Vai, mas não volta

Uma empresa não contrata profissionais que já passaram pelos seus quadros. Faz sentido?

Por André D´Angelo

Empresa gaúcha adota como política de RH não mais admitir funcionários que já passaram pelos seus quadros

Semana passada, fiquei sabendo que uma conhecida empresa com sede no Rio Grande do Sul tem uma curiosa política de RH: a de não contratar profissionais que já tenham passado pelos seus quadros. Diferentemente de uma “lista negra” cuja intenção é evitar que profissionais afastados por mau desempenho ou desvios de conduta retornem à companhia, a prática estende-se a qualquer um que já tenha ostentado o crachá de funcionário, mesmo que a saída tenha sido voluntária e/ou a performance, a seu tempo, satisfatória.
 
Uma política curiosa, para dizer o mínimo, e não muito inteligente, na minha opinião.
 
Numa época em que as empresas incentivam o empreendedorismo interno, a contribuição com ideias novas e o arejamento da gestão a partir da troca de experiências, uma empresa fazer uma espécie de chantagem com seus empregados, do tipo “ame-a ou deixa-a”, não tem o menor cabimento. Estimula a fidelidade pelo medo de arriscar, e não por qualquer atributo positivo.
 
Um exemplo hipotético. Determinado funcionário sente-se estimulado a ter seu próprio negócio. Deixa a companhia e vai à luta. Por algum motivo, a empresa não vinga e ele se coloca à disposição do mercado novamente. Para seu ex-empregador, aparentemente, a experiência empreendedora, mesmo mal-sucedida, não tem valor algum.
 
Ora, sabemos que não é assim. Tentar um negócio próprio, mesmo que sem sucesso, é uma excelente experiência profissional. É uma oportunidade de aprendizado ímpar, capaz de agregar maturidade ao profissional justamente por colocá-lo no papel de empresário, que requer habilidades e talentos bem diferentes daqueles exigidos de um empregado. Trata-se, portanto, de uma chance de autoconhecer-se como profissional, de praticar uma espécie de checagem das próprias capacidades técnicas e das nuances que compõem seu perfil psicológico, ao mesmo tempo em que se aprende a entender melhor o lado dos patrões.
 
Imaginemos, agora, que tal tentativa de voo solo ocorreu em um negócio digital. Nesse caso, o valor da experiência se multiplica. Afinal, trata-se do negócio do presente e do futuro. Para uma empresa minimamente antenada com o que ocorre no mundo, um ex-empreendedor digital possui, no mínimo, um perfil tão atraente quanto o de outro que tenha percorrido uma trajetória em empresas “convencionais”.  A tentativa de um empreendimento no mercado virtual confere ao profissional uma espécie de selo de ousadia e dinamismo, atributos que o habilitariam a trabalhar em qualquer organização moderna, penso eu.
 
Por isso, não consigo entender o porquê de tal política de recursos humanos. Constitui uma inflexibilidade tola em uma época líquida, inclusive para questões profissionais. Entrar, sair, voltar, sair de novo – qual o problema? Não é assim que se oxigena uma organização? Não é assim que as empresas permanecem vivas e vívidas?
 
Pelo visto, para esta companhia, a resposta é não...


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