O boa praça Miele

Ele riu com gosto, e se saiu com um solidário: “A vida é assim mesmo, companheiro. Não há revés sem bônus”

Por Fernando Dourado Filho, de Caruaru (PE)

Luís Carlos Miele sendo entrevistado por Jô Soares

Faleceu na última quarta-feira (14), o boa praça Miele. Apesar de termos tomado juntos uns uísques na noite paulistana, ironias da vida me fizeram alimentar uma mágoa tola com relação a ele. E, conforme veremos, ele jamais teria sequer como desconfiar do sentimento torpe até eu relatá-lo de viva voz. Explico. No começo do ano 2000, diante do que me pareceu uma reação morosa das editoras em acolher meu livro Ao redor do mundo, resolvi bancar uma edição de 3 mil exemplares e distribuí-la por conta própria. Ora, isso era uma loucura – mesmo tendo contratado um assistente para cuidar das contas e aberto um puxadinho no escritório para o estoque. Desencadeadas ações promocionais, porém, eis que me ligaram da produção do Jô Soares para uma entrevista.Ora, se eu já acreditava cegamente no sucesso do livro, liguei para a gráfica e mandei rodar mais 5 mil exemplares depois da convocação para o talk show. “Venderia como pão quente”, falou o rapaz, “pois o livro era um primor.” 

Deixei-me manipular, caí na esparrela do auto-engano, e me preparei para o grande momento. Eis que me telefonou uma certa Myriam Clark, da Globo. De bate-pronto, me pediu para contar casos engraçados que constassem do livro. Ora, a temática intercultural é divertida, isso é certo. Mas a obra era séria pois dizia respeito a uma lacuna – ainda hoje existente – no currículo de profissionais brasileiros na hora de lidar com culturas estrangeiras como russos, japoneses, indianos e turcos. Assim, em nome da pureza de minha criação, rebati o lado anedótico. Ela não gostou.  

Contudo, pensei: o que diabos tinha a falar com a moça se eu já conhecia o Jô da Tabacaria Ranieri e sabia que o papo rolaria de maravilha? Quem era ela para mediar uma relação de gordos bem-falantes? Ora, a mulher era simplesmente tudo. Era uma espécie de volante de contenção e sem a liberação dela, nada ia adiante. Não fiz questão de ser simpático – ó Brasil, esse é o pecado dos pecados – e, por me recusar a ser folclórico, fui vetado. Pois bem, naquela noite, quem ocupou por dois blocos inteiros o lugar que eu dera como meu foi Miele. Convenhamos, ele estava ótimo: contou a história dos cachorros que só permitiam que ele entrasse em casa com dois uísques no hálito, sob pena de estranhá-lo. E a do cara que tangeu caranguejos pela rua como uma manada para justificar um atraso à esposa, já que tinha saído para comprar siris para uma caldeirada e encontrara amigos com quem ficara a bebericar. 

Mas foi graças àquele revés – e à falta de traquejo de Myriam, carente de tato de explicar que a entrevista prévia era de praxe – que fui vender meu livro junto ao público. Drenei dois anos de economias naquela brincadeira, mas percorri universidades Brasil afora para desencalhar o estoque. Quanto a Miele, é óbvio que fez muito mais bonito do que eu poderia ter feito. E terminei guardando uma lembrança boa daquele veto algoz. Foi por essa via que minha vida tomou outro rumo, apesar da dor de cabeça para pagar a dívida que contraí por ter calculado mal o passo. Mas não sou de queixas. Lembro da expressão de Miele quando lhe contei a historieta. Ele riu com gosto, e se saiu com um solidário: “A vida é assim mesmo, companheiro. Não há revés sem bônus”, arrematou. Só mesmo o da morte, grande e saudoso Miele.


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