Como o dólar interfere na estratégia da Gerdau

Maior empresa do Sul tem perdas e ganhos com moeda norte-americana

Por Marcos Graciani

graciani@amanha.com.br

Unidade da Gerdau

Os números do terceiro trimestre da Gerdau talvez não demonstrem todo o cenário desafiador que o setor tem enfrentado. A maior empresa da região, de acordo com o ranking 500 MAIORES DO SUL, publicado por AMANHÃ em parceria com a PwC, viu sua receita líquida aumentar para R$ 11,9 bilhões entre julho e setembro deste ano – um salto de 11,4% em relação ao mesmo período de 2014. As vendas físicas alcançaram volume de 4,6 milhões de toneladas, ou avanço de 2,4% sobre o trimestre do ano anterior. Entretanto, a produção consolidada de aço, de 4,2 milhões de toneladas, teve 6% de redução frente ao mesmo período do ano anterior.  A readequação dos níveis de estoque em todas as operações foi o motivo dessa diminuição. “Nossa capacidade de gestão tem gerado esses resultados”, comemorou na manhã desta quinta-feira (29) André Gerdau Johannpeter, diretor-presidente da empresa, durante conferência para jornalistas. Prova disso é a redução de 4,5% nas despesas com vendas, gerais e administrativas. Porém, se a variação cambial do período for excluída, a queda alcança o patamar de 17%. Aliás, o dólar tem sido um personagem cada vez mais importante na estratégia da empresa.

A crescente desvalorização do real, por exemplo, forçou a companhia a antecipar o teste de baixas contábeis, ordem que todas as empresas que seguem o padrão IFRS [sigla de International Financial Reporting Standards, que traduzido significa Normas e Padrões Internacionais de Contabilidade. No Brasil, as novas regras de práticas contábeis mudaram a partir de janeiro de 2010] devem fazer anualmente. Por isso, o resultado no trimestre foi influenciado por itens não-recorrentes, principalmente de imobilizados e ágio, no valor de R$ 2,2 bilhões, não trazendo impacto no caixa. Com isso, a Gerdau apresentou geração de caixa operacional (EBITDA) e lucro líquido ajustados. O EBITDA alcançou R$ 1,3 bilhão, 4% superior frente ao terceiro trimestre de 2014. O lucro líquido consolidado, também ajustado, foi de R$ 193 milhões. Considerando os mesmos itens, o resultado contábil negativo foi de R$ 1,9 bilhão. 

A disparada da moeda norte-americana, porém, tem ajudado na ponta da receita. As exportações a partir do Brasil apresentaram aumento de 179%, atingindo 811 mil toneladas. O efeito positivo da variação cambial na conversão para reais da receita gerada em dólares veio da operação América do Norte (inclui usinas produtoras de aços longos no Canadá, Estados Unidos e México).  Na operação de aços especiais (as usinas no Brasil, Estados Unidos, Espanha e Índia), foram vendidas 617 mil toneladas, uma redução de 13% em relação ao terceiro trimestre de 2014 devido à forte queda de demanda do setor automotivo no Brasil e da redução das vendas para o setor de óleo e gás nos Estados Unidos. O resultado negativo ficou por conta das vendas físicas para o mercado interno brasileiro.  No trimestre, a companhia comercializou 1,1 milhão de toneladas, queda de 18% em relação ao mesmo período do ano anterior. O menor nível de atividade da construção civil e da indústria foram as principais razões para a retração. 

Outra forma de analisar como a variação cambial interfere na estratégia da companhia é seu nível de investimento. No terceiro trimestre, o Capex [aportes em ativo imobilizado] chegou a R$ 509 milhões, uma redução de 21% perante o segundo trimestre deste ano. Até setembro, os investimentos totalizaram R$ 1,8 bilhão, valor já próximo do previsto para todo o ano. Diferente do que a lógica apressada possa concluir, a companhia não investirá mais do que o valor inicial – pelo menos não em dólares. “Como fizemos um planejamento com base em uma cotação média da moeda, muita coisa pode mudar, mas não será o caso. A própria diminuição do Capex que tivemos no último trimestre já é uma medida de disciplina para nos manter em linha com a meta proposta”, explica Gerdau. “Imagino que devemos passar o valor em reais, mas isso manterá nossa geração de caixa livre positiva [no semestre, esse valor foi de R$ 1,6 bilhão. No acumulado do ano, R$ 1,8 bilhão]. Enfim, temos de gerenciar trimestre a trimestre, pois o efeito do câmbio é sentido tanto no Capex como no caixa”, emenda.  Entre os destaques de investimentos até agora estão a instalação do laminador de chapas grossas na usina Ouro Branco (MG) e da construção da aciaria na Argentina. Ambos têm previsão de entrada em operação no segundo semestre de 2016.

Oferta pública
A companhia também anunciou que realizará uma oferta pública de ações ordinárias e preferenciais (OPA). A transação envolverá a emissão de 500 milhões de ações. O aumento de capital deve girar em torno de R$ 1,3 bilhão. “Não podemos dar mais detalhes, a não ser o que já foi comunicado no Fato Relevante. Vamos utilizar esse valor para redução da dívida da empresa e aumentar a liquidez. Os controladores estão comprometidos com sua parcela na parte prioritária da oferta, ou seja, as ações ordinárias. Caso sobrem papéis desse tipo, os controladores vão adquiri-los”, prevê Harley Scardoelli, vice-presidente executivo de finanças da Gerdau. O executivo assumiu o cargo em julho na vaga de André Pires de Oliveira Dias. A conclusão da operação está prevista para 24 de novembro.

O Santander emitiu um relatório sobre a OPA anunciada pela Gerdau. “A Metalúrgica é uma holding alavancada que tem os dividendos da Gerdau como única fonte de recursos para seu serviço da dívida. Dado o aumento da taxa de juros e o risco do pagamento de dividendos da Gerdau, ela provavelmente consome caixa . [Por isso], a oferta de ações seria um alívio” afirma o relatório que é assinado por Felipe Reis e Renato Maruichi. Para a XP Investimentos, o resultado veio acima das expectativas. Porém, a dinâmica do setor (principalmente o cenário interno) e o alto nível de alavancagem da companhia, ainda preocupam a corretora. 

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