A magia do vinho no sudoeste da França

Fernando Dourado Filho conta como a bebida pode mudar o rumo dos negócios

Por Fernando Dourado Filho*

Vista do Sudoeste da França, região produtora de vinhos

Ela se chamava Madame Poux e o marido falecera alguns anos antes de nosso encontro. Viúva, morando numa linda cidade ao pé dos Pirineus, ela resolveu manter a representação para venda de nossos fios têxteis para a Tunísia, onde mantinha velhas conexões dos tempos em que lá moraram. Ocorre que aquela ligação com o norte da África me parecia tênue. No vigor de meus 28 anos, eu queria uma presença de impacto no mercado. Era hora de mexer no cenário e destituí-la. 

Tomei um voo da Air-Inter – a subsidiária da Air France para rotas domésticas – e cheguei a Pau decidido a anunciar a ruptura de nossa relação. Que Madame Poux fosse usufruir da vida nas montanhas vizinhas; que fosse cuidar dos netinhos; ou mesmo tricotar um cachecol bonito para si própria. Mas o ímpeto de nossa organização de jovens guerreiros já não comportava pessoas que não se fizessem presentes junto aos clientes de forma continuada e vigilante. 

Chegando ao aeroporto, lá estava ela no pequeno terminal a me acenar. Com a voz entrecortada que só as velhinhas francesas sabem ter, ela me levou ao escritório doméstico e lá falou dos anos que vivera com Monsieur Poux na África e na alegria que sentia ao saber que soubera manter laços. Sim, mantivera os clientes e eles se tornaram amigos. Era, a seu modo, uma forma de render homenagens à memória do falecido Georges, um idealista da paz e partidário da descolonização. Meu coração começou a amolecer.

Na hora do almoço, ela me levou a um pequeno bistrô de uma amiga. Para acompanhar o delicioso "tournedos aux morilles", ela pediu um Chassagne Montrachet com a naturalidade que eu pediria uma cerveja num dia de verão. A essa altura, minha belicosidade já se transformara. De algoz de Madame Poux, eu começava a me sentir um aliado. Depois de falar dos negócios, ela se saiu com os planos para o futuro naquele país acolhedor onde fora tão feliz. Eu já estava rendido. 

Quando passamos aos queijos de cabra da região, Madame Poux não hesitou em pedir um Sancerre refrescante e, posso garantir, me acompanhava com galhardia a cada taça sorvida. A essa altura, a dona do restaurante e amiga, já fechara a cozinha e se juntou a nós em torno da pequena mesa. Empolgado com tanta empatia – ela também amava Victor Hugo –, eu já compartilhava da visão de Madame Poux e pensava até em lhe expandir os domínios para a vizinha Argélia. Por que não? 

Quando por fim chegou o sorvete de pera caseiro com bolinhas de chocolate, eu não tive como dispensar o Calvados generoso, cuja garrafa já ficou na mesa. De saída para o aeroporto, Madame Poux me presenteou com mais uma garrafa de Chassagne Montrachet para que eu levasse uma boa lembrança daquele recanto do mundo. Despedimo-nos como velhos amigos e prometi que voltaria na primavera. Na expressão serena da velhinha, um sorriso maroto. Ela entendia de gente, logo de negócios. 

Ao chegar a Paris, um amigo me perguntou: “E então, cumpriu sua missão? Foi difícil cortar o ganha-pão da velhinha?” Meio sem jeito, disse que ela me convencera de que ainda não era hora. A indústria na Tunísia ia de vento em popa e ela tinha trunfos que só muitos anos de amizade com as tecelagens do país podiam garantir. E mudei de assunto. Mal sabia ele que a arte do encontro – regada à cepa certa – opera milagres. E que é em torno de uma boa garrafa que se opera a empatia e a tolerância. 

*Consultor, colunista de AMANHÃ e titular do Blog Ao Redor do Mundo, no Portal AMANHÃ. 


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Paulo Atzingen

Brilhante!

Luiz Fernando M. Castro

E quem foi que mais ganhou com isso? É o tal savoir-vivre ...

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