia, a cloud, a internet, a informação, tudo isso é onipresente hoje. Nesse contexto, a decisão de migrar ou não para a cloud é um contexto superado, não existe mais. O cara já migrou. E já migrou porque o Netflix dele é cloud. O Waze dele é cloud. O Whatsapp é cloud. O Facebook é cloud. O Google é cloud. O Office dele é cloud. O e-mail dele é cloud. Então, ele já está lá na nuvem. E como ele já está lá, as barreiras são muito mais culturais do que propriamente técnicas. 

É um caminho sem retorno?
Sem retorno. Claro que é preciso fazer uma migração paulatina das aplicações, sempre levando em consideração o  custo/benefício. Óbvio que em muitas organizações há instalações e equipamentos que já estão pagos, e então possivelmente não seja o caso de fazer a migração daquele serviço para a nuvem, por se tratar de um nicho da atividade. Mas o mainstream vai, de um jeito ou de outro. E quem não foi, está indo. Os  resistentes, digamos assim, estão perdendo tempo, porque cloud em linhas gerais  é mais seguro do que ter em casa, e em linhas gerais, é mais barato e tem uma performance mais elástica e dinâmica. Eu lembro de nós, aqui, entregando projetos: muitas vezes nós precisávamos demorar 60, 90 e 120 dias para iniciar alguma coisa, porque tinha de chegar uma memória de servidor, ou mais discos, ou equipamentos que tinham de ser importados. A entrega física era importante...

O problema logístico, para o mundo da tecnologia, desapareceu?
Hoje, obviamente ainda existem coisas para serem entregues, existem grandes computadores que exigem grandes instalações. Mas é uma parcela pequena se você pensar no todo. O fato é: se sobra um servidor na cloud em minutos, mas ele não é não é suficiente, você sobe um próximo servidor em nove minutos. Então, é tudo muito rápido. E esse muito rápido é compatível com a realidade do mundo hoje. Ninguém quer esperar. Se você acessa um website e ele não lhe responde, você passa para o próximo. Ninguém hoje aceita esperar. As pessoas querem consumir, querem informação, velocidade. Se um site não se atualiza, um site de notícias não se atualiza frequentemente, ele é relativizado. Então, existe uma questão de velocidade aqui. Alguns já disseram no passado que o mundo se dividia entre os rápidos e os lentos... Eu diria que hoje o mundo se divide entre os muito rápidos e os rápidos, e, logo na sequência, o mundo vai se dividir entre os absurdamente rápidos e os muito rápidos, e depois entre os exponencialmente e os logaritmicamente rápidos. O mundo hoje é veloz, e, obviamente, você não pode surfar qualquer onda, tem de ter discernimento, mas se você fica para trás, você ficou para trás.

Nesta era ultraveloz, segurança é cada vez mais difícil, não?
Cloud não tem, no final do dia, problema de segurança. Tem as lacunas que existem em absolutamente qualquer tecnologia, mas muito provavelmente você está mais seguro com uma informação na cloud do que você está seguro com uma informação no seu equipamento pessoal. Perda de dados é possível? Claro, é possível em qualquer lugar. Mas se você está em ambientes que são confinados, que são protegidos, que têm especialistas por trás, os riscos continuarão a existir, mas serão infinitamente menores que aqueles em que as pessoas incorrem em casa ou no seu cotidiano. E as pessoas já estão sujeitas a esse risco, volto a enfatizar. Eu não vejo ninguém falando que o Netflix arrebentou a estrutura tecnológica da empresa, ou da casa. Nem o Waze. Os riscos são os riscos normais.

Mas, em uma infraestrutura como a brasileira, os riscos não são muito maiores?
O Brasil está pari passu com o mundo sob o ponto de vista tecnológico. Existem alguns mercados, inclusive, em que o Brasil talvez seja superior. O mercado de soluções bancárias, por exemplo. Em tecnologia para a área bancária, o Brasil é número um do mundo. Em alguns mercados de games, o Brasil é top player. Em certos tipos de aplicações focadas em gestão empresarial, o Brasil é igualmente muito bom. A dificuldade está nos serviços de telecom, que são incompatíveis com a demanda. O Brasil é o quarto maior consumidor de internet no mundo, mas com muito menos wi-fi, com muito menos links... Em resumo, o Brasil não tem uma telecom compatível com a sua realidade. Nossa ambiência tecnológica tem inconsistências, como o fato de nossos cabos serem aéreos e não suberrâneos, o que gera muito mais risco e muito mais manutenção... A legislação é insuficiente. Não temos ligação por cabo diretamente com a Europa – é preciso passar pelos Estados Unidos. Então, temos na área de tecnologia lacunas de infraestrutura que são as mesmas de nossas pontes e estradas.

Há relatos de empresas que tiveram problemas ao integrar sua infraestrutura com a nuvem. E casos em que o custo de migração para a nuvem foi mais alto que o previsto por quem vendeu a solução.
É um ponto de atenção. Toda fumacinha revela que tem algum fogo. O que acontece aqui? Se eu tenho um ambiente estabelecido, que a gente pode chamar aqui de legado, é conveniente fazer essa migração para a nuvem em etapas, em fases, em anos, convivendo com uma coisa que nós chamamos de ambiente híbrido. Ou seja, a empresa fica parte na sua realidade existente - na sua realidade legada – e parte na nuvem. Digamos que esse é um caminho natural. À medida em que as coisas vão acontecendo, você vai sendo cada vez mais livre e cada vez menos legado. E esse híbrido vai se completando. É o ciclo natural evolutivo.  O tempo que isso vai levar, se é questão de semanas ou meses, vai depender de como é o “ataque”, isto é, da ênfase que se dará a esse processo de migração. Há empresas que fazem a migração no formato Big Bang – que não é o melhor para certos movimentos.

Como é o Big Bang? É uma integração radical?
É uma integração radical: desliga aqui, liga ali do outro lado. Mas não entendemos que esse é o melhor caminho. Agora, já existe um outro caso interessante: empresas que já nascem na nuvem. Nós temos hoje clientes assim: o cara não tem legado. Então, já tem um benefício muito interessante porque ele já nasce compartilhado, ele já nasce colaborativo.  As startups de hoje nascem na nuvem. Elas não têm legado. Mas, voltando ao assunto da migração, nós entendemos que o caminho híbrido é o caminho natural, e que ele é um caminho que tende a ser, digamos assim, consistente sempre. Nós não entendemos que as empresas devam migrar 100% do que elas têm para a nuvem... Se você nasce na nuvem, ok, você vai ser 100% nuvem. Mas se a empresa já existe é melhor ir fazendo a migração de parcelas importantes, começando com 10, 15, 20%... 

E o que explica o alto custo em certos casos?
Tem a ver com falsas expectativas, tem a ver com uma não percepção do todo. Tudo custa. E onde a nuvem se torna competitiva é em processos que se beneficiam do fato de que é elástica, é dinâmica. Com a nuvem, você não precisa investir em certas coisas. Não precisa, por exemplo, comprar um megasservidor para o Natal. Por exemplo, você não precisa comprar megasservidores para o Natal, se você é do varejo, porque a nuvem é elástica, e vai lhe atender bem naquele contexto.  Nisso ela é imbatível. Como qualquer coisa na vida, você tem de fazer esse movimento de forma consistente e organizada. Mas, ao longo do tempo, ficará claro que a nuvem exige menos intervenção e menos administração. Você não vai administrar tanta tecnologia. Você vai, muito mais, consumir tecnologia.


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