A sabedoria de Boni, o global

"Ainda estamos a centenas de anos-luz do nível médio europeu", vaticinou com alguma tristeza

Por Fernando Dourado Filho, de Coimbra, Portugal

Terminal 3 do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo
Domingo passado, eu perambulava pelos enormes corredores do terminal 3 do aeroporto de Guarulhos, matando tempo até tomar o voo para Portugal. Dando uma olhada rápida no comércio estabelecido naquela que é a mais moderna instalação do gênero do continente, vi uma enorme fila na porta de uma sorveteria de inspiração e nome italiano. Não havia um só sabor de fruta tropical das dezenas de maravilhas que encontramos em Salvador, Recife ou Belém. Relevei porque, afinal, o aeroporto está em São Paulo – Estado que desconhece esses exotismos e até reage mal a eles. Mas imaginei a decepção do cliente estrangeiro e lembrei do sorveteiro do aeroporto de Istambul, de barrete e caixa de madeira antiga, a vender sabores artesanais com uma pazinha, como nos tempos do Império Otomano. 
 
Quando fui às livrarias, nova decepção: elas são duas, se é que se pode denominá-las assim. Uma pertence  a uma rede francesa e outra a uma rede norte-americana. A escolha de livros, jornais e revistas é ínfima. Noventa por cento dos títulos é sobre dietas e enriquecimento instantâneo. A segunda ainda tem umas patranhas de auto-ajuda – o que dá no mesmo. Mas não sejamos ásperos e sigamos adiante. Afinal, se a presença de marcas globais nos duty-free shops é inevitável onde quer que se vá nesse mundo, é chocante que em meio a dezenas de lojas só se encontre duas ou três que, bem ou mal, vendam produtos que se possam considerar brasileiros. Tem uma de sandálias japonesas – que aqui ganharam projeção mundial, apesar de ter o nome de um arquipélago norte-americano no meio do Pacífico; e duas joalharias de origem carioca que estão presentes em alguns lugares do mundo. 
 
O que mais? Bem, o resto da paisagem comercial se compõe de bares com jeitão retrô californiano e garotos de cabelo wet look treinados para dar performances enquanto preparam um Bloody Mary, um Hi-Fi, um Gin Fizz ou Manhattan. Claro, sempre poderão fazer uma caipirinha. As lanchonetes são do feitio dos franqueadores, geralmente estrangeiros, e pobres daqueles que deixaram para saciar a fome com o tempero local depois das formalidades de controle de passaporte. Não encontrarão virtualmente nada nacional e terão que se contentar com sushi, hambúrguer ou fajitas.    
                   
A situação fica dramática quando, ao final das longas passarelas rolantes, antes de se virar à direita rumo ao corredor dos fingers, o viajante depara com uma loja duty free de comida para levar para o destino. Em qualquer lugar do mundo por onde se transite, sempre haverá um pequeno quiosque com alguma coisa da terra. Pode ser um doce de leite; sacos de pistache; um bolo regional; uma cocada; um destilado; um salgadinho da vovó; uma compota de ameixa, enfim, qualquer coisa que traga a marca do país – ou mesmo da cidade – por onde se transita. Sabem o que se vende na pequena loja de delicatessen da partida do imponente terminal? Queijos italianos, manteiga dinamarquesa, presuntos espanhóis, paios portugueses, ovas de salmão russas, alfajores argentinos, chocolates suíços e salsicharia alemã. Não acredita? Pois confira. Entendamo-nos bem: não quero ensinar comerciantes a ganhar dinheiro. Mas o contraste com o que se vê no mundo é acachapante. Dir-se-ia uma nação sem identidade, um entreposto gigante – a serviço de marcas alheias à cultura hospedeira. 
 
Para concluir, pegue-se um país de dimensões acanhadas como este de onde escrevo hoje: Portugal. Pois bem, no aeroporto de Lisboa se come farta variedade de temperos locais; se compram obras dos melhores escritores do país; se ouvem fados divinos em cantinhos dedicados à cultura e se encontram experts em vinhos por região: Douro, Alentejo, Algarve. Isso é o que se chama de economia criativa. Daí a vontade das pessoas em voltar mais vezes. 
 
Já concluo. Uma vez eu conversava com Boni, ex-Globo, no bar do Fasano antigo, na imponente casa da Hadock Lobo, São Paulo, na presença do sommelier Manuel Beato. Falando de nossa culinária e enologia, ele fez uma expressão de certo enfado. "Sou filho de espanhóis e nasci aqui em Osasco. Viajo um bocado e procuro sempre o melhor onde vou. Vou te dizer uma coisa. Nós ainda estamos a centenas de anos-luz do nível médio europeu. Muita água passará sob a ponte até que tenhamos uma valorização do terroir digna do nome", vaticinou com alguma tristeza. Quem caminha pelo principal terminal aéreo brasileiro dará razão ao mago da audiência, mesmo passados quinze anos dessa conversa. Infelizmente. 

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