A tal da lógica

Quem disse que os portugueses são um pouco alemães?

Por Fernando Dourado Filho, de Covilhã, Portugal

Covilhã, em Portugal

Amo Portugal. Sou descendente distante de portugueses e adoraria viver nesse país admirável. Mas não posso negar que tenho dificuldade em entender alguns atributos da lógica local. Toda hora escuto coisas que me desconcertam, apesar de também divertirem. Vejam bem essa. Em Coimbra tem um ônibus cujo destino traz no letreiro luminoso a palavra Manutenção. Ostentam sim o número que me haviam indicado – 34 –, mas todos estão a caminho da manutenção, na minha forma de ver. Intrigado porque estavam lotados, acenei para um e o motorista parou. “O senhor está levando passageiros?”, perguntei. Ele me mostrou os bancos cheios com ar de quem duvida de minha sanidade. “Mas não vai para a manutenção?”, insisti.  “Sim”, disse ele. “Mas eu quero ir para o estádio”, informei. “Pois é esse mesmo, pode subir”, respondeu. Ora, pois, Manutenção é um bairro. E lá tinha ficado eu uma hora no frio. Todos olharam para mim com pena. Uma senhora perguntou: “Brasileiro? Logo percebi”. Eles são gozadores também.
 
De outra feita – e essa é história mais antiga, mas boa para contextualizar até as formas da sinceridade –, resolvi comprar uma gravata e o vendedor queria que eu levasse uma camisa. Disse-lhe que não funcionava. Que eu tinha braços curtos e colarinho grande. Camisa, só de camiseiro, sob medida. Ele insistiu. Provei-a. Efetivamente, ficaram bem as mangas, mas péssimo o colarinho. Então eu disse: “Está vendo que eu tinha razão?” Ele contestou. “Está muito boa, está bestial, esse é o número certo”, declarou. “Mas o colarinho está cá embaixo”, rebati. Ele não hesitou: “É a medida certa, já que o senhor não tem pescoço.” Como é que é? “Não tem pescoço”, repetiu. “Eu não tenho pescoço?”, indaguei. “Lógico que não. Não sabia?”, desdenhou. Eu passei dias com uma espécie de complexo. A muito custo, levei a gravata. À noite, meio encharcado de vinho e ainda deprimido, liguei para minha mãe: “Uma curiosidade, mãe, a senhora acha que eu tenho ou não pescoço?” Levei uma bronca monumental. “Ele já foi maior, meu filho, mas você ainda tem, apesar de ter engordado. Um conselho: pare de beber e vá dormir. Acaso não tem espelho no seu quarto?”, disse. 
 
Já nesse ano, em voo recente, o comissário disse que não tinha mais água com gás a bordo da classe executiva – algo vital para matar a sede da madrugada. Eu fiquei frustrado e desabafei: “Não diga isso, meu amigo”. E ele rebateu: “Digo.” Então sugeri que fosse ver se na cabine da econômica – bem maior – não sobrara nenhuma. Ele aceitou a ideia e foi até lá. Voltou animado com a confirmação. Sim, eles tinham. “E onde está?”,questionei.  “Ah, era para trazer?”, rebateu o comissário. Sei que não adiante jurar e que isso é expediente de criança. Mas asseguro por tudo o que me é sagrado que foi exatamente assim que as coisas aconteceram.
 
Da mesma forma que, na segunda-feira, dia de Finados, depois de sete noites, fiz o check-out do bom hotel Dom Luís, em Coimbra. Durante uma semana, trabalhei com uma linda vista sobre o Modego e, regularmente, aceitei o serviço de van que o hotel disponibiliza para ir até o centro da cidade. Lá ia esticar as pernas, tomar um café na Briosa, comer um pastel de nata, visitar a universidade imponente e voltar a meus afazeres. Sempre saltando no largo da Portagem e, de lá, saindo no horário aprazado de volta. Pois bem, no domingo, torci o pé. Sabendo como são as coisas, pedi à gerência que permitisse ao motorista que me levasse com a mala estofada de livros até a rodoviária, apenas 800 metros adiante. Isso me pouparia da chuva, da mudança de transporte e de forçar o tornozelo inchado. Pois bem, não autorizaram. E tive que saltar ali para pegar um táxi mais adiante. De tão próximo, o taxímetro sequer rodou. Custou o preço da bandeirada: 3,25 euros. Pergunto: como é que se queima uma amizade por tão pouco? Infelizmente é o regulamento, senhor Dourado. Quem disse que eles são um pouco alemães? Não lembro. Mas, convenhamos, alguma razão tinha.      


leia também

A sabedoria de Boni, o global - "Ainda estamos a centenas de anos-luz do nível médio europeu", vaticinou com alguma tristeza

América Latina ainda é destino de investimentos em 2015 - É o que pensa Venancio Castañon, executivo que estuda a região

Gastronomia e resistência - Mexer com o significado dos alimentos diante dos povos é cutucar fera com vara curta

Mário Soares e o estadismo - Ele se notabilizou por uma característica que lhe valeu em Portugal o apelido de "o Rei”

O mais novo xodó da Europa - A comunidade de negócios percebe claramente que o pior ficou para trás. E que o futuro sorri para Portugal

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: